Varus é Gay? E agora?

O elemento mais importante da história do Varus é AMOR.

A QUESTÃO

Normalmente o título e o subtítulo desse artigo deveriam ser o suficiente sobre esse assunto, ou ao menos, sobre a polêmica gerada em cima do mesmo, já que sobre a Lore do Varus, o que não faltam são pontos a se comentar e explorar.

Provavelmente, por me ler, você deve ser parte do público de League of Legends, o que significa que certamente você já sabe que o campeão Varus foi “refeito” tanto em Lore quanto em sua própria Lore.

Enquanto a primeira parte significa que sua lore foi reescrita, o que era esperado não apenas dele, mas ainda se espera de muitos campeões que estão ainda passando pela renovação de lore, a segunda parte é a que quero focar nesse artigo, saindo um pouco de meu assunto de domínio que é a lore em si e entrando em um campo onde sou apenas um espectador e exercito meu pensar.

Com as reformulações de lore que vem se seguindo, aproximadamente desde o evento de revelação do Azir e de Shurima, pouco a pouco as historias dos campeões tem sido reescrita, ampliada e adequada a uma nova realidade do universo ficcional do League of Legends e às propostas da Riot tanto com seu jogo quanto na fomentação de sua comunidade.

Já passamos por pacotes amplos que envolviam vários campeões, no evento de Águas de Sentina ou mesmo da Ilha da Sombras e até por relançamentos individuais, onde não apenas a história foi refeita mas o próprio campeão em si foi completamente modificado. Em cada um desses eventos tivemos uma quantidade imensa de lores refeitas, ampliadas ou apenas revisadas. Cada caso é um caso e, até o presente momento, poucos eram os que apresentavam descontentamento com alguma lore modificada, não importando se fosse algo simples, seu núcleo ou toda a história.

Mas eis que a Riot lança a nova história de Varus e subitamente, muitas pessoas que sequer ligavam para a camada narrativa de League of Legends, alguns até que a desconheciam, começaram a chiar, a reclamar e a “postar textão” falando sobre “perverter” um personagem, ou sobre “distorcer apenas para satisfazer uma pequena parcela da comunidade”.

É curioso, é trágico e bem característico que isso tenha acontecido com a história de Varus, uma vez que foi deixado de forma explícita e para todos os olhos verem, que o cerne do campeão conhecido como Varus, é composto de um casal gay.

IDENTIFICAÇÃO

Esse é mais um passo extremamente ousado e corajoso da Riot, oficializar um campeão como LGBT significa muito mais do que eu poderia escrever em um artigo, por um motivo bem simples, é uma experiência de identificação com a qual eu não encontro reflexo.

Explico: Certamente você já teve personalidades e personagens que gostava, que se inspirava ou se identificava, fosse um herói de quadrinho, um personagem de série, de um jogo ou livro.

A experiência da identificação pode ser dar em muitos níveis, seja por estilo visual, por tomadas de decisão, a forma de falar, as ideias e pensamentos, a sexualidade ou qualquer outro motivo que se encontre essa identidade.

No meu caso, de homem heterossexual, é fácil encontrar inúmeros ícones com a sexualidade bem definida e aflorada, seja em jogos ou em livros, personagens com os quais eu me identifique e possa ter experiências com suas histórias onde me sinta representado, onde eu entenda uma decisão tomada e aquilo faça sentido de acordo com a minha vivência.

Mas quantas pessoas por aí, de sexualidade diferente da minha, não encontram? Claro, hoje em dia já é comum encontrar esses personagens em algumas obras, não apenas por questão humanitária, mas por questão comercial de empresas que entendem que o público LGBT é um público consumidor também.

Já em League of Legends, até esse momento, não havia um campeão sequer que fosse explicitamente de sexualidade não heterossexual, as insinuações existem aqui e ali, os desejos da comunidade também, mas o fato é simples: League of Legends não tinha personagens LGBT.

Por esse motivo, eu fico feliz de ver a tomada de decisão da Riot em revelar Varus como um campeão que possui em seu cerne narrativo, o amor entre dois homens, embora isso não me atinja enquanto um reflexo com o qual eu me identifique, isso serve para que amigos e conhecidos se identifiquem, assim como eu já pude me identificar com inúmeros personagens.

Claro, em nada isso vai nulificar a possibilidade de eu me identificar com Varus e seu amor, mesmo que no meu caso seja por uma mulher, mas com certeza o primeiro exemplo que eu encontraria seria o de Xayah e Rakan, um casal heterossexual regular, que embora tenha seu encanto, encontra seus pares aos montes em diversas obras.

PROBLEMÁTICA

Uma justificativa que tem sido usada por pessoas da própria comunidade LGBT para não terem ficado tão felizes com isso, é fato de ter uma “refação” para adequar um personagem já existente, algo que, para muitos, reflete uma suposta falta de vontade de criar algo original e que seja pensado desde sua concepção, como alguém que os represente.

É uma justificativa até certo ponto válida, em nada ela apaga os méritos da Riot em buscar a representatividade, mas claramente mostra o quanto ainda pode ser feito para mostrar que a empresa realmente se preocupa com essa parcela de seu público.

Uma contraposição a esse argumento, é saber que esse projeto não é algo que foi feito agora às pressas, mas sim algo que tem dois anos já entre idas e vindas de um projeto para chegar a essa execução final.

Existem campeões que são lançados que não tem um décimo dessa divulgação, enquanto outros tiveram divulgações que até hoje não foram superadas. Em algum momento isso invalidade a importância desse passo?

O que eu tenho é apenas uma opinião, lembrem-se, essa narrativa não encontra reflexo direto em mim portanto as pessoas que mais devem ser ouvidas, lidas e assistidas quanto a isso, são aquelas a quem isso é endereçado, pessoas que até então, não tinham encontrado identificação com os personagens de League of Legends.

Então acredito que ainda exista muito espaço para ser preenchido, na busca da equiparação da identidade e da diversidade, mas que cada passo dado nesse caminho pode ser encarado como uma vitória, mas jamais deve ser visto como um sentimento de dever cumprido. Muito ainda precisa ser trilhado até que essa equalização seja obtida.

CONCEITOS

Talvez para você a sexualidade de um personagem seja um dos valores menos importantes, no entanto para muitas outras, que encontram resistência e preconceito em seu dia a dia, isso é uma conquista que os faz sentirem que não estão sós, que o que sentem não apenas não é errado, como é algo normal e que deve fazer parte da rotina de uma sociedade.

Eu mesmo encontro identidade com muitos personagens, sejam eles masculinos ou mesmo femininos. Quem nunca se identificou com o potencial irrestrito de Syndra, com a paixão por uma causa como Garen, ou mesmo com a busca por conhecimento de Vel’Koz?

Claro, eu não me identifico sexualmente ou em aparência com uma criatura de tentáculos, tampouco me identifico em identidade sexual com a Syndra, talvez eu até pudesse me identificar visualmente com o ideal de ser como Garen, um homem com características consideradas másculas, é possível que a identificação venha com aspectos de um personagem, mas não com sua totalidade.

Isso nos mostra que conceitualmente, pessoas LGBT, até o momento, não tinham identificação de seus amores com nenhum outro campeão dentro de League of Legends, no máximo, podiam transferir um pouco disso a casais heterossexuais, como Tryndamere e Ashe ou Rakan e Xayah, o que era apenas um aspecto dentro de um conceito.

Quão maior a imersão dentro desses conceitos, maiores as diferenças se mostrarão, afinal, você pode ter um relacionamento heterossexual que não tenha nenhuma similaridade com o amor entre os personagens descritos anteriormente, mas ainda assim é um ponto de partida para idealizar e se identificar.

AMPLITUDE

Até esse momento onde Varus foi refeito, sua história era linear, simples e muito comum, ele tinha a sua família ceifada e nisso a sua entrega a algo corrupto para obter poder e se vingar.

Muitas reclamações vieram apontando que a historia antiga foi deixada de lado e algo totalmente novo foi criado, mas será mesmo?

Quem é família para nós? Não são aqueles que por sangue ou afinidade nós temos por familiares? Um grande amor, não é a base para que você constitua a sua família? Essa é a premissa inicial para que a narrativa se desenvolva.

Se você analisa a história antiga e a nova, percebe que elas são exatamente iguais, no entanto uma é evolução da outra, uma amplificação da primeira feita em um detalhamento onde a motivação do que o faz se entregar a algo corrupto, está bem melhor explicado, e a sua “família” é o seu grande amor prestes a morrer em seus braços.

Logo, em nenhum momento o personagem foi descaracterizado de sua história original, a mesma apenas ganhou novas nuances e características que explicam as razões por trás de suas decisões, que ganham muito mais consistência e possibilidade de reflexão. Até onde você iria para salvar o seu amor? Quão grande é a reciprocidade do mesmo?

Essas questões se respondem quando você percebe que a única coisa que evita que Varus saia criando massacres por onde passa, é o amor entre dois homens que conseguem manter uma essência destruidora e vingativa em cheque, sob o controle de um sentimento que consegue vencer até mesmo criaturas demoníacas poderosas de uma ancestralidade assustadora.

Você até pode não ter gostado da história, achá-la fraca ou não tão original, é algo válido, mas apontar o dedo para o componente gay da mesma, e dizer que isso a descaracteriza? É aqui que o preconceito faz a sua morada.

Eu pergunto a você, quanto você sabia da história do Varus antes desse episódio, quanto você se importava com ela até esse momento? Seja honesto e procure ver se suas respostas não lhe deixam claro que você está se incomodando com isso apenas agora e por preconceito ou vestígios do mesmo.

PRECONCEITO

O que eu vi como uma vitória, não minha, mas de pessoas que me são caras, pode ser visto como algo ruim por pessoas desinformadas, mal intencionadas ou apenas perdidas. Aqui me pergunto, será que assim algumas pessoas começam a largar um pouco mais de seu preconceito? Ainda resta esperança de que percebam que o campeão ser gay em sua história em nada muda a sua jogabilidade.

É importante que pessoas que ainda tinham preconceito, percebam que isso em nada vai mudar a vida delas, exatamente como em nada muda na vida delas, a sexualidade das outras pessoas, algo que é dito diariamente em alto e bom som em todos os cantos, mas ainda assim, parece incomodar a algumas pessoas pelo simples fato de existir.

Disse no começo desse artigo e repito, O elemento mais importante da história do Varus é AMOR. O amor entre duas pessoas que é uma força capaz de mudanças positivas, que não fere a nada nem a ninguém, apenas acrescenta de maneira benéfica ao mundo em que se encontra.

Quantos saíram por aí reclamando das histórias de Sivir que deixou de ser apenas uma caçadora de recompensas mercenária, para se tornar o reduto do sangue Imperial de Shurima? Quem por aí reclamou que Gangplank deixou de ser apenas um pirata temido, para ser o ditador caído que controlava Águas de Sentina com punho de aço? Você se incomodou com o fato de Hecarim ser um traidor amaldiçoado? Ou mesmo saber que Zed, o senhor das sombras, pode não ser um grande vilão, mas talvez apenas um anti-herói?

Tomando as reações ao Varus e colocando elas ao lado de todos esses campeões descritos, que em muitos casos mudaram completamente, vemos que a preocupação não é com a modificação da mesma, é apenas da inserção, ou ainda, da revelação de que há uma boa parte da história do arqueiro, que toma por base o amor entre dois homens.

FELICIDADE

Essa nova história é algo que me deixa feliz, vejo como algo similar a um amigo que consegue finalmente ser feliz com sua sexualidade, sem ter de esconder de ninguém que é gay, que está livre de neuroses imputadas a ele por uma sociedade doentia e que reprime um sentimento tão bonito.

Reitero que entendo o quanto esse meu sentimento não é nem metade do que alguém que finalmente encontre identificação, de alguém que possa se sentir representado no League of Legends, mas repito, é uma experiência similar a um amigo que consegue vir contar a você que ele é gay.

E tal qual um amigo que me revela ser gay, em nada isso muda o nosso relacionamento, em nada muda minha amizade por ele, assim como em nada deveria mudar o relacionamento de quem joga com Varus, pois se algo mudou, certamente o erro não está na nova história, mas sim em um velho preconceito.

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