Uma manhã na Javari

Foi num domingo de manhã que começou a temporada de futebol de 2016 para esse tradicional time da Mooca e para os mais de três mil torcedores que foram ao Estádio Conde Rodolfo Crespi, na Rua Javari.
O jogo contra o Penapolense, pela Série A-2 do Paulistão, marcava o início da corrida rumo à elite do futebol paulista. Tarefa ainda mais árdua que o normal nesse ano em que apenas os dois primeiros conseguem o tão sonhado acesso — a Federação Paulista de Futebol determinou que em 2016 seis times caem da primeira divisão e apenas dois sobem, para encurtar o campeonato da Série A-1 no ano que vem, deixando-o com 16 times — e no qual diversos times tradicionais disputam o campeonato: Guarani, Portuguesa, Paulista, São Caetano e Bragantino também estão na luta pelo acesso.
Como que para presentear os mais de três mil torcedores (público maior que de dois jogos do Fluminense no carioca somados), o domingo foi de calor e um lindo céu azul, como vocês podem ver na foto acima, tirada no dia. Mas o mesmo calor que favoreceu a torcida castigou os jogadores, que estavam realizando o primeiro jogo da temporada, com o físico um pouco abaixo do ideal.
De qualquer forma, o jogo foi movimentado, com várias chances de gol. Ainda no primeiro tempo, Adriano, atacante do Juventus perdeu um gol feito, debaixo da trave. Os torcedores que estavam do outro lado do campo não entenderam o que estava acontecendo, chegaram a comemorar antes de perceberem que a bola não entrou.
Para alegria dos presentes, o gol saiu no finalzinho do primeiro tempo, em um pênalti sofrido e convertido por Léo Souza. Era o time grená e branco iniciando o ano da maneira certa.
No intervalo, uma surpresa: Seu Antônio é chamado para o campo, para uma homenagem. Ana Maria Braga iria fazer uma reportagem sobre seu famoso cannoli.
O quê? Você não conhece o cannoli do Seu Antônio?
Bem, há muitos e muitos anos Seu Antônio vende um doce, o cannoli, nos jogos do Juventus. Ele já é um senhor, muito humilde, simpático, atende a todos com carinho e é mais do que famoso na Rua Javari. Durante os jogos, assim que posiciona sua mesinha e inicia a venda dos cannolis, a fila se forma, mesmo com o jogo rolando. Quando o juiz apita o final do primeiro tempo, a fila fica muito grande, parece que todo estádio vai comprar um (na verdade, nunca é apenas um).
Saboreada a iguaria, voltamos ao alambrado para o segundo tempo. Ah, sim, não contei que uma das coisas mais legais de se assistir um jogo do Juventus em seu estádio é ficar no alambrado. Dá pra sentir o cheiro da grama! Mas se você prefere um pouco mais de conforto, pode ficar na disputada arquibancada coberta, não se preocupe.
O segundo tempo foi bem aberto, com o Penapolense, de Zelão (ex-Corinthians) e Rodrigo Souto (ex-São Paulo e Santos), pressionando um pouco o Juventus que, por sua vez, não abdicava do ataque. De fato, o time ainda teve algumas chances, principalmente com Adriano, que perdeu mais gols, um tão ou mais incrível quanto aquele do primeiro tempo. Com o gol aberto, ele chutou para fora. Vocês teriam que ver para acreditar.
A vitória foi segurada até o final e a torcida pôde comemorar logo no começo da temporada. Mas não foi só a torcida que celebrou; apesar de o time ter uma torcida apaixonada, fanática, que apoia o time o tempo todo, os jogos do Juventus conseguem reunir pessoas que torcem para outro time no mesmo lugar e que vão apenas para curtir o futebol e a atmosfera, que é um pouco diferente do costumeiro nos estádios. São paulinos, corintianos, palmeirenses, todos vão à Rua Javari torcer pelo Moleque Travesso.
E é isso que é tão especial nos jogos do Juventus. Ele consegue unir a torcida, a paixão pelo clube e pelo futebol com a alegria, a família, a diversão. Ver um jogo na Rua Javari é uma experiência ótima, divertida, tanto para torcedores do time quanto para quem está ali apenas para conhecer um pouco da cultura paulistana. Mas, como dito, não se engane: a torcida é fanática e leva os jogos a sério, como tem que ser, como qualquer outro torcedor de qualquer outro time encara a partida de seu clube do coração.
Tenho que ressaltar, claro, que o Juventus fica na Mooca, bairro da zona leste com forte presença de imigrantes italianos. Os moradores da região adotaram o time e é possível perceber, nas idas ao estádio, a forte influência italiana e até um certo bairrismo por parte dos torcedores e frequentadores do clube, que o consideram muito. O clube faz parte da vida do bairro e isso com certeza é mais um dos fatores que tornam o ambiente na Rua Javari distinto dos demais estádios.
Quanto à luta pelo acesso, vamos lá:
- na segunda rodada, o Juventus ganhou da Portuguesa, fora de casa, também por 1x0, num jogo tenso. Dois jogos, duas vitórias;
- na rodada seguinte, porém, jogando em casa, o time foi derrotado pelo Velo Clube, sensação do campeonato, líder com 100% de aproveitamento;
- Em seguida, empate por 1x1 fora de casa contra o Monte Azul;
- O próximo jogo é neste domingo, 14, contra o Rio Branco, em casa. O time grená e branco contará, mais uma vez, com o apoio de seus torcedores e, até mesmo, de torcedores de outros times.
Até o momento, o time está em oitavo, com 7 pontos em 4 jogos, 3 pontos atrás do Santo André, vice-líder e a 5 do Velo Clube, que lidera com 12 pontos. O Rio Branco é o lanterna, com apenas um ponto conquistado, o que torna o jogo importantíssimo pro Moleque Travesso, que tem chance de se aproximar da liderança.
Em suma, vá ver um jogo do Juventus.
Esse é o primeiro post do Círculo Central. Vamos falar sobre futebol, mas tentar fazê-lo de uma forma um pouco diferente. Gostaram? Então, recomendem, compartilhem, eu agradeço muito.
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