Essa escola que está aí já era

A base do modelo escolar continua sendo do século 19 operacionalizada em instalações do século 20. Busca nivelar em uma média medíocre na tentativa de aumentar conhecimentos que as pessoas não querem inibindo o avanço daquilo que as pessoas querem. Em vez de despertar e florescer os talentos naturais de cada indivíduo bloqueia-os, resultado de uma pedagogia que premia conformidade e não criatividade. Talentos individuais são sufocados e o não talento forçado a se manifestar. Ninguém pode ser tudo em algo porque tem de ser metade em tudo. As crianças nascem originais e se tornam cópias.
Nesse modelo está implícito que a escola é uma planta industrial cuja linha de montagem transforma pessoas em produtos padronizados. Foi construída para priorizar o cumprimento de regras e o controle social, pensada para produzir cidadãos obedientes, consumistas e eficazes, que pouco a pouco vai desumanizando e convertendo todos em números, qualificações e estatísticas. Tal como na indústria, a classe tem um professor que representa a autoridade hierárquica. Há horário de início e fim das atividades e os alunos têm de agir de acordo com códigos de conduta. O sinal do recreio é a antecipação do que vivenciarão no futuro com o apito da fábrica, a lista de presença: o ponto, o uniforme escolar: o traje de trabalho e os meios de transporte de casa para a escola: os meios de transporte de casa para o trabalho. Por que as férias duram mais de dois meses? Por que uma aula tem de ter duração fixa? Por que uma classe deve ter um número predeterminado de alunos? Ricardo Semler têm feito essas perguntas ao mesmo tempo que defende a ideia de os alunos estudarem somente aquilo que lhes interessa e que os procedimentos pedagógicos sejam democraticamente deliberados.
“Infelizmente a escola não é uma coisa prazerosa. Esse é o grande desafio. A escola deveria se assemelhar muito mais a um parque de diversões, um lugar prazeroso. A escola hoje se parece mais com uma fábrica, que tem sino para entrar, sino para sair, a cada 50 minutos muda a matéria, tem uma hierarquização danada, aí deixa de ser fábrica e vira cadeia, quartel, e às vezes chega ao ponto de parecer hospício… Hoje, as crianças têm um currículo que metade das informações é inútil. Ou então se aprende um monte de gramática, mas não a gostar de ler. O aluno fingindo que aprendeu, o professor fingindo que ensinou, a escola fingindo que existe, o Estado fingindo que paga e nós pensando que essa educação forma. Ela finge que forma”. Tião Rocha, antropólogo “por formação acadêmica”, educador popular “por opção política” e folclorista “por necessidade”. Idealizador do CPCD — Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento
A criança é a primeira vítima ao sufocar sua liberdade tirando-lhe a capacidade de reflexão e crítica, tudo feito com uma cumplicidade desconcertante dos pais. É criada para reproduzir, não para produzir, conformando-se a um sistema social rotineiro em que o ser humano não é prioridade. Apenas representa um nível baixo de desenvolvimento humano: o de obedecer para evitar punição. O aluno faz tudo para passar de ano e mais tarde no trabalho fará tudo para passar o mês na espera do salário. Aprende-se rápido a vender a vida e a escola cumpre seu papel.
O conceito de educação ainda está preso a paradigmas do passado: conhecimento fisicamente centralizado em instituições, professores como protagonistas, livros-texto como base do estudo, testes individuais avaliando o progresso e estudantes agrupados por idade. A conformidade com o sistema é premiada enquanto a criatividade é desestimulada. Por que alguém que nasceu com vocação para medicina ou para o estudo de processos inflamatórios tem de dedicar tempo estudando geografia? Ou quem nasceu vocacionado para a física ter de decorar regras gramaticais? Qual é o motivo de se congelar o sistema educacional para preparação perfeita de pessoas para um mundo que não existe mais quando se poderia mover adiante e prepará-las para o século 21?
“Agora tenho uma métrica simples que utilizo: você está trabalhando em algo que pode mudar o mundo? Sim ou não? A resposta para 99,99999% das pessoas é ‘não’. Penso que nós precisamos treinar pessoas em como mudar o mundo”. Larry Page em palestra na conferência de fundação da Singularity University
O próximo passo de evolução requer que a educação passe a ocorrer em qualquer lugar, a qualquer tempo e de todas as formas. Apesar de os currículos escolares continuarem alinhados com objetivos, é necessário que os objetivos se alinhem com os talentos naturais de cada um e necessidades da sociedade. O que está morrendo são as receitas pré-concebidas, o que está nascendo é a realização do potencial.
Este é o primeiro post de uma sequência que vou publicar sobre o sistema educacional. A necessidade de evoluir esse sistema retrógrado cuja data de validade venceu há muito tempo.