Experiências de leitura em 2016: livros que li em setembro

Coisas que experimentei além das histórias: abandonar uma leitura e comprar livros que eu teria preconceito em outros tempos

O mês de setembro foi um mês de muitos livros. Mas principalmente, de muitas experiências com os livros, e não somente com as histórias que os livros trazem.

A primeira dessa experiências foi a de criar coragem e abandonar um livro. Foi difícil pra mim admitir que não estava de fato interessada. Um certo conflito fica aqui comigo sobre se me esforcei ou não o suficiente pra gostar e entrar na história. Eu elaboro melhor a questão quando falo aí embaixo sobre a leitura desistida. Mas adianto: pra mim foi algo bem difícil de se fazer.

A segunda experiência envolveu a leitura de um livro sobre escrita, que gostei bastante. Morro de vergonha de assumir meu interesse. Essa leitura foi fundamental pra eu criar coragem e comprar alguns livros nessa última semana sobre outros assuntos que eu também tenho vergonha de assumir. É algo que eu já vinha fazendo nesse um ano de projeto em que relato o que leio, mas que deve ganhar um pouco mais de discussão em outubro. Por que é mesmo temos vergonha de assumir determinadas leituras?

Honestamente, fiquei muito feliz em ter essa coragem. Acredito que ter exercitado durante todos esses meses fazer pedidos razoavelmente aleatórios de trocas pelo livralivro me auxiliou nesse desprendimento. O fato da gente não ter que propriamente pagar pelo livro — só pagamos o envio — muda um pouco nossa relação com as escolhas. Me senti mais leve, e arrisquei bem mais.

Estar escrevendo sobre os livros também foi importante nesse processo. De uma certa forma, ter de escrever sobre o que leio me faz ter uma atenção maior sobre os ganhos e reflexões que me trazem as leituras. Eu não quero ler algo só porque todo mundo está lendo, ou porque vou parecer uma pessoa legal ou inteligente. Quero construir uma narrativa que faça sentido pra mim. E pra isso, é preciso um tantinho de coragem de não se prender às narrativas dos outros. O que os outros leem é bom, e tiro muitas ideias que acabam se encadeando nas minhas escolhas de leituras, mas ainda não sou eu. Preciso responder o que é que faz sentido pra mim, acima de tudo.

Sobre essa temática das escolhas dos livros, e dos livros que temos medo de admitir que lemos ou queremos ler, li uma discussão muito boa nesse último mês sobre o assunto, que foi escrita pela Stephanie Borges: A lista da vergonha. Depois da leitura troquei twittes e emails (com ela e com mais gente) com vários livros que colocaríamos nessas listas, mas que gostamos tanto de termos lido. Leia o texto dela. É um aperitivo e tanto pra essa discussão.

Volto ao tema no mês que vem, quando meus vários pedidos inusitados chegarem e eu tiver de compartilhar por aqui.

Por hora, tenho algumas (muitas!) leituras mais “normais” (embora eu não saiba bem o que isso quer dizer) pra compartilhar, que fizeram parte do meu mês de setembro:


No ar rarefeito — Jon Krakauer

Aqui está um ótimo exemplo sobre como ler coisas aleatórias que parecem minimamente interessantes pode ajudar a vencer preconceitos.

Achei o livro disponível pra troca no livralivro (experimentem! sou uma entusiasta do site e falei sobre minha experiência de trocas de livros aqui).

Eu nunca experimentei escalada, e não tenho nenhuma afinidade com esportes radicais — talvez eu devesse admitir que não tenho afinidade com esportes de qualquer tipo. Tudo o que eu sabia do livro, além da sinopse, resume-se a outros livros do autor. É dele também o livro Na Natureza Selvagem, sobre um menino que larga tudo e vai viver no mato no Alaska em busca de si, e que tem um filme homônimo bem pop, que talvez você já tenha topado por aí.

Em 2015, Krakauer lançou um livro novo que andou sendo bastante comentado em junho de 2016, por narrar uma história muito similar a um caso que repercutiu naquele mês. Um atleta universitário norte-americano foi condenado a cumprir apenas 6 meses de detenção por estupro. O tempo pequeno de pena, na sentença, é justificado porque mais que isso “teria um impacto muito negativo na vida do jovem” (o impacto do estupro na vida da jovem estuprada, como se vê, importa pouco). O livro de Krakauer que contava casos semelhantes a esse que circulou era Missoula: estupro e justiça numa cidade universitária.

Nada desses fatos que eu conhecia, no entanto, diziam qualquer coisa sobre No ar rarefeito. E apesar de saber dos outros títulos do Jon Krakauer, a verdade é que eu nunca tinha lido nada dele. Dei uma chance ao acaso do livro estar disponível e embarquei na leitura.

Foi uma ótima e inusitada escolha. Passei o feriado de 7 de setembro inteiro lendo o livro, sem conseguir desgrudar da narrativa.

O livro foi fruto de uma expedição que o autor participou com o intuito de escrever uma reportagem para a revista Outsider, sobre a crescente comercialização turística de escaladas no Everest. Apesar de ser a montanha mais alta do mundo, os desafios técnicos para se escalar o Everest são mais das condições adversas de se estar numa altura tão elevada do que de uma dificuldade da topografia. Por isso, muitos montanhistas que passam a vida escalando enxergam no Everest uma oportunidade de se sustentar levando pessoas endinheiradas interessadas em desafios, pois o Everest não requer tanta experiência e habilidade assim quanto pode parecer.

A crescente comercialização das escaladas, no entanto, tem alguns poréns. E vários deles estão problematizados em No ar rarefeito.

O livro é muito interessante porque consegue juntar a narrativa da escalada, que tem um apelo fílmico bem evidente, com reflexões sobre porque as pessoas resolvem escalar montanhas, e quais as consequências sociais, políticas e econômicas do turismo de aventura pra pessoas que se vêem envolvidas na atividade.

Vários dos acidentes que aconteceram ao longo dos anos no Everest costumam ter envolvido sherpas, uma etnia tibetana acostumada a levar a vida em grandes altitudes. São pessoas dispostas a arriscar a vida em troco dos salários relativamente altos em comparação com o que é pago nesse pedaço da Ásia. O fração de sherpas envolvidos com turismo de escalada, de acordo com Krakauer, chega a 40%.

O autor, que tem experiência em montanhismo, também compara a sua experiência em escaladas tradicionais com a escalada comercial que participa no Everest. O montanhismo é uma atividade muito coletiva porque você precisa ter uma confiança muito grande nas pessoas que estão praticando o esporte contigo. A escalada envolve riscos: riscos reais de cair e morrer, mesmo que o esporte seja sobre como controlar e superar esses riscos. Nas escaladas comerciais, no entanto, o que liga o grupo é apenas a ocasião — e claro, o bolso avantajado. Conhece-se pouco dos participantes, das suas habilidades, da sua capacidade reativa frente ao imprevisto. Há uma subversão muito grande da prática, o que explica também em parte que tragédias como a que é contada no livro possam acontecer.

São muitas as reflexões que o livro permite, mesmo pra quem não compartilha quase nada do universo do montanhismo. Dá pra se pensar, por analogia, sobre a natureza coletiva de várias outras atividades, e de como “o dinheiro vem pra confundir o amor”, como canta o rapper Criolo. E claro, foi ótimo também pra me provar que é muito bom arriscar — nas leituras, e não nas montanhas.


Timoleon Vieta volta para casa: uma viagem sentimental — Dan Rhodes

Outro livro que me deparei nas trocas. E sobre esse, o desprendimento de pré-conceitos precisou ser maior: eu não sabia muito mais do que a sinopse. A capa achei muito simpática — e dentro descobri que a ilustração, que é acompanhada por várias outras semelhantes, é de autoria de Vien Thuc, um ilustrador vietnamita.

Apostei no livro porque além da capa simpática (quem nunca?), quem o disponibilizou foi a mesma pessoa que tinha deixado por lá o livro da Adriana Lunardi que eu tinha adorado, e achei que isso era um sinal de que deveríamos ter o mínimo de afinidade de leituras. E tanto é verdade que esse moço acabou pedindo uns livros meus (espero especialmente que ele tenha gostado dO Filho de Mil Homens, do Valter Hugo Mae, que foi um exercício de desapego da minha parte).

Timoleon Vieta é um livro, à princípio, bem bonitinho, mas num formato que não é necessariamente muito inovador. O recurso usado é o das histórias incidentais, que não me chamou tanta atenção porque lembra aquela velha fórmula do “histórias que se cruzam”, usada principalmente em narrativas audiovisuais.

O personagem principal é um homem mais velho, que está entrando na terceira idade, e que mora sozinho com seu cão, Timoleon Vieta, em um vilarejo na Itália. No passado, esse homem viveu cercado de muitas pessoas. Compôs uma trilha sonora para um seriado que o deixou relativamente conhecido, e por isso pôde frequentar rodas sociais de pessoas importantes do show business. Uma entrevista desastrosa, porém, o tirou de circulação. E ele hoje amarga esse isolamento, travestido de uma romantização da “fuga ao campo”.

O homem passa os dias gastando o dinheiro que os direitos autorais ainda lhe rendem — e especialmente em tempos que o revival anda tão na moda, a trilha está sempre reaparecendo. Ele frequentemente bebe bastante em noites de farra, e entrega seu cartão a muitos desconhecidos, convidando-os pra passar uns dias em sua companhia, tentando de uma forma tosca recuperar os dias de glória.

Um desses desconhecidos resolve aparecer de verdade na sua casa. E odeia o cão, que no fundo é o grande companheiro do velho compositor. Disposto a manter a companhia humana, e convencido pelo desconhecido que odeia Timoleon de que não há espaço para o cão e o visitante viverem juntos, o compositor termina abandonando o cão no centro de Roma. E é aí que começa a peregrinação do cão de volta pra casa. Nesse caminho, Timoleon cruza com várias pessoas e também com várias histórias incidentais.

Particularmente, as historietas tematizam de outros jeitos alguns temas que fazem parte da narrativa central da relação do homem com o cão — como o abandono, a traição, o companheirismo, a afinidade. O propósito me pareceu muito claro.

Havia mencionado no início desse relato sobre as ilustrações e como a capa tinha me ajudado na aposta do livro, e fiquei um pouco ressentida com o tratamento que elas receberam. Achei que as ilustrações poderiam ter muito mais destaque, e estarem incorporadas de modo mais cuidadoso na edição do livro. É como se a edição não assumisse inteiramente as ilustrações como parte da obra. Mereciam estar impressas num papel mais legal, talvez à cores. São lindas.

O final da narrativa é um tanto surpreendente — tão surpreendente que sinto que seria de muito mal tom que eu o contasse. É suficiente saber que o final não é o que se espera. E que a ideia da surpresa, mais do que me pegar, me deu uma sensação de aleatoriedade.

Fiquei depois me perguntando até que ponto a vida também é assim. A vida é surpreendente, e nem sempre as surpresas são boas. Elas são o que são: tão aleatórias quanto as surpresas de se encontrar um livro. A gente apenas experimenta as sensações que esses encontros e desencontros nos causam.


Especiarias e Ervas Aromáticas: História, Botânica e Culinária — Jean-Marie Pelt

Eu tenho por hábito ler mais de um livro simultaneamente. Geralmente eu escolho um livro de ficção e outro livro de não-ficção porque isso me ajuda a manter um ritmo e a estar sempre interessada em ler, pois não dependo tanto de estar com uma única disposição ou humor pra voltar à leitura. De modo que, nesse mês de setembro, ao mesmo tempo que eu li Timoleon… eu também lia este.

Eu sei que esse é um tipo de livro bem específico, e que provavelmente serão poucos os que terão disposição pra ficar lendo sobre comida. Eu gosto bastante de ler sobre o assunto, apesar de não curtir nadinha livros de receitas.

Acho que talvez fosse o caso de mais gente dar crédito e se dispor a entender melhor esse mundo da comida. Pensa só: especiarias fizeram as grandes navegações acontecer nesse mundo. Não é pouca coisa não! Deve ter algo de muito bom pra gente entender porque elas foram tão importantes.

Especiarias e Ervas aromáticas é um livro com uma edição bem cuidada — ao contrário do que achei de Timoleon. É cheia de ilustrações bonitas de plantas, embarcações, mapas e cenas antigas distribuídas por todo o texto. Produzido em papel offwhite em tom amarelado, o livro já me fez sentir nesse espírito de um passado histórico na primeira página em que eu o abri.

Aliás, a experiência da diagramação do livro é das coisas mais subestimadas que existem. O jeito que o livro é montado deveria dizer também da história que é contada, sempre. Esse aqui foi um exemplo muito legal de como isso pode ser feito de modo muito simples, mas bastante eficaz.

As histórias do livro são leves, e bem temperadas. Mesmo problematizando alguns dos conflitos que o comércio de especiarias e a ganância das pessoas que se envolveram com a atividade causou, o tom é bastante casual.

Senti uma vontade tremenda de fazer pão-de-mel assim que terminei o livro. É sério! Eu sou uma pessoa um bocado sensorial, e o mergulho na leitura foi tal que o cheirinho de noz moscada, cravo e canela impregnaram o meu nariz enquanto eu lia. Pra quem não acredita que é possível viajar em livros de não-ficção, eu pareço ser a prova do contrário.


O livro do cemitério — Neil Gaiman

Neil Gaiman, embora muito conhecido, não é uma escolha muito óbvia pra mim.

Eu nunca achei que eu tivesse muita afinidade com ficção de fantasia. Mas eu tinha experimentado um outro livro do Gaiman em abril (era O oceano no fim do caminho), por indicação e empréstimo da Raphaela Rezende, e surpreendentemente tinha gostado muito. Muito mesmo.

A Rapha e eu nos empolgamos um pouco, e continuamos a conversa sobre o Gaiman. Foi assim que ela, apesar de estar em Floripa no momento (e eu no interior do Paraná) acabou achando um jeito de me emprestar outro livro do autor. E eu, que também tinha me animado com ele, também trouxe um outro volume emprestado da minha irmã, que está em BH (o título é Neverwhere, que ainda não peguei pra ler).

Dá pra ver que rolou um imenso esforço pra fazer esses novos livros do Gaiman chegarem até mim. E acho que em parte isso ajuda a entender a dificuldade que tive de decidir abandonar esse livro em particular.

A verdade é que tenho uma dificuldade grande de conseguir entrar nas histórias de fantasia. É como se eu não conseguisse entrar naquele enredo, e ficasse constantemente olhando de rabo de olho, desconfiada. Como se eu nunca acreditasse de verdade pra mergulhar na narrativa.

Eu me pergunto porque isso acontece. Não sei se você já se sentiu assim.

O que me causa mais estranheza é que pra mim a ideia da literatura de fantasia parece muito legal. Há algo alegórico, simbólico, que está contido nas histórias e que tem um valor mais potente do que a literalidade de uma história mais “real” de ficção pode conter. Ela se abre a interpretações de um maneira ímpar. Eu realmente gostaria de conseguir mergulhar um pouco mais em algumas dessas narrativas, mas acho que esse livro foi um pouco longe demais pra mim. Não consegui me sentir naquela história nem um segundo. Li pouco mais de 40 páginas antes de desistir. Preferi deixar esse mergulho pra lá, não sem antes me sentir um pouco mal de fazer isso. Será que eu não me esforcei o suficiente?


Quero ser escritor — Tales Gubes

Conheci o Tales Gubes no projeto Ninho de Escritores. Lá, a ideia é criar um espaço de acolhimento, de trocas e de conversas sobre escrita pra quem está interessado em escrever. O foco não é trabalhar técnicas de escrita criativa ou estrutura narrativa. E esse livro do Tales Gubes também não é exatamente sobre isso.

Eu vinha acompanhando as newsletters do Ninho de Escritores há alguns meses (aliás, recomendo muito!), e, apesar de ter uma imensa dificuldade em assumir a escrita como uma atividade que me ocupa tanto, dessa vez eu criei um pouco de coragem. Eu comprei um dos e-books do Tales porque suas Newsletters faziam muito sentido, e eu fui me sentindo mais capaz de me colocar nesse lugar de alguém que escreve, sem tanto medo do julgamento das pessoas.

Quem passa pela tarefa da escrita consegue entender um pouco do quanto escrever pode ser um atividade solitária. E na verdade, muito do que queremos com a escrita é estar juntos, compartilhar histórias, e nos conectarmos através das narrativas. Criar um espaço de acolhimento — seja no livro, ou no projeto Ninho de Escritores — me parece fazer todo sentido, pois parece ser um modo de tornar a prática mais solidária.

Fiquei muito bem impressionada com a leitura. O Tales consegue falar sobre alguns pontos interessantes sobre o ato de escrever — como a própria dificuldade de se assumir enquanto escritor — de um modo muito delicado. Ele conta pequenas historietas pra ilustrar porque essas questões fazem sentido, e isso dá uma sensação de proximidade muito grande. Era como se estivéssemos batendo um papo, e ele estivesse me ajudando a perder o medo de dizer que eu escrevo.

Apesar do subtítulo “57 dicas para escrever melhor”, não há nada muito prescritivo no livro. São mais sobre experimentações e caminhos possíveis, que foram bem precisos em me convencer a testar algumas coisas pra melhorar o tom da minha escrita. E aliás, eu me pergunto: que mal há em ler sobre escrever, pra que eu sinta tanta vergonha como estou sentindo agora enquanto estou contando sobre essa leitura? Você já se sentiu assim? Pois é. O livro me ajudou a pensar nesse assunto.

Vários dos pontos fizeram sentido pra mim. A partir dessa leitura, separei algumas indicações dele de livros pra continuar lendo e pensando sobre escrita. Especialmente, meu interesse não é em narrativas ficcionais, mas em construção narrativa e afeto. Para os próximos meses, espere ver algumas dessas indicações por aqui.


Nos meses anteriores eu também contei sobre várias outras experiências com leituras. Você pode se aventurar nas minhas experiências logo depois do bip:

Janeiro — Fevereiro — Março — Abril — Maio — Junho — Julho — Agosto