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Prólogo de “Benethir e a Floresta dos Mil Terrores”

Ehva, sua mãe, murmurou:

- O mundo é muito perigoso! Até para os que sabem usar espada, como lorde Digon! E você nunca usou espada!

A mãe de Benethir se referia ao experimentado cavaleiro andante que volta e meia passava pelo pequeno vilarejo de Gold Potato, por entre muitas aventuras. Gold Potato é o local de moradia de umas poucas pequenas famílias de agricultores, como a do jovem Benethir que, desde sempre insatisfeito com a vida pacata do vilarejo, esperava pelas passagens do cavaleiro e colecionava as diversas histórias que Digon contava sobre suas andanças. O cavaleiro andante nunca foi um senhor de grandes posses, como os heroicos cavaleiros do oeste que ele mesmo descrevia a Benethir, mas as aventuras que contava sempre maravilharam o garoto. Com Digon, o jovem Benethir aprendeu a sonhar com a busca de grandes feitos.

- Eu sei usar espada, minha mãe. Lorde Digon me ensinou e eu nunca parei de praticar - respondeu o garoto audacioso.

A mulher rechonchuda, de longos cabelos castanhos presos a um pano preto que cobria sua cabeça, olhava desesperada para o rechonchudo, barbudo e careca marido, em busca de ajuda na dissuasão do filho. Robert, sentado em sua cadeira de balanço na varanda e fumando cachimbo, nada disse. Não estava interessado em impedir o filho de ir.

- Um dia eu volto, cheio de ouro e histórias gloriosas para contar, minha mãe - prometeu Benethir.

E assim o garoto partiu, a despeito da tristeza de sua mãe Ehva. O aperto no coração da mulher se dava pelo fato de, após o doloroso parto que deu vida a Benethir, ter ficado impossibilitada de ter outro bebê, o que a fez depositar todo o seu amor no filho único. Tal acontecimento triste trouxe uma frustração contida que acompanhou o resto da vida do taciturno marido de Ehva, Robert.

- Ele é homem - disse o pai de Benethir à esposa enquanto seu filho único partia, como se a afirmação pudesse trazer consolo à chorosa mulher trabalhadeira.

Benethir é um cavaleiro andante de 16 anos de idade. Bom, apesar de não ter sido sagrado cavaleiro em nenhum dos poucos reinos nos quais nunca pôs os pés, mas sabe que existem por histórias, Benethir procura agir como cavaleiro andante, sempre em busca de aventuras que, além de lhe tirarem do tédio da vida de camponês à qual foi destinado pelo nascimento, lhe rendam algumas pequenas recompensas em moedas de cobre, às vezes até mesmo em prata.
Apesar da glória de grandes feitos povoar as imaginações de Benethir desde quando era apenas um garoto imberbe, seus sonhos sempre foram fruto de zombaria a todos os que vivem em Gold Potato, seu vilarejo de origem, formado por 3 pequenas fazendas agrícolas. Os velhos camponeses e os poucos jovens que cresceram com Benethir têm mente simples, voltada apenas ao cultivo de legumes e verduras, então nunca compreenderam os anseios e motivos de Benethir ser tão diferente do resto do povoado. “O que foi feito para ser enxada não se transforma em espada”, diziam os mais velhos e respeitados.
Ao completar 15 anos de idade, Benethir largou o modo de vida de Gold Potato e, à despeito da descrença dos camponeses correlação ao seu potencial, decidiu sair em exploração ao mundo, tornando pequenas ocorrências de vilarejo em vilarejo a sua rotina de jovem aventureiro. Seu corpo esguio e desenvolvido no arado ganhou alguns músculos e seus cabelos castanhos são mantidos curtos por sua faca curta. A barba rala Benethir deixou desenhar-se em seu rosto ossudo, como que em sinal de bravura.
Seus pequenos feitos ao longo do primeiro ano de aventuras, capturando ladrões de galinhas e legumes, bem como derrotando alguns poucos goblins errantes a perturbar a paz nos vilarejos próximos, lhe garantiram alguma fama nos campos, mas o jovem aventureiro começou a se perguntar quando uma aventura de verdade iria entrar em sua vida.

- Os potatoanos ainda verão a minha glória - acostumou-se a dizer para si mesmo.

Eis que houve uma noite que, em uma não tão longa viagem para o sul, perto das montanhas de Snakey, Benethir descansava em seu modesto acampamento em um arvoredo calmo e pouco denso sob um céu estrelado quando Névoa, seu cavalo, relinchou. Repentinamente, um guerreiro anão saiu capengando de moitas próximas, vindo do oeste, surpreendendo Benethir.

- Me ajude.

Benethir largou seu cobertor de pele de carneiro e rapidamente sacou sua espada de ferro, mas baixou a guarda ao perceber que o anão estava ferido. Era a primeira vez que o jovem camponês se deparava com um anão, cuja existência da raça o garoto só havia ouvido falar em algumas histórias sobre um povo de um reino ao noroeste distante de Gold Potato, cujo nome o jovem não lembrava. O inesperado visitante possuía barba cerrada e tinha um meio-elmo de ferro sobre a cabeça. Duas rústicas setas de besta estavam cravadas em seu tronco gorducho sob uma bela cota de malha, fruto do incomparável e lendário artesanato dos anões.

- Acalme-se - disse Benethir.

O jovem aventureiro ergueu e carregou o guerreiro anão para perto do fogo da fraca fogueira de seu acampamento e lhe deu água de seu cantil. O anão tremia, então Benethir o envolveu com seu cobertor de pele de carneiro. O ferido gemeu e tossiu.
Sentado e de olhos fixos na fogueira reavivada por Benethir, o anão gritou:

- Vou pegá-los! Vou matá-los! Não se preocupe, Hiflir! Dohart, o Alto, lhe resgatará o martelo. Ah, não duvides… eu vou!

Benethir permaneceu agachado em silêncio, mas deduziu que as setas que perfuravam o anão estavam envenenadas e o presumível Dohart, o Alto, estava delirando.

- Armadilha! Cuidado! - gritou Dohart novamente. - O martelo! Leve o martelo a Hiflir! Salve os anões!

Dohart tombou para o lado e Benethir foi ao seu auxílio.

- Se acalme, nobre guerreiro anão.

Dohart meio fechou os olhos e murmurou:

- Nos ajude… leve o martelo para Hiflir… somente o martelo poderá unir nosso povo contra os malditos trolls… cof …fomos emboscados… muitos foram mortos… quando estávamos a caminho da Floresta dos Mil Terrores, em busca do martelo. O mapa em meu alforje o levará até… a casa de Hezlodar, o mago mais poderoso dessas bandas. Ele tem grandes mágicas que… cof cof …tu poderás comprar para que te protejam das… amaldiçoadas criaturas da Floresta dos Mil Terrores.

A voz do anão falhou e Benethir lhe deu mais um gole d’água. O aventureiro prestava atenção a tudo o que o guerreiro anão lhe dizia.
Dohart prosseguiu, fixando os olhos desesperadamente em Benethir:

- Leve meu ouro… eu imploro a ti, encontre o martelo e o leve a Hiflir, meu senhor em Hardstone… tu serás recompensado.

E essas foram as últimas palavras de Dohart, o Alto. Antes de Benethir lhe perguntar sobre quem o havia emboscado, o guerreiro anão morreu, deixando outras tantas perguntas na cabeça de Benethir. “Que martelo é esse?”, “Quem é Hezlodar?”. Pelo menos se lembrou de que o nome do reino anão a noroeste de Gold Potato, que havia ouvido falar em histórias, era o mesmo dado pelo guerreiro anão: Hardstone. A informação dava certa credibilidade ao relato de Dohart, o Alto.
No alforje do anão moribundo, Benethir encontrou um mapa que apontava a casa do suposto mago Hezlodar, ao sul da Floresta dos Mil Terrores (sudoeste das montanhas de Snakey), e o reino anão de Hardstone ao norte da floresta (noroeste de Snakey). Também encontrou 30 moedas de ouro. Benethir ficou absolutamente maravilhado ao, pela primeira vez na vida, ter ouro nas mãos. O jovem aventureiro respirou fundo e sentiu o coração palpitar pois estava vivendo uma situação extraordinária.

Enquanto enterrava o guerreiro anão, Benethir se lembrou de quando, logo após deixar seus pais para trás, viajou ao vilarejo de Ironail, vizinho de Gold Potato, para gastar todo o dinheiro que possuía na compra de uma espada e um cavalo. Sua espada de ferro é, no máximo, um razoável trabalho de forja, mas foi o que o seu modesto peso em dinheiro lhe possibilitou comprar. Ao cavalo deu o nome de Névoa, em virtude da cor cinza esbranquiçada do razoavelmente bom animal. Foi assim que começou a busca de Benethir, o Cavaleiro Sem Título, por uma grande história heroica. Seria a aparição de Dohart o início da tão sonhada grande aventura? A aventura que ele tanto pediu aos deuses?
Benethir fez uma prece pela alma de Dohart, rogando aos deuses anões, inomináveis para ele, ignorante correlação à cultura dos famosos anões do norte. A estes deuses desconhecidos (e também aos seus deuses) pediu forças para a empreitada que estava prestes a iniciar, imaginando que os deuses dos anões se importariam com essa causa e lhe ajudariam nas suas dificuldades. Então o jovem cavaleiro andante não esperou o raiar do dia seguinte, desfez o acampamento, montou em Névoa e cavalgou rapidamente para o sul da Floresta dos Mil Terrores.

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Fantasia e Ficção Científica são os gêneros literários de maior visibilidade em meu perfil, mas também falo de história, filosofia, sociologia e antropologia. Artigos científicos também têm o seu espaço aqui, assim como o cinema, a minha paixão.

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Bruno Birth

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