A arte de defumar a carne

(da série “Caribe Selvagem”)

“Os governadores ingleses da Jamaica e de Barbados, os franceses de Tortuga e da Martinica e os holandeses de Santo Eustáquio e Curaçao, todos adotaram a conveniente política de, independentemente das guerras entre os três países, sempre considerar os espanhóis inimigos.” — Angus Konstam, Piracy: the complete history

“Yo-ho-ho and a bottle of rum!” — Robert L. Stevenson, Treasure Island


Port Royal, Jamaica, século XVII

“Roque Braziliano, seu filho da puta”, bradou sorrindo o taberneiro ao ver o holandês adentrar o recinto. Gostava de exibir aos fregueses a intimidade que tinha com o famoso corsário. “Trouxe bastante prata espanhola pra encher meu cofre?”

“Pode ficar tranquilo, Joe”, disse o corsário, depositando um saquinho de pesos de ocho no balcão. “Hoje a bebedeira é por minha conta. Pode colocar um barril de vinho na rua, todo mundo vai beber. Mas vou deixar o vinho pros seus fregueses, que são chiques. Eu vou de rum, como sempre. Me faz lembrar dos tempos que passei no Brasil, da cachaça.”

O taberneiro colocou uma garrafa de rum no balcão, e Roque logo deu início aos trabalhos com uma boa golada no gargalo. Era um sujeito baixo e forte, bigode louro, olhos vesgos e miúdos. “Como andam as coisas por aqui?”

“Tudo na mesma, Roque. A mesma escória de sempre”, disse o taberneiro, apontando para a fauna barulhenta que, no meio da tarde, tomava o estabelecimento, enchia a cara e jogava dados. “Mas como foi o passeio?”

“Um galeão e alguns barcos menores. Nada demais.”

“Nada demais? Desde o glorioso Pierre le Grand que o Caribe virou uma festa. Desse jeito vocês deixam os espanhóis na miséria. E a tripulação?”

“A tripulação tá espalhada pelos bordéis da cidade, enchendo as putas de ouro.”

“E você aqui, namorando uma garrafa de rum e jogando conversa fora com o taberneiro.”

“Tenho um compromisso importante mais tarde. Se eu entrar num bordel agora, não saio mais. Mas amanhã vou tirar o atraso, no fim do dia, depois do almoço com o governador.”

O taberneiro chamou um rapaz para ajudar com o barril, que foi colocado na rua, em frente ao estabelecimento. “Que venham todos os canalhas sem pai!”, berrou. “O grande Roque Braziliano vai bancar o vinho!”

A multidão se aglomerou ao redor do barril. Apesar do calor, ninguém queria perder a oportunidade de tomar um bom vinho de graça. Brindaram ao sucesso de Roque Braziliano e seus seguidores, que faziam a alegria do comércio da ilha com as mercadorias a preços baixos que traziam do mar.

Depois do pôr do sol, os bucaneiros começaram a chegar dos bordéis, e Roque mandou abrir mais dois barris. Foi então que começou a abordar os transeuntes desavisados para que brindassem com o bando. Sua atitude não era das mais gentis, de modo que a maioria se intimidava, aceitava a caneca de vinho com alguma hesitação, brindava com o grupo e bebia, para delírio dos bucaneiros, que cantavam, riam e vomitavam.

Os que bebiam sem vontade eram censurados, e os poucos que se atreviam a recusar a bebida, impiedosamente espancados pelo holandês, o que provocava um estrondo de urros e gargalhadas entre os que assistiam à cena. O taberneiro não se incomodava, conhecia o temperamento violento do amigo e se deleitava com os pesos de ocho, que não paravam de pingar.

A baderna atraiu todos os maus elementos das redondezas e se transformou numa farra de rua memorável. Muitos aproveitavam a oportunidade para fazer amizade com os bucaneiros e garantir um lugar na próxima viagem, outros pensavam apenas em encher a cara e se divertir.

O taberneiro não parava de trocar os barris e recolher a prata. Volta e meia uma briga explodia, o que atiçava ainda mais a esbórnia. Roque aproveitou uma briga generalizada para escapar à francesa, garrafa de rum na mão. Tinha um compromisso inadiável.

À medida que se afastava da taberna, do centro da boemia, mais vazias e silenciosas ficavam as ruas, até que pôde ouvir o barulho do mar. Numa ruela periférica, à luz da lua, avistou um homem e um cachorro vindo em sua direção. Ao se aproximar, percebeu que se tratava de um velho com seu vira-lata.

“Tome um pouco de rum, velho, em homenagem aos corsários da Jamaica”, disse com a voz um tanto arrastada.

“Obrigado, meu jovem, mas não bebo. Não posso mais beber, estou velho demais pra isso.” O velho fez uma reverência discreta com a cabeça e recomeçou a andar, mas foi puxado pelo braço com firmeza. O cachorro deu uma rosnada e ameaçou avançar.

“Velho”, disse Roque, “todo mundo pode beber. É um direito do homem. Quase uma obrigação. Beba.”

O velho encarou o corsário por um instante, viu o semblante sério na penumbra, os olhos vesgos e maus. “Obrigação? Não é minha obrigação.” Virou-se para se afastar, mas foi puxado de novo. O cachorro começou a latir.

Roque lhe estendeu a garrafa: “Beba.”

O velho segurou a garrafa e começou a derramar o rum no chão. Roque sorriu. O murro atingiu em cheio o estômago do velho, que largou a garrafa, se arqueou, cambaleou para trás, ouviu os latidos, a rosnada, o tiro e, por fim, caiu de costas no chão.

Roque olhou para o rasgão na calça. Sua coxa sangrava, mas, com o corpo amortecido pelo álcool, ele não sentia nada. Recolocou a pistola no coldre e se abaixou para pegar a garrafa: ainda tinha um restinho de rum, que derramou na ferida.

O velho agora estava sentado, tentando se levantar. Roque se aproximou, se agachou, sacou a faca, puxou a cabeça do velho para trás pelo cabelo e lhe cortou a garganta.

Então começou a escutar a respiração ruidosa do vira-lata, que pelo visto sobrevivera ao tiro. Embainhou a faca e se aproximou do cão. Deitado de lado, o vira-lata não tirava os olhos assustados do homem que o observava de cima. Roque colocou o calcanhar da bota direita sobre a cabeça do animal e apoiou todo o peso do corpo na perna direita. Escutou o barulho seco do crânio se partindo.


Após uma caminhada de meia hora que cortou parcialmente o fogo do rum, Roque chegou ao seu destino, um casebre de madeira isolado, na beira da mata que rodeava a cidade. Em frente ao casebre havia uma fogueira cercada por estacas de madeira fincadas no solo com bifurcações nas extremidades. Roque contemplou o fogo por um instante e entrou.

Tratava-se de um casebre de cômodo único e chão de terra. Em seu interior havia duas bolsas de couro num canto, uma espécie de grade de madeira encostada na parede nua e quatro cadeiras rústicas, os únicos móveis do recinto, três das quais estavam ocupadas. Os três indivíduos se encontravam sentados de frente para a porta. Dois deles dividiam uma garrafa de rum, que passavam de um para o outro por trás do terceiro, que estava amarrado e amordaçado entre eles.

Roque acenou com a cabeça para os que bebiam, depois, sorrindo, dirigiu-se ao do meio: “Hola, capitán Velázquez. Buenas noches. Sei que o senhor é um homem culto e domina o inglês e o português, já meu espanhol é sofrível. Como meus dois camaradas são ingleses e não sabem falar outra língua, vamos ficar com o inglês. Espero que não se importe.”

O espanhol permaneceu imóvel, mas não tirava os olhos do recém-chegado. Um dos bucaneiros ofereceu a garrafa a Roque e perguntou o que tinha acontecido com a perna dele.

“Um problema canino que já foi solucionado”, respondeu entre goles. Depois: “Por que ele tá amordaçado?”

“Tava falando demais, Roque. A gente teve que dar umas porradas nele e enfiar o pano na boca.”

“Pois fizeram muito bem, meus caros. Melhor assim, calado. Hoje ele não precisa falar, só vai ouvir.” Puxou a cadeira desocupada e se sentou frente a frente com o espanhol. “Meu caro Velázquez”, continuou, “vim aqui porque tenho uma história pra te contar, de capitão pra capitão.” Tomou outro gole e devolveu a garrafa aos bucaneiros. “Vamos a ela. Quando os primeiros colonos chegaram no Caribe… Eu tô falando dos colonos que não eram espanhóis, entendeu?”

O espanhol permaneceu imóvel, levou um soco de um dos bucaneiros na nuca e fez que sim com a cabeça.

“Capitão Velázquez, sugiro que colabore, senão a coisa não anda e o senhor termina se machucando”, disse Roque. “Pois bem, quando os primeiros colonos que não eram espanhóis chegaram no Caribe, muitos viraram caçadores. Vocês, os espanhóis, tinham abandonado rebanhos de porcos e bois em Española e Tortuga. Os bichos foram pro mato e ficaram selvagens com o tempo, especialmente os filhos, os netos e os bisnetos deles. Então os colonos que chegaram começaram a caçar os bisnetos. Eu, pessoalmente, prefiro os porcos. Tá acompanhando?”

O espanhol fez que sim com a cabeça.

Roque aceitou o rum oferecido por um dos comparsas, tomou um gole, devolveu a garrafa e continuou: “Esses colonos aprenderam com os índios a defumar a carne numa grelha de madeira igual a essa aí”, apontou para a estrutura de madeira encostada na parede, e o espanhol virou o rosto para ver. “Os franceses de Española e Tortuga chamavam isso de boucan, e os caçadores que defumavam os porcos e os bois selvagens pra vender no porto começaram a ser chamados de bucaneiros. Com o tempo, alguns bucaneiros viraram piratas, e é por isso que a gente é chamado de bucaneiro, eu e meus dois camaradas sentados do seu lado.”

Os dois bucaneiros sorriram, admirados com a sabedoria do capitão Roque Braziliano. Um intelectual. O espanhol parecia confuso.

“Pois bem”, continuou, “eis que amanhã tenho um almoço marcado com o digníssimo governador da Jamaica e resolvi levar um presente. Vou levar uma boa quantidade de ouro papista, claro, mas isso é mais um tributo pros ingleses do que um presente. Então decidi levar um porco defumado à moda dos bucaneiros dos velhos tempos. Não vale quase nada em dinheiro, mas tem um grande valor simbólico. O governador é um sujeito excêntrico e eu tenho certeza que ele vai gostar. E é aí que o senhor entra na história, meu caro capitão. Mas antes eu preciso te fazer uma pergunta pra me certificar. Não quero me confundir e fazer papel de palhaço na frente do governador. O senhor é um porco?”

O espanhol estava paralisado. Nem com os socos dos bucaneiros se dispôs a responder à pergunta. Roque, entediado com a teimosia, pediu que um deles fosse buscar uma brasa na fogueira. Enquanto esperava, bebeu mais um pouco. O espanhol, ao ver o bucaneiro entrando no casebre com uma brasa na ponta de um espeto, começou a emitir grunhidos medonhos.

“Muito bem”, disse Roque. “O senhor é ou não é um porco?”

O espanhol hesitou, mas fez que sim com a cabeça.

“Nunca imaginei que esses papistas fossem tão covardes”, disse um dos bucaneiros.

“Roque, tenho uma sugestão”, disse o outro. “Sempre ouvi dizer que quando o bicho é assado vivo a carne fica mais saborosa.”

Roque Braziliano sorriu e tomou mais um gole de rum.

Fontes:

Alexandre Olivier Exquemelin. The Pirates of Panama or the Buccaneers of America. Tradutor desconhecido. Project Gutenberg. 2008 (1a edição holandesa: 1678; 1a edição inglesa: 1684).

Philip Gosse. The history of piracy. Dover Publications. 2007.

Angus Konstam. Piracy: the complete history. Osprey Publishing. 2008.