O besteirol que vale a pena

Por José Claudio Pimentel

De antemão, você tem o palpite de que o filme é mais um tradicional besteirol americano. O cartaz com a protagonista loira (Rachel McAdams) sobrepõe o nome de mau gosto “Manhã Gloriosa” (Morning Glory). Nada parece vender a real mensagem do filme. Até mesmo quando ele já está rodando, a história demora a engrenar. Parece se esforçar para o espectador a desistir dele a todo momento.

A Paramount, estúdio que produziu vídeo em 2010, divulga o filme como uma comédia. Não deixa de ser, afinal é cercado de situações inusitadas e, também, constrangedoras. A produção, entretanto, pode ir além, ao forçar a reflexão sobre como é o caminho pela busca da felicidade.

A canadense Rachel — que recentemente esteve em “Spotlight — Segredos Revelados” — interpreta a jornalista Becky Fuller de uma emissora numa cidade do interior. Ela é uma estressada e desesperada produtora de um telejornal regional de início de dia, que tem bastante serviço noticioso desqualificado e entretenimento barato. É mais uma nas trincheiras da mídia.

Enquanto aguarda uma promoção de cargo, é uma demissão que a pega de surpresa. Desacreditada pela família, Becky busca recolocação e dispara currículos para todos os lados. Depois de quase desistir, é chamada para uma entrevista numa rede de televisão nacional, mas que possui uma das menores audiências. É partir desse momento que o filme, finalmente, começa a melhorar.

A protagonista deixa claro a todo momento que está em busca de status. Quer mais e mais — e isso é o que a alimenta. Na única oportunidade ofertada entre dezenas de outras, ela fracassa na entrevista. Estava ansiosa demais. Tudo estaria perdido se o próprio contratante não estivesse desesperado por preencher a vaga, que fora recusada várias vezes.

Becky se torna a produtora executiva do pior telejornal matutino dos Estado Unidos, incapaz de competir com os maiores. O formato enlatado era o mesmo daquele de onde ela havia sido demitida, mas com problemas muito maiores. O desafio era qualificar aquele ambiente e mostrar que era possível fazer muito com pouco. E isso ela faz muito bem.

Quando a âncora, ex-miss Arizona, Coleen Peck (a competentíssima Diane Keaton) aparece no filme, surge a esperança. A situação só vai melhorar quando o premiado jornalista das antigas Mike Pomeroy (o lendário Harrison Ford) chega para tonar o ambiente ainda mais delicado. Ele se recusa a falar sobre moda e ela não quer tê-lo como colega de bancada.

O ponto forte do filme, dirigido por Roger Michell, de “Um Fim de Semana em Paris” (2013) e “Vênus” (2006), é revelar os bastidores da televisão americana. Para quem gosta, é um prato cheio. Conflitos são tão habituais nas equipes que estão em frente e atrás das câmeras, como as situações que beiram o absurdo, mas que quase ninguém fica sabendo.

A fotografia não sai do arroz e feijão, assim como a básica trilha sonora que acompanha os momentos de emoção e ação. Basicamente, as filmagens ocorrem dentro de estúdios. As externas nada mais são que passagens de tempo, que dão um respiro à demorada história.

Sim, o filme não deixa de ser um besteirol — é preciso admitir e alertar sobre isso. Entretanto, quando Beck chega ao ápice é que a mensagem passa a ser transmitida. As relações humanas, diante daquele universo tão desumano, é que fazem o filme merecer ser contemplado, revisto e, porque não, melhor compreendido.