A sociedade dos Walking Dead

É um contrassenso falar de “Saúde do Século 21” em uma sociedade que mantém hábitos de vida do século 20 cuja norma é comer comida tóxica (o Brasil é número 1 no mundo em uso de agrotóxicos), beber bebida tóxica, respirar ar tóxico, não fazer exercícios físicos, dormir mal, viver sob estresse e ingerir indiscriminadamente drogas e remédios. Prevenção zero. Cuidado zero. Preocupação zero.
“Pra quê essa neura? Alimentar-se bem dá muito trabalho! Um dia todos vamos morrer mesmo”. É certo que todos vamos morrer independentemente de levar uma vida saudável ou não — a morte tem boa memória e nunca esqueceu ninguém. A questão não é a morte em si, mas os anos que precedem a morte.
Você poderá ser saudável até o último minuto, tal como uma lâmpada que se mantém luminosa até se queimar. Ou passar anos, e principalmente os anos finais, em um vai e vem de hospitais ou na cama– uma lâmpada piscando e falhando sem cumprir a finalidade. A vida é curta, mas a velhice é longa.
Cedo ou tarde teremos de lidar com as consequências de nossas escolhas. Quem não tem tempo para cuidar da saúde, um dia terá de arrumar tempo para tratar das doenças.
Não existe solução para criação de uma “Saúde do Século 21” sem passar pelo questionamento dos hábitos de vida, o que fazemos hoje é combater os sintomas, não as causas. Até mesmo um tumor cancerígeno é um sintoma, quando é extraído eliminamos o sintoma e não a causa. Depois volta novamente.
Então vêm as perguntas que ninguém quer fazer para si mesmo: Se vivo em um ambiente tóxico e hostil à saúde, por que acho isso normal? E se não acho normal, o que estou fazendo a respeito?
Refrigerantes estão no topo do que existe de pior para a saúde de um ser humano. Para cada copo de refrigerante que tomamos serão necessários 32 copos de água para limpar as toxinas. Retirar os refrigerantes da dieta é uma das decisões mais importantes que uma pessoa pode tomar para sua saúde e de sua família. Mas entre num supermercado e veja a quantidade impressionante de refrigerantes que é vendida sob slogans criativos: “Sinta o sabor”, “Abra a felicidade”, “Viva o que é bom”, “Emoção pra valer”, “Todo mundo quer”, “Energia que contagia” e muitos outros. Cada ano um novo slogan.Quanta ilusão.
Com objetivo de manter vendas em alta, as empresas têm utilizado técnicas de engenharia de alimentos e comportamental para induzir dependência física e psicológica juntamente com investimentos massivos em publicidade. Dos USD 51 milhões gastos pelo governo dos EUA em publicidade de alimentação saudável e prática de exercícios físicos, USD 1,6 bilhão é gasto pela indústria de produtos alimentícios em propaganda de produtos hipercalóricos e pouco nutritivos. No Brasil não é diferente.
Produto alimentício não é sinônimo de alimento, assim como estar gordo não é sinônimo de estar bem nutrido. As pessoas ficam gordas, mal nutridas e doentes.
O cérebro humano é inclinado a buscar o máximo de recompensas com o mínimo esforço e as empresas oferecem isso: alimentos quimicamente modificados para estimular zonas de prazer a preços baixos. O resultado é que a comida normal fica sem gosto quando comparada à comida processada, as pessoas se tornam viciadas em sal, carboidrato e gordura.
Crianças passaram a sentir vergonha de levar frutas como lanche na escola porque são vistas como pobres, a ideia prevalecente é que pessoas bem-sucedidas comem alimentos industrializados. Os pais, por sua vez, ficam orgulhosos em oferecer a seus filhos o que não tiveram em sua própria infância.
Alimentar-se está entre as poucas coisas que as pessoas fazem ao longo de toda a vida. Então por que não existe uma disciplina e uma prática de educação nutricional na escola? Ao contrário, o que se observa é uma deterioração da consciência alimentar na merenda. Alunos da escola estadual Valério Strang de Mogi Mirim-SP denunciaram recentemente que as merendas foram substituídas por bolacha com achocolatado ou suco de caixinha. Antes, tinham arroz, feijão, carne e salada.
Não é por menos que a cada dia mais pessoas ficam doentes. E todos ainda reclamam da área da saúde que não atende a demanda! Mas como é possível encher uma caixa d’água cheia de furos? Em breve precisaremos de 200 milhões de leitos nos hospitais, um para cada brasileiro.
A ficção está virando realidade, pouco a pouco estamos criando a sociedade dos Walking Dead… e você pode estar se transformando em um deles.