Meu doutorado informal

Quando concluí o mestrado em 1991, decidi que cursaria doutorado mais adiante e em 2013 parecia que esse momento de voltar aos bancos da universidade havia chegado. Espere um minuto, voltar aos bancos da universidade em pleno século 21? Qual é o sentido disso? Tal como os ponteiros do relógio que se movimentam lentamente ao fixar o olhar, quando deixamos de prestar atenção passam a se mover rapidamente.

A diferença do relógio para o mundo é que a velocidade do ponteiro é constante e a do mundo exponencial. Tudo evoluiu de tal maneira nas últimas décadas que a simples ideia de me submeter a um programa acadêmico rígido deixou de fazer sentido. O monopólio do conhecimento foi perdido, resta aos programas formais apenas o monopólio do diploma. Qual seria a alternativa aos cursos acadêmicos tradicionais? E assim veio a primeira mudança de modelo mental.

Meu objetivo era pesquisar sobre a construção das organizações do século 21 em tempos de mudança acelerada e como promover transformações sucessivas nos negócios para que pudessem acompanhar o ritmo de evolução. Pouco se falava em Business Transformation (BT) na ocasião, mas estava claro para mim que seria um dos temas mais relevantes para as organizações nos próximos anos. Também não havia livros específicos sobre o assunto, mas acessando o catálogo online da Amazon pude encontrar autores com os quais me identificava e compartilhava visão de mundo nos vários temas que compõem BT.

No início não tinha o hábito de ler em formato e-book, preferia livros impressos. Mas como demoravam muito para chegar e custavam mais caro resolvi adquiri-los no formato Kindle. Para minha surpresa, após dois ou três livros lidos eletronicamente, já havia me acostumado ao ponto de não mais ter prazer em ler livros impressos. Ficava irritado com o peso, ter de folhear páginas e fazer anotações que se perdiam nos volumes (talvez livros de romance continuem atrativos de forma impressa, mas não livros de negócio). Essa mudança de físico para digital possibilitou ler uma quantidade maior e estruturar a leitura de modo notavelmente mais eficaz o que causou a segunda mudança de modelo mental. A terceira foi quando passei a assistir pelo YouTube, Vimeo e outros, as conferências, aulas e keynote dos autores dos livros. Foram centenas de horas.

E a pergunta que você deve estar fazendo agora é: como ele encontrou tempo para ver tantas horas de vídeo? Na verdade, não encontrei, eu já tinha e não aproveitava. Como me exercito todos os dias por uma hora e o tempo custava a passar (ouvir música como distração nunca funcionou bem para mim), passei a assistir aos vídeos durante os exercícios físicos e as horas começaram a ficar bem mais interessantes. O tempo que se arrastava, passou a voar. É incrível a quantidade de tempo que as pessoas desperdiçam em suas vidas e que poderiam aproveitar de tantos outros modos, inclusive estudar.

Havia criado o melhor programa de doutorado no mundo para mim, com os autores que queria, lendo as obras que me faziam sentido, estudando nos momentos que podia, sem precisar me deslocar e a um custo infinitamente inferior se comparado a cursos tradicionais. Viajava em dobra espacial em vez de passo de tartaruga. A consequência foi que deixei de me submeter a matérias e corpo docente impostos por programas acadêmicos rígidos e limitados para criar um programa customizado e ilimitado. Nenhum curso formal no mundo poderia me oferecer o mesmo. E assim veio a quarta mudança mental.

O resultado foi consolidado em um livro que lancei em setembro/2015 pela Amazon Kindle: Business Transformation — Construindo as organizações do século 21 com a intenção de difundir BT, impulsionar debates sobre a construção das organizações do século 21, receber feedback e interagir. Meu objetivo não foi conquistar um título acadêmico, o que fiz foi um doutorado informal. O trabalho está aberto para discussão pela comunidade em vez de fechado em uma banca examinadora.

Estou feliz com a escolha e o caminho percorrido, faria tudo novamente sem hesitação. Não sou a única voz no deserto a pregar o estudo independente. Na Amazon há boas obras sobre o assunto: Don’t Go Back to School, The Art of Self-Directed Learning e Better than College. Uma matéria interessante também foi publicada no Business Insider em 14/02/2016: 6 reasons you shouldn’t go back to school.

Para mim o que faz a vida valer a pena é despertar todos os dias com um propósito e dormir as noites com a sensação de ter feito alguma diferença no mundo. Assim como Dom Helder Câmara, também “gosto de pássaros que se apaixonam pelas estrelas e voam em sua direção até caírem de cansaço”.