Hector Hugh Munro tinha 43 anos quando a Primeira Guerra Mundial estourou e não seria obrigado a servir, mas se alistou como soldado raso. Em 14 de novembro de 1916, nos últimos dias das Batalha do Somme, ele estava se protegendo em uma cratera quando disse para um soldado “apague esse maldito cigarro!” e foi abatido por um franco-atirador alemão. Para comemorar o centésimo aniversário da sua morte, compartilho esta tradução de The Background, publicada originalmente em Um Gato Indiscreto e Outros Contos (2009), além de um capítulo do romance A Vinda do Kaiser (aqui, que só hoje está de graça na Amazon).

A Tela

Um conto de Saki no centésimo aniversário da sua morte.

“O jargão artístico daquela mulher me cansa”, disse Clovis a seu amigo jornalista. “Ela gosta tanto de falar de certos quadros como ‘brotando dentro dela’, como se fossem algum tipo de fungo”.

“Isso me lembra”, disse o jornalista, “da história de Henri Deplis. Já lhe contei?”

Clovis balançou a cabeça.

“Henri Deplis era oriundo do Grão-Ducado do Luxemburgo por nascimento. Após reflexões mais maduras, se tornou caixeiro-viajante. Suas atividades comerciais frequentemente o levavam além das fronteiras do Grão-Ducado. Ele estava passando por uma cidadezinha do norte da Itália quando chegaram notícias de casa que um legado de um parente distante e falecido havia caído em suas mãos.

“Não era um grande legado, mesmo do ponto de vista modesto de Henri Deplis, mas o levou a algumas extravagâncias aparentemente inofensivas. Em particular, o levou a patrocinar as artes locais, representadas pelas agulhas de tatuagem de Signor Andreas Pincini. Signor Pincini foi, talvez, o mais brilhante mestre das artes da tatuagem que a Itália conheceu, mas suas circunstâncias eram decididamente empobrecidas, e pela soma de seiscentos francos aceitou de bom grado cobrir as costas de seu cliente, da clavícula até a cintura, com uma representação brilhante da Queda de Ícaro. O desenho, quando finalmente foi desenvolvido, foi uma leve decepção para Monsieur Deplis, que suspeitava que Ícaro era uma fortaleza tomada por Wallenstein durante a Guerra dos Trinta Anos. Ficou, entretanto, mais do que satisfeito com a execução do trabalho, que foi aclamada por todos que tiveram o privilégio de vê-la como a obra-prima de Pincini.

O autor. A irmã queimou seus papéis pessoais depois da morte no front, deixando uma série de lacunas na sua biografia.

“Foi seu maior esforço, e seu último. Sem sequer esperar ser pago, o ilustre artesão partiu desta vida e foi enterrado sob um túmulo ornamentado cujos querubins alados lhe teriam permitido pouquíssimo espaço para o exercício de sua arte favorita. Sobrava, no entanto, a viúva Pincini, a quem os seiscentos francos eram devidos. E assim nasceu a grande crise na vida de Henri Deplis, caixeiro-viajante. O legado, sob a tensão de vários pequenos chamados à sua substância, decrescera a proporções muito insignificantes, e quando uma conta de vinho urgente e diversas outras contas correntes foram pagas, sobrou pouco mais de 430 francos para oferecer à viúva. A senhora ficou corretamente indignada, não de todo, como explicou com desembaraço, pela sugestão de perdoar 170 francos, mas também pela tentativa de depreciar o valor daquela que era considerada a obra-prima de seu marido. Em uma semana, Deplis foi obrigado a reduzir sua oferta para 405 francos, circunstância que transformou a indignação da viúva em fúria. Ela cancelou a venda da obra de arte, e alguns dias depois Deplis descobriu com alguma preocupação que ela a havia presenteado à municipalidade de Bergamo, que a aceitara agradecida. Ele saiu da vizinhança o mais discretamente possível, ficando genuinamente aliviado quando seus negócios o levaram a Roma, onde esperava que sua identidade e a do famoso desenho se perderiam de vista.

“Mas ele levava nas costas o peso do gênio de um homem morto. Ao se mostrar nos corredores esfumaçados de um banho de vapor, foi imediatamente obrigado a se vestir novamente pelo proprietário, que era um italiano do norte, e que se recusava enfaticamente a permitir que a célebre Queda de Ícaro fosse mostrada publicamente sem a permissão da municipalidade de Bérgamo. O interesse público e a vigilância oficial aumentaram à medida que o caso se tornou mais conhecido, e Deplis não podia dar um simples mergulho no mar ou no rio na tarde mais quente se não estivesse vestido até o colarinho em trajes de banho substanciais. Mais tarde, as autoridades de Bérgamo conceberam a ideia de que a água salgada poderia prejudicar a obra-prima, e uma injunção perpétua foi obtida que impedia o tão atormentado caixeiro-viajante de se banhar no mar sob quaisquer circunstâncias. Deplis ficou completa e fervorosamente agradecido quando sua firma descobriu um novo ramo de atividades na vizinhança de Bordeaux para si. Sua gratidão, no entanto, cessou abruptamente na fronteira franco-italiana. Uma formação imponente de força oficial impediu sua partida, e ele foi lembrado duramente da lei estrita que proíbe a exportação de obras de arte italianas.

“Seguiu-se uma conferência diplomática entre os governos italiano e luxemburguês. Em certo momento, a situação europeia esteve nublada com a possibilidade de problemas. Mas o governo italiano seguiu firme: recusava-se a se preocupar com as sortes, ou mesmo com a existência, de Henri Deplis, caixeiro-viajante, mas estava resoluto em sua decisão de que a Queda de Ícaro (do falecido Pincini, Andreas), atualmente propriedade da municipalidade de Bérgamo, não deveria sair do país.

“A comoção morreu com o tempo, mas o pobre Deplis, que era de um ânimo constitucionalmente retraído, alguns meses depois se encontrou novamente no centro de um furacão de controvérsia. Certo alemão especialista em arte, que obtivera permissão damunicipalidade de Bérgamo para inspecionar a famosa obra-prima, declarou que era um Pincini espúrio, provavelmente trabalho de algum pupilo que empregara nos últimos anos. A evidência de Deplis sobre o assunto era obviamente irrelevante, já que ele estivera sob a influência das drogas narcóticas costumeiras durante o longo processo de tatuagem do desenho. O editor de um jornal italiano de arte refutou as alegações do especialista alemão e empreendeu a prova de que seu estilo de vida não se encaixava em qualquer padrão moderno de decência. Toda a Itália e a Alemanha foram levadas à disputa, e logo toda a Europa estava envolvida na briga. Houve cenas tempestuosas no parlamento espanhol, e a Universidade de Copenhague concedeu a medalha de ouro ao especialista alemão (e mais tarde enviou uma comissão para examinar suas provas in loco), enquanto dois estudantes poloneses em Paris cometeram suicídio para mostrar o que eles pensavam do caso.

“Enquanto isso, a infeliz tela humana não se saía melhor do que antes, e não foi surpresa que tenha se envolvido com as fileiras dos anarquistas italianos. Por pelo menos quatro vezes, foi levado à fronteira como um estrangeiro perigoso e indesejável, mas sempre era levado de volta como sendo a Queda de Ícaro (atribuída a Pincini, Andreas, início do século XX). E então, um dia, em um congresso anarquista em Gênova, um colega trabalhador, no calor do debate, quebrou um frasco cheio de líquido corrosivo sobre suas costas. A camiseta vermelha que estava usando aliviou os efeitos, mas o Ícaro foi arruinado e ficou irreconhecível. Seu assaltante foi repreendido severamente por atacar um colega anarquista e recebeu sete anos de prisão por desfigurar um tesouro artístico nacional. Logo que pôde sair do hospital, Henri Deplis foi levado além da fronteira como um estrangeiro indesejável.

“Nas ruas mais calmas de Paris, especialmente na vizinhança do Ministério das Belas-Artes, às vezes se encontra um homem deprimido e de aparência ansiosa que, se você pedir der as horas, responderá com um leve sotaque luxemburguês. Ele imagina que é um dos braços perdidos da Vênus de Milo, e espera que o governo francês se convença a comprá-lo. Em todos os outros assuntos, creio, é toleravelmente são”.


O conto foi transformado em curta-metragem em 1995. Podia ser melhor.
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