A perda da inocência na literatura

E como se descobrir adulto na vida real


por Jim Anotsu

Na história da literatura, um dos meus termos favoritos é o Bildungsroman, o famoso “coming of age”, o romance de formação. São aquelas histórias sobre um protagonista jovem que começa seu processo de amadurecimento e pode ter tanto a ver com a perda da inocência quanto com o reconhecimento da idade adulta. Existem vários exemplos, como o “David Copperfield” de Charles Dickens, o “Huckleberry Finn” de Mark Twain e “O Apanhador no Campo de Centeio” de J.D Salinger — apenas alguns dos mais famosos. O romance de formação tem a ver com o crescimento, com a descoberta de um mundo muito mais complexo do que aquele em que vivemos quando crianças. É quando deixamos os brinquedos de lado — ou melhor, usamos menos do que antes, afinal, essa semana eu e minha esposa compramos três Monster Highs.

Nos últimos tempos eu tenho passado pelo meu próprio Bildunsgroman. É como se eu pensasse que seria um adulto depois de fazer vinte anos, mas estou aqui tentando quebrar a cabeça para descobrir como as coisas funcionam na prática. Crescer tem um pouco de Holden Cauldfield, andar de um lado para o outro no meio da noite, uma peregrinação tão gonzo quanto a de Sal Paradise e Dean Moriarty em “On The Road” — não sabemos o destino, mas continuamos na tentativa de cruzar o mapa. Eu tenho olhado constantemente pro meu passado e tentando encontrar as pistas para a direção das coisas, mas não há nada lá que possa me guiar pelo terreno pantanoso que é o presente. Ninguém me avisou que a universidade seria um canto onde todas as minhas energias seriam sugadas, que contas de luz são tão caras e que eu precisava andar com a minha identidade na carteira o tempo todo. Essa fase da vida adulta não vem com manual de instruções, ao contrário do título de George Pérec: “Vida — Modo de Usar”. Detalhe: Eu juro que li vários livros de Freud, Jung e Foucault buscando uma resposta para tudo, o máximo que ganhei foram algumas frases bonitas para escrever nos cantos do meu caderno de faculdade.

Ao mesmo tempo, o mundo fora da minha casa cresceu na internet e eu me sinto como se estivesse convivendo com mil pessoas na minha casa. Todos os barulhos foram multiplicados por mil e fica até difícil escutarmos a nossa própria voz — não sei, talvez eu seja um dinossauro num tempo rápido demais para mim. Se você já leu “O Leilão do Lote 49” de Thomas Pynchon, você sabe como é se sentir como a Oedipa Maas observando as linhas telefônicas — todas as conexões e toda paranoia que nos cerca. Pynchon argumenta que a ordem regente do universo é a entropia, que tudo tende ao caos. É difícil discordar do velho Pynchon quando paramos para pensar, ele já havia visto nosso mundo antes que chegássemos nele. Na nossa época tudo é entropia, tornando ainda mais difícil crescer e procurar um caminho. É por isso que sinto inveja de nossos pais e sogros: Com a minha idade eles já tinham casa própria, emprego na “firma” e filhos fazendo anos. Isso é assustador.

A outra parte assustadora de ser uma pessoa crescida vem então. Eu aos 20 e poucos já sou uma pessoa casada que tem uma gata caolha — srta January Müller-Anotsu — e bonecos de Adventure Time, Doctor Who e zumbis na estante de livros. Mesmo com esse pé nos meus 15 anos de idade, começamos a pensar recentemente no aumento da família — uma adição mais do que complexa. É aí que penso e fico assustado: Será que eu conseguiria, será que é possível para uma pessoa que ama filmes do Seth Rogen fazer isso? Como eu poderia lidar com um outro ser humano tão pequeno e frágil dependendo de mim? E será que existe uma hora certa pra isso, será que devo esperar a hora em que tudo está perfeito e impecável e sem uma mancha — e será que essa hora existe? Essa pequena reflexão na cama me fez chegar na resposta: Nunca existe hora certa para nada.

Eu descobri que ser adulto tem mais a ver com navegar o mundo e desviar das pedras e icebergs. Não existe um plano de curso pré-definido e as águas nunca vão estar perfeitamente calmas. Nunca vão estar profundamente silenciosas e as condições de navegação nunca vão ser perfeitas. Alguma coisa sempre vai estar ali, como o albatroz da “Rima do Velho Marinheiro”, alguma coisa sempre vai estar voando sobre nossas cabeças e pousando no convés. Então, para mim, crescer e tomar responsabilidades tem a ver com navegar as situações e tentar fazer o melhor uso delas. Pode ser que a gente não faça aquilo que decidimos quando tínhamos 18 anos de idade, mas as coisas mudam e a gente sempre pode mudar o rumo do navio. Pelo menos foi nisso que cheguei.

Eu acho que é como o Thom Yorke canta no final de “In Rainbows”: “Não importa o que acontecer agora, você não deveria temer/Porque eu sei que hoje foi o dia mais perfeito que já vi”.


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