Amar é… bipolar: Venci a Morte

A Morte tinha olhos pequenos, levemente estrábicos, o que só a deixava mais atraente. Por isso, quando me sentenciou a parar de respirar, no máximo, em dez anos, minha reação imediata foi chamá-la pra sair. Ponderada, a médica insistiu que meu coração estava acelerado. Eu sei, respondi, você é a responsável por isso. Ganhei um sorriso e quase me considerei sortudo. Afinal, eu tinha uma rara condição cardíaca e, sem essa doença, talvez eu nunca conhecesse a doutora Sofia.
Melhor, pela singulariedade do meu caso, a mulher que me condenou a morrer fez questão de me acompanhar de perto. No meu primeiro ano de cadáver ambulante, nossos encontros eram apenas uma vez por mês, quase um namoro à distância.
Faltando ainda nove anos para meu prazo de validade expirar, nossa relação ficou mais séria. Os momentos a dois rolavam quase toda semana e eu tomava alegre cada um dos remédios que ela me passava, como se fossem bombons. Seu receituário era uma coleção de cartas de amor.
No terceiro ano, mudei radicalmente a alimentação e comecei a me exercitar, como minha doce carrasca exigiu. Perdi a barriga e ganhei um peitoral. Queria ficar mais bonito pra ela.
O quarto ano foi dedicado a experiências com novas drogas, que me faziam perder a fome, desenvolver coceiras e soltar gases, mas nada do coração sossegar.
No quinto ano, ela me apresentou à ioga, à meditação e a uma série de orientalismos, que já faziam parte de sua rotina há muito tempo. Só então a vi sem jaleco e fora do consultório.
Seis anos. Tornei-me vegetariano, como a doutora Sofia.
No sétimo ano, ela sugeriu me colocar na fila do transplante, porque havia uma chance do novo coração não padecer como o velho.
No oitavo ano, viajamos juntos. Dez dias, na Alemanha, pra fazer exames com um especialista em corações artificiais.
A um ano do fim, sem perspectiva do transplante sair e incompatível pra receber o órgão de plástico, fiquei feliz por conservar meu coração original, com medo de que qualquer outro parasse de bater pela médica.
O ano derradeiro foi tranquilo. Estava pronto pra partir. Doutora Sofia, porém, lamentou que não pudesse mais fazer nada por mim. Chamei-a mais uma vez para sair, agora que a relação médico-paciente estava encerrada. Não vai negar meu último pedido, dramatizei.
Ela aceitou tomar um sorvete. Escolheu um de manga e eu, de Nutella. Fazia sol, o doce derretia fácil, a gente se lambuzava e ria. Não resisti e, sem nada a perder, roubei um beijo melado. Estávamos muito perto do hospital, mas a garganta dela fechou tão rápido que não foi possível salvá-la. Pensei que não houvesse mais segredo algum entre nós. Porém, em dez anos, ela nunca me contou que era alérgica a avelã.
Não sei escrever sobre o amor. Mas a série de contos Amar é… bipolar fala de relacionamentos. Se gostou, recomende, destaque, comente.
Conheça também meu livro O Teatro da Rotina, sobre absurdos do cotidiano.
Minhas tentativas de fazer poesia renderam a série Poeta de Araque.
Faço parte ainda do coletivo Discórdia. Siga-nos também no Facebook e no Instagram.
Se quiser bater um papo, meu email é alex.axavier@gmail.com

