Guia NBA — Memphis Grizzlies: Mike Conley, o homem de 153 milhões de dólares

Principal símbolo dos novos salary caps, o armador vai ter que provar seu valor

Vale mesmo o segundo maior salário da liga? (Sean Davis/Flickr)

Muita coisa aconteceu em Memphis ultimamente. Mais dinheiro pra cima do que o Silvio Santos e seus famosos aviõezinhos para a plateia. A franquia fez uma das participações mais chocantes da janela de free agency. Deu à sua estrela a regalia de ser o segundo jogador mais bem pago da liga nessa temporada, apenas atrás de Lebron James.

Não que Mike Conley Jr. não mereça destaque e um bom salário, ele é um dos melhores point guards da NBA. Mas, chegar ao ponto de ter o maior contrato da história, aí já podemos olhar mais de lado.

A questão é que o Memphis Grizzlies passa por um processo muito interessante de se acompanhar. Essa é uma das marcas mais novas da liga, participando de sua primeira temporada apenas em 1995 (mais novo que eu!) quando ainda era a segunda franquia do Canadá, os Vancouver Grizzlies. Passou-se um tempo e houve sua realocação para Memphis.

Como um time tão novo, este ainda carece de uma construção e estabelecimento histórico, uma real identidade. Além, claro, da solidificação de seus ídolos. E é justamente isso que estamos acompanhando. Caras como Marc Gasol e o próprio Mike Conley, estão estabelecendo seus papeis como personagens que serão lembradas na franquia da cidade do Tennessee. Ainda num passado não tão distante há o sucesso do outro Gasol, o Pau, e de mais uma das feras do draft de 1996, Shareef Abdur-Rahim.

Não, esse time a princípio não briga por títulos. Mas convenhamos que sua consistência nas últimas temporadas, indo para 6 playoffs consecutivos (mesmo que na maior parte caindo no 1º round), é louvável e garante no mínimo uma menção honrosa na história recente do que o time vem construindo.

COMO FOI NA TEMPORADA PASSADA

A equipe montada para a temporada passada era um tanto quanto estranha. Um contraste meio básico às personalidades calmas de seus dois principais jogadores. Boa parte do time tinha histórico de prisões e punições por indisciplina. Algo que ia de Chris Anderson ( O BIRDMAN!) à Zach Randolph, de P. J. Harriston à Matt Barnes. Enfim, um desses times com caras durões e fama de badboys.

Mesmo com as sólidas campanhas dos anos anteriores, havia um pé atrás em como o time se viraria com tantos jogadores indisciplinados. Além do sempre iminente medo de ver Mike Conley se machucar, como nos playoffs da temporada 2014–15.

Pois David Joerger sabia como trabalhar ali. Durante os outros dois anos que havia dirigido o time obteve ele manteve o recorde de 105 vitórias e 59 derrotas. Que o nível em si dos atletas caísse, que a média de idade fosse alta. Ele trabalhou muito bem com uma equipe focada no desempenho defensivo e em partidas bastante físicas, aproveitando justamente as qualidades dos valentões que tinha em mãos.

O resultado foi a 7ª vaga nos playoffs pela conferência Oeste. Olhar para as médias individuais, não notamos um grande destaque ofensivo e que segurou as estatísticas nesse quesito. O maior pontuador foi Marc Gasol, com cerca de 16 pontos de média, seguido de Zach Randolph e Mike Conley, com 15 de média cada.

O destaque mesmo ficou o quanto o time manteve-se sólido, ainda em suas limitações técnicas obviamente, mesmo quando viu seus principais jogadores perder jogos por conta de lesões. Com isso tivemos uma boa divisão nas estatísticas e responsabilidades em quadra, assim além dos caras supracitados outros 5 jogadores obtiveram médias superiores a 10 pontos por jogo, e mesmo os que não chegaram a isso deram suas contribuições na parte defensiva, caso do monstro Tony Allen, o qual o próprio Kobe Bryant reconheceu como o marcador mais insuportável que já enfrentou.

O QUE MUDOU?

Bastante coisa mudou até no time. A maior parte dos considerados encrenqueiros foram embora: Birdman foi para Cleveland, Harriston foi para Houston e Barnes foi para Sacramento. Foram mantidos, além das estrelas, veteranos chave para o funcionamento tático da equipe e que possam corresponder positivamente aos berros do novo treinador.

Pois é, Dave Joerger foi usar sua experiência com times problemáticos para tentar resolver as coisas em no Sacramento Kings. Nos seu lugar, chegou um treinador estreante David Fizdale. Fato que não assusta muito a respeito do que pode vir a ser o desempenho da equipe.

Fizdale foi assistente de Erik Spoelstra no Miami Heat de 2008 até essa última temporada, de em 2016. O estilo enérgico e gritão que busca “pedir o melhor do jogador” agrada bastante, inclusive aos jogadores. Quem sabe sua experiência com dois títulos ao lado do Big Trio da Flórida não possa trazer algo que faltava ao Memphis.

Outro destaque foi a atuação na free agency. Importou o consistente Chandler Parsons e focou em trazer jogadores mais jovens e sólidos com um histórico de lesões pouco preocupante. Visto que na temporada passada o time chegou a utilizar um recorde de 28 jogadores ao longo da temporada, por conta do grande número de lesões. Apenas Matt Barnes e Jamychal Green ultrapassaram a marca de 70 partidas jogadas na temporada.

Chegaram dois rookies potenciais. Deyonta Davis, 1º pick da segunda rodada, que assusta pelo histórico de lesões, mas caso tenha consistência no número de jogos pode ser um grande steal do draft e um dos grandes alas-pivôs da liga. E o atlético armador Wade Baldwin IV, 17ª escolha geral, que também pode superar previsões e inclusive ganhar alguns minutos no banco limitado do Memphis.

Porém o grande fato da intertemporada foi o ENORME contrato assinado com Mike Conley, que ganhará 153 milhões de dólares em 5 anos. O feito pode ser avaliado em diferentes sentidos. Pode-se questionar se ele realmente merece essa grana em relação a outras estrelas da liga, bem como pode justificar esse salário por sua importância na própria franquia, duvide ou não de sua qualidade, lá Conley é ídolo e muitos defenderão que ele realmente vale todo esse dinheiro.

NOSSA OPINIÃO

Memphis tem se mostrado uma franquia muito sólida em seu desempenho. Não há estratégias de gerência mirabolantes, investimento em supertime ou alguém que esteja superando as expectativas acerca de sua carreira. Esse time vem jogando de maneira coletiva.

Confiam obviamente na decisividade das estrelas de Mike Conley e Marc Gasol. Mas é impossível dizer que esse time resume suas estatísticas a esses dois, como podemos falar sobre o Sacramento Kings e DeMarcus Cousins. A atuação coletiva, um padrão de jogo bastante voltado para o desempenho defensivo vem garantindo a esse time temporadas consecutivas nos playoffs.

E não se trata simplesmente de acumular estatísticas em roubos de bola e tocos. Ver o Grizzlies jogar nos últimos anos vem sendo uma aula de fundamentos, assistir a caras como Tony Allen jogando é fundamental caso você queira definir um bom marcador. Proteção, insistência, mudar direção de chutes, fechar espaços e forçar erros, são fatores que não se traduzem em números básicos como os que avaliamos normalmente. E nisso, o Grizzlies talvez seja o melhor time da NBA, abordando o sentido coletivo.

Pelo menos é o que mostrava com David Joerger, pelo menos é o que mostrava antes de ter o segundo jogador mais bem pago da liga. Esse segundo fator aí pode muito bem parecer uma mera formalidade, mas gera discordâncias e certas pressões nesses determinados jogadores, que pode acabar se tornando uma queda no rendimento, vide Joe Johnson.

Não imagino Fizdale fazendo mudanças radicais no jeito de jogar do time. Provavelmente, tentará desenvolver os fundamentos ofensivos dos inúmeros jovens, e trazer uma mentalidade de All-Stars na mente dos jogadores mais importantes.

A principal mudança que o treinador apontou até então que Zach Randolph será seu sexto homem, dando a Jamychal Green a titularidade. Isso porém já vinha acontecendo nas mãos de Joerger, e é uma tendência da liga deixar esses pivôs e alas-pivôs pesados e com bom chute de média distância como opções de banco.

O time titular muito provavelmente virá com: Mike Conley; Tony Allen; Chandler Parsons; Jamychal Green e Marc Gasol. Isso excluindo o começo da temporada que já prevê a não estreia de Parsons e um tempinho de molho para Conley e Allen.

Esse é um time que sempre começa com uma ponta de desesperança, mas, de alguma maneira, tem galgado seu espaço nas pós-temporadas, vale à pena ficar de olho.

Dados: Basketball-Reference, RealGM, ESPN, CBS, USAToday.