Experiências de leitura em 2016: Livros que li em julho

Como antecipei no texto dos livros que li em junho, julho não foi um mês de muitas leituras. Tirei o tempo para fazer outras coisas: viajei pra minha BH, tirei tempo pra pensar na vida, e pra deixar o frio me paralisar — é que pareço também congelar no frio. E aceitar isso é parte do meu acordo atual comigo mesma.

Me sinto à vontade pra poder falar que li só um livro, no singular. Nessa onda de valorizar tanto a quantidade, é fácil a gente se sentir mal, se sentir não fazendo o suficiente. O que é suficiente? Contra quem estamos disputando? Livros não são feitos para serem terminados, vencidos, contabilizados e descartados (ou colocados na estante). Tenho pra mim que eles são pra ser desfrutados, pensados, conversados sobre. Preciso me conectar com as histórias, com as ideias, e essas histórias e ideias precisam também se conectar com outras pessoas. É assim que construo sentido.

É isso que mais tenho gostado desde que comecei esse projeto de escrever sobre o que leio, em janeiro: registrar impressões sobre o que se lê é uma oportunidade muito legal pra elaborar ideias. O fato desse registro ser público é uma janela para conversas com os outros, mas, acima de tudo, é uma janela para estruturar a conversa comigo mesma. Qual a minha relação com as leituras? O que isso me permitiu pensar? Pra mim, essas perguntas são as mais importantes de serem examinadas. Zero, um, cinco, dez livros: qualquer quantidade de leituras me permite conectar com essas questões. Então pra que se preocupar com a quantidade? O que importa é entender esse fluxo pelo qual o seu pensamento navegou e entender pra onde estamos caminhando.

Pois vamos deixar esse fluxo seguir. Compartilho com você aí embaixo o livro que li em julho, e as sensações que essa leitura me provocou:


As correções — Jonathan Franzen

Comprei o livro na viagem que fiz para BH, em junho. Estava há um ano sem ir à cidade — que é onde nasci e morei meus 32 anos anteriores — e com muita saudade de várias coisas. Uma delas era de ir a uma livraria.

Andar por uma livraria tinha sido, até então, a forma como escolhia muitos dos livros que acabava lendo. Aonde moro atualmente, no interior do Paraná, há apenas uma livraria, só com livros de listas de mais vendidos — que via de regra não costumam me interessar. É claro que, neste ano de novas vivências fora de BH, eu fiz várias adaptações e me sinto atualmente bem confortável com outros modos de “escolha” de leituras. Tá tudo bem. Mas é sempre bom revisitar o passado pra pensar no presente.

Nesse dia, fiz esse passeio saudosista na companhia também saudosista do meu ex-namorado. As correções é fruto desse duplo reviver do que passou: foi ele quem me disse que tinha adorado esse livro e que achava que eu poderia gostar.

E por uma dessas coincidências, o modo como o livro veio parar nas minhas mãos tem tudo a ver com o conteúdo que o livro me fez pensar.

Se eu tivesse que escolher uma palavra pra falar dele, eu diria que As correções é um livro sobre narrativas. O enredo não tem nada demais: uma família do meio-oeste americano; um casal já idoso, e seus três filhos, cada um tocando sua vida. O pai vai progressivamente ficando com a saúde fragilizada, e isso leva a um certo reencontro de todos. Sem se centrar nesse evento do reencontro, a história navega entre os demais personagens da família e suas existências, e uma espécie de revisão de suas próprias histórias, facilitada pelo fim próximo do personagem do pai. É como se essa revisão os fizessem corrigir não suas vidas, mas o roteiro que eles narravam para si mesmos como sendo as suas histórias.

Como as coincidências não tem sido poucas nesses últimos meses, As correções também retomava uma leitura muito legal que havia acabado de aportar no meu email. Na última semana de junho, eu tinha lido um texto pouco pretencioso mas que me tocou muito na newsletter da Aline Valek (era “Do fundo do Baú”, que pode ser lido nesse link). Ela fazia uma espécie de revisita ao seu próprio passado, e a mim me parecia que ela tentava construir uma narrativa para quem ela é hoje: escritora, ilustradora, uma contadora de histórias a partir de diversas linguagens. Eu tinha gostado tanto desse texto que escrevi de volta pra ela. Disse assim:

Fiquei pensando no quanto é preciso coragem pra poder escrever sobre aquilo que a gente foi. Pode ter parecido bobo — como você disse na newsletter -, mas acho que é algo difícil, muito difícil. Estou num momento de muitas mudanças e tenho repensado muito sobre o que fui. Na maioria das vezes, o que sinto é apenas desconexão entre o eu de agora e do passado. Mas sua newsletter me fez pensar que tudo é uma questão de se pensar em como narrar nossas próprias histórias. Fiquei pensando na leveza do seu olhar sobre a sua própria narrativa, e em como você construiu nessa pequena historieta uma continuidade no seu percurso, desaguando no que você percebe de si hoje. Por mais tosco que tenha sido (e nem foi), há algo que te levou a chegar no que é hoje. Tudo depende para que fatos estamos dando destaque, ou como organizamos a narrativa. Que, é claro, não precisa ser a mesma nunca. Fiquei pensando que narrativa posso construir com os fatos do meu passado pra moça que eu sou hoje.

As correções parecia retomar essa mesma temática: os fatos são o que são ou nós damos um certo sentido para justificar aquilo que nos tornamos? Como organizamos a nossa narrativa?

Tenho pensado que nossa história não é feita de fatos. Ela é mesmo obra aberta, como qualquer livro, como qualquer texto. Corrigir — palavra trazida no título do livro — não significa tornar algo “mais certo”, mas “revê-la”, tornando a leitura da narrativa mais apropriada ao que o fluxo da vida se encarregou de nos levar. Nossa história está sempre sendo escrita e por isso não há propriamente o que corrigir.

A vontade de corrigir, de ter uma narrativa passada a limpo, pode concentrar tanto esforço na condução da história que “eu” corre o risco de se perder. É o que ocorre com uma das personagens, Denise, que fica atônita quando descobre (ou reinterpreta) algumas atitudes do pai e parece ter o desejo de se apagar, como se isso fizesse apagar aquilo que passou. Mas não há o que ser apagado, porque não há uma versão final desse enredo. Quando entende isso, Denise se permite viver nessa (nova) narrativa, que não deixa de ser continuidade.

O fato de que a história esteja sempre sendo escrita também não quer dizer que a história nunca esteja pronta. Por mais que não haja versão final, todas as versões são também histórias. Senão, também não existimos. Não tem essa coisa de “quando é mesmo que a vida começa, pra valer?”. A vida não é rascunho. Essa ideia aparece em outro personagem, também filho, que escreve eternamente um roteiro de um filme, sem nunca conseguir entregá-lo. Estamos sempre a escrever nossa história, mas corrigir não é rascunhar, nem continuamente reescrever. É reinterpretar; é ter coragem de olhar para o que já estava escrito e saber que se pode ler de outro jeito. E é preciso uma dose de criatividade pra seguir fazendo essas leituras. Parte da graça está aí.

Pra mim, esse é o movimento necessário que as personagens de As correções pareciam ser levados a compreender (e realizar); foi também o que li e me encantou naquela newsletter da Aline Valek; e é como acho que preciso fazer com minha própria história. Ainda não sei bem que correções serão necessárias, mas vou desfrutando da releitura sem pressa, como num mês de muito frio.


Caiu nesse meu projeto sem querer, mas ficou curioso pra ver minhas experiências de leitura dos meses anteriores? Estão aqui:

Janeiro — Fevereiro — Março — Abril — Maio — Junho