Amar é… bipolar: Reset

Ctrl+Z / Acervo pessoal

Do que você me chamou, ela pergunta. Sim, seu imbecil, você a chamou de puta. Não foi na cama, no calor de uma foda. Vocês estão numa loja de roupas cheia de estranhos, outras mulheres, que se ofenderam por tabela. Sua namorada ouviu, a vendedora arrumando a arara de roupa ouviu, aquelas duas clientes saindo pela porta também ouviram. E ela não tem dúvida do que escutou. O questionamento está mais para um desafio. Não adianta repetir a frase, omitir o puta e fazer cara de cachorro pidão. Ou você se desculpa da forma mais convincente que conseguir, talvez, quem diria, com sinceridade, ou pega o celular, aciona logo o aplicativo Shit Happens e volta ao último momento salvo. E, óbvio, cagão, esta será sua escolha.

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O café esfriou. Você entorna a xícara mesmo assim enquanto sua namorada conta algo sobre o trabalho dela. Tem a ver com um bolo de aniversário ou o bebê de uma colega, não importa. Não prestou atenção da primeira vez e agora se distrai passando os olhos pelo salão do restaurante tentando se lembrar por que salvou justo esse instante bobo. Já voltou a ele outras vezes? Bem que o aplicativo podia melhorar isso. A memória fica truncada. Não dá pra lembrar nem o motivo de ter retornado. Ao mesmo tempo, perde-se um pouco a noção do que ocorre agora… ou que já ocorreu antes, difícil dizer.

Espreite em volta com sutileza. Vocês acabaram de comer e iam pagar a conta. Na mesa ao lado, um grupo chama a atenção. O gordo de gravata, mais velho, domina a conversa. Outros engravatados, mais novos, riem de tudo que ele fala. Há apenas uma mulher na mesa, a única pessoa a não se importar com a história, apesar de estar ao lado do narrador. Séria, mira direto em você. Sim, é isso. A moça pra quem você olhou disfarçadamente durante todo o almoço. Cabelos castanhos volumosos, olhos claros, quase verdes, uma boca carnuda. Ela estava flertando de volta?

Odeio quando você me ignora, sua namorada critica. Você nega, diz que está apenas conferindo a conta. A moça da mesa ao lado se levanta e vai até o caixa. Deve ser por isso que salvou esse momento. Provavelmente, da primeira vez deixou pra lá. Apenas pagou e foi embora. Vocês vão sair, andar dois quarteirões e parar em um café. Não, sorveteria, lembra melhor agora. Escolherá flocos e chocolate belga. Pode até variar e pedir doce de leite agora. Tem uma loja de roupas bem em frente e ela vai inventar de provar uma blusinha verde. E mais tarde rola uma discussão, algo bobo…

Foda-se. Dessa vez, você diz que vai perguntar algo no caixa, levanta-se com a conta na mão e deixa sua namorada sozinha à mesa. Para logo atrás da bela de cabelo castanho acertando a parte dela do almoço. Diz, como um suspiro, ter reparado que ela era a única a não embarcar no showzinho do colega gordo. Como se ouvisse alguém raspar a unha em uma lousa, a moça se vira. E eu reparei que você preferia olhar pra mim em vez de dar atenção a sua mulher. Não dá tempo de explicar que não são casados. Achei isso bem triste, ela fuzila antes de se afastar. Na lona, você abaixa a cabeça. Olha pra sua namorada. Ela viu? Por via das dúvidas, melhor pegar o celular e apagar esse novo vexame.

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Um saco de duzentos gramas de farelo de aveia integral por quatro reais e noventa centavos. Está certo isso? Você não tem certeza, parece caro, melhor colocar de volta na gôndola do supermercado. Outra falha do aplicativo. Tinha que ter um histórico de salvamento ou qualquer merda dessas. Não dá nem pra saber quando é isso aqui, muito menos o que fazia com um saco de farelo de aveia integral na mão. Capaz de ser um salvamento automático. O jeito é acabar de fazer as compras. Iogurte, beleza, pão de forma, ok, água de coco, aqui. Tem banana em casa? E ovo? Leva logo e pronto.

Deve ter algum tutorial no YouTube explicando como configurar os salvamentos automáticos do Shit Happens. Se não, você volta aleatoriamente e nem se lembra de ter ido ao mercado de carro ou a pé. Com certeza, os administradores ganham algo cada vez que o usuário retoma um instante salvo. Claro, deve ser difícil administrar isso. Afinal, se está andando pra trás, nesse momento ainda nem ativou o aplicativo. Vão te cobrar quando? Deixou um cartão ao instalar, tem certeza. Quase na calçada, você leva um susto com a buzina do carro logo atrás. É sua namorada, pelo visto, enfurecida.

Onde está com a cabeça, ela pergunta. Se eu soubesse que ia comprar mais coisa teria entrado junto. Verdade, faz sentido agora. Já é quase um mês atrás isso, bem antes de comerem aquele estrogonofe de frango no restaurante do centro. Tem muito tempo ainda até a discussão na sorveteria. Não, vai ser numa loja ali perto. Pode até se poupar desse estresse, fazer melhor, tomar um caminho diferente. Não… Acredito… Nisso, ela exclama em três etapas. Cadê a minha aveia, a única coisa que te pedi pra comprar. Sério, não é a primeira vez que sua namorada te vê desdenhar das coisas dela. Pegou sua água de coco, seu pão, seus iogurtes e não deu a mínima pra aveia dela. Apela logo pro celular e arruma isso aí.

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O computador demora demais pra desligar, como sempre acontece quando você tem pressa. Com um espasmo, estende o braço, aperta o botão e força o apagão. Todos os dias no escritório terminam assim, então sabe-se lá quando isso rolou. Sexta, é possível, pois os colegas andam mais eufóricos até o elevador. Vai com a gente ver o jogo, quer saber seu amigo festeiro. Pelo visto, é quarta. Ou quinta. Há mais cinco pessoas lá dentro, todas animadas, incluindo sua chefe, que ama futebol. Por que não? Quem sabe foi pra isso que colocou esse momento na fila. Vá se divertir um pouco.

Seu time nem está jogando, mas você precisava dessa cerveja gelada. Já riu tanto que até repetiria essa noite mais uma vez. Uma pena o aplicativo não permitir a mesma operação em sequência. Talvez arrumem isso na nova atualização prometida para o fim do ano, cada vez mais distante conforme você segue na contramão do tempo. A partida está no final quando vai ao banheiro pela primeira vez, andando na corda bamba. Sente o celular vibrar no meio do xixi e nem espera a bexiga se esvaziar para sacar o aparelho. Ligações não atendidas, cinco. Mensagens não lidas, treze, todas da sua namorada.

Oi, já saiu? Está chegando? Não atrasa logo hoje hehe. Tentei chamar e deu caixa postal. Lembra de trazer a sobremesa, por favor. Vou começar a fritar os bifes, tá? Meus pais estão a caminho. Está tudo bem? Todos com fome. Vou servir. Onde diabos se meteu? É bom ter uma boa desculpa. Se estiver vivo, mato você.

Arrisca dizer que sentiu a formação de uma pedra no rim. Mas só deu essa merda porque o aplicativo escangalha a cabeça dos usuários, certo? Ou você também não lembrou do compromisso ao passar por aqui antes? Provável que nada te tirasse dessa trajetória. Vai seguir fazendo besteira e ela continuará se irritando. E daqui cinco meses vocês entrarão em uma loja qualquer pra terem sua derradeira discussão. Está na hora de resolver isso de vez.

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Pisaram no seu pé. Foi há alguns segundos e você sente a carne sob a unha do dedão direito latejar. Pode ter sido a menina de cabelo roxo em frenesi na sua frente, pulando sem parar, ao som da banda. Ou então foi o cabeludo à direita, cortando a multidão. Saberia dizer se voltasse um pouco antes. Mais uma pra conta do Shit Happens. Vai dar três estrelas no máximo no Google Play. Falta de precisão. E outros defeitos que já caíram no esquecimento.

Mas sabe muito bem onde está. E quando. Faz um ano e meio, seu primeiro momento salvo no aplicativo. Em alguns minutos, você se afastará do palco mancando, usando o balcão do bar para se refugiar da muvuca. Ela estará lá, se enlambuzando com um Kit-Kat semiderretido enquanto todos ao redor tomam cerveja long neck. Vai se aproximar todo salvador com um guardanapo na mão. Mas justo agora que eu atingi o ponto ideal de meleca, sua futura namorada contestará, gargalhando.

Ou não. Afinal, um ano e meio depois, você dará motivos suficientes pra ela nunca mais te presentear com uma risada tão moleca. Lá está, abrindo o doce. Você segura suas pernas e apenas assiste. Com a boca achocolatada, a moça, ainda uma desconhecida, vira a cabeça para os dois lados e busca uma testemunha para sua criancice. Ninguém aparece com um guardanapo e ela se dirige ao banheiro. O momento passou, é agora apenas uma lembrança confusa na sua cabeça, daquelas que se confundem com uma imaginação qualquer. A partir desse ponto, não há mais pra quando voltar.


Não sei escrever sobre o amor. Mas a série de contos Amar é… bipolar fala de relacionamentos. Se gostou, recomende, destaque, comente.
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