Experiências de leitura em 2016 — parte 5: Maio

Ler menos também é parte do processo (mas dá pra ganhar com isso)

Estranhamento: esta foi a palavra que me acompanhou na leituras desse mês. É curioso como a leituras motivam ou desmotivam nossa disposição de continuar lendo. No mês passado, ter tido contato com duas leituras que achei fantásticas me motivaram naquele mês a ler mais, especialmente a ler mais ficção. Foi esse o caminho começado em abril, que se estendeu por maio. Mas nesse mês, a leituras escolhidas não foram as mais instigantes pra mim, e senti que minha disposição para ler diminuiu um bocado. Os dois primeiros livros li na primeira semana do mês. E só voltei a ler na última.

É importante perceber como as leituras nos afetam, nos motivam, nos fazem querer fazer mais ou menos daquela atividade. Me lembrei que essa inquietação de como ter (mais) vontade de ler era uma pergunta que eu costumava ouvir dos meus alunos com muita frequência. É que alguns não gostavam de ler e, quando percebiam que o curso que haviam escolhido ia pedir com uma frequência assustadoramente alta que eles lessem, me perguntavam sobre como aprender a gostar da atividade. Eu sempre devolvia a pergunta e questionava sobre que assuntos ele ou ela gostava na vida, e assim sugeria começar com uma leitura sobre aquele assunto que já era sua paixão. Ler sobre uma coisa que se ama, devorar um livro com toda voracidade porque aquilo que você está lendo dialoga com as suas convicções e paixões mais íntimas é uma experiência ímpar. Mesmo assim, dá pra ver que gostar de um assunto não é garantia de que você vai encontrar uma leitura que ressoe em você, como é possível sentir nessas minhas leituras do mês de maio. Isso não invalida a experiência, mas pode ser frustrante pra quem quer encontrar mais disposição pra ler. De toda forma, o estranhamento é (ou foi) uma sensação importante, e acho que vou conseguir me explicar melhor com os relatos dos livros que li nesse mês que passou:

O massagista místico — Naipaul

Eu não sei se entendi esse livro. Quer dizer, eu posso narrar pra você a história, posso explicar o tom do livro, e talvez possa imaginar a intenção do autor. E ainda assim, eu não entendi o livro.

Foi essa interrogação que ficou na minha cabeça quando o terminei. Uma espécie de “Tá, e daí?”.

Talvez uma parte dessa interrogação seja fruto da minha distância com o universo retratado pelo autor. O autor é de uma família indiana, como muitos também o são em Trinadad e Tobago — sua terra Natal. O país, que é uma ilha caribenha, foi colônia da Inglaterra, e por conta da relação também colonialista entre Inglaterra e Índia, recebeu muitos imigrantes e influência dos dois países. Essa questão parece marcar bastante o que Naipaul escreve. Nesse livro, um homem de origem indiana narra como se tornou um místico “respeitado” em seu país. A questão é que “respeitado” precisa dessas aspas que coloquei porque o personagem é uma espécie de charlatão. Não é somente um místico charlatão, mas um engodo de pessoa. Tudo o que ele escolhe fazer é de caso pensado para apenas parecer que se é. Mas ele nunca foi, nem nunca será. E mesmo assim, ele vai ganhando notoriedade, dinheiro, respeito, fama.

Eu consigo imaginar que o autor quer brincar na história com uma crítica ao universo cultural que o contorna. O tom do livro é irônico — e da pra entre-ver isso em algumas coisas, como a escolha do nome de uma personagem como “a grande arrotadora”. Mas apesar de conseguir enxergar isso, o livro não me fez sentir aquele sorrisinho de canto de boca, que me parece a expressão mais apropriada pra se falar de ironia. A ironia podia estar lá, mas ela parecia pra mim mal desenhada. Era como se eu precisasse dizer pra mim mesma que “aquilo devia ser somente ironia, né?”. A passagem que mais me incomodou foi quando do casamento do místico, quando sua esposa relata ao pai que o casamento havia sido consumado porque ele já havia batido nela. Quero dizer, eu entendo que isso é uma ironia. Eu entendo que só pode ter um tom crítico. E ainda assim, a agressão a mulheres parece uma coisa tão real no mundo que colocá-la de modo tão escancarado e lícito no livro me parece aberto demais a interpretações erradas. Nada melhor pra descrever isso do que a frase “seria cômico, se não fosse trágico”. Pois é trágico. Não consegui achar graça desta e de outras ironias, mesmo enxergando elas lá. E isso deixou a leitura com um ar bem estranho.

Um adendo: não li nem escrevi isso afetada pela perplexidade do caso do estupro coletivo, que ocorreu na última semana de maio, e que tem suscitado debate sobre violência de gênero. Li este livro na primeira semana, e escrevi esse pedaço do texto uns dois dias após ter terminado a leitura. As ironias é que não me pareceram nada irônicas mesmo. E talvez eu tenha razão.

Adoro morrer — Tibor Fisher

E eis que depois de ler um livro que pra mim cheirava a estranheza, eu consigo achar outro livro que me fez sentir do mesmo jeito.

E foi uma “estranheza tão estranha” que até a familiaridade se passou pela minha cabeça. Pelo menos umas duas vezes nessa leitura, pensei que já devia ter lido esse livro em algum momento da minha vida. Mas apesar de familiar, o livro me dava sempre a sensação de que tinha algo que estava passando batido, de que eu não tava entendendo tudo o que devia entender.

Em parte essa familiaridade desvendei que vinha de um livro que li anos atrás e que se chama Como me tornei estúpido, de Matin Page. O personagem principal tenta se encontrar no mundo e, como no título, percebe que pra ficar bem tem de se emburrecer e ser menos crítico. Ignorance is a bliss.

Os dois livros tem um tom meio de crítica-ácida ao mundo, mas ao mesmo tempo me soam infantis. Isso não é necessariamente ruim. Quando eu digo infantil, acho que quero dizer que esse me parece um jeito superficial e pouco maduro de falar das angústias de estar no mundo. É um jeito de não falar: vamos ignorar as merdas da existência.

Adoro Morrer é um pouco assim. É um livro de contos, gênero literário que me agrada bastante até. O problema é que conto é um gênero mais difícil do que se imagina. As histórias são bem interessantes, muito urbanas, fragmentadas, globalizadas, e de alguma forma falam com a vivência da minha geração (tenho 34 anos, caso esteja se perguntando que geração seria essa). O fragmentário do livro aparece também na escrita, mas pra falar a verdade detesto contos que terminam de um jeito enigmático. Me dá a impressão que o autor quer parecer super profundo, mas não sabe bem como fazer isso, e daí termina falando algo que ninguém entende. É como se o autor fosse um pouco personagem do livro Como me tornei estúpido: prefiro não discutir esses problemas, vamos deixar isso pra lá, e é assim que dá pra levar a vida (e o livro). Parte dos contos desse livro me pareciam um pouco assim. Pode ser também que só tenha me escapado a ideia que o autor queria trazer. E acho que isso é provável mesmo: a gente nem sempre consegue apreender tudo.

Dava pra ver que tinha algo do humor inglês, ou das cidades inglesas em que se passavam as histórias que eu percebia que devia estar subentendido, e ainda assim eu não conseguia captar. Seria como se contássemos uma história que se passa no Rio de Janeiro para um estrangeiro, que acionasse o nosso imaginário sobre a cidade, mas que nunca estava lá escrito expresso que o Rio, pros brasileiros, é sinônimo de badalação, malandragem, corpos expostos (mesmo que nada disso corresponda ao Rio real). O estrangeiro poderia associar o Rio a algo — talvez a sol, calor, beleza natural — mas repare que essas associações são com características físicas do Rio, e não culturais. As culturais são coisas que demandam vivência. Mesmo que eu conte a ele que Rio = malandragem, entender que malandragem é essa que eu estou falando é difícil. Malandragem ainda é polissêmico demais. E é um pouco assim que eu me sentia lendo os contos de Adoro morrer. Há algo ali daquelas cidades inglesas que me escapa. Que mesmo que me contem, não faz parte da minha vivência e que por isso me parece mais estranheza que compreensão. Talvez essa seja uma possibilidade de ir construindo um pouco desse universo cultural inglês, mas a sensação de não compreender direito a graça das histórias foi um pouco frustrante.

Budismo — Claude B. Levenson

Na última semana do mês, resolvi ler esse livro de bolso, com um pouco de conhecimento enciclopédico sobre budismo. Eu não tenho nenhuma familiaridade com essa religião, e como tenho tentado fazer um exercício de ter menos preconceito — religião não é um tema que me agrada — , achei que poderia ganhar algo com a leitura. Em janeiro, cheguei a ler um livro sobre religião que achei muito interessante. Por isso, bora arriscar de novo.

O livro cumpre o que promete. Não tenho muito o que dizer do seu conteúdo. É isso mesmo: conhecimento enciclopédico sobre budismo, escrito de um jeito simples, descomplicado, sem tentar ser didático demais.

O que ficou do livro, no entanto, não é seu conteúdo. A percepção que tive foi sobre minha relação com a leitura: livros com panorama geral, simplificados, ou de bolso, sobre um determinado tema não são pra mim. Mês passado eu havia lido um sobre Gandhi, e fiquei com a mesmíssima sensação: perda de tempo. Eu adoro profundidade, eu gosto de sentir que mergulhei em determinado assunto. Eu não fico perdida com excesso de detalhes. Pelo contrário. Isso pra mim isso é instigante, e eu costumo terminar a leitura atordoada pensando no que mais posso ler. Eu adoro a tontura que dá saber o tamanho do buraco que existe sobre o que eu não sei. E um livro com panorama geral não me permite ver os buracos, justamente porque o autor tenta te fazer enxergar um todo completo. Traçar uma big picture.

Essa noção de que eu não curto leituras panorâmicas tem a ver com quem eu sou. Não há certo ou errado, apenas há coisas que nos agradam mais e coisas que nos agradam menos. Ter essa percepção sobre seu estilo, no entanto, não é fácil. Pode parecer que é fácil chegar a esse entendimento sobre seu gosto, mas não é. Eu, que gosto de leituras, ainda não tinha me dado conta desse modo como estou colocando aqui, que não faz minha cabeça leituras enciclopédicas (e por isso me meti a ler duas esse ano). Não é a toa também que meus alunos me perguntavam como aprender a gostar de ler — como acabei de contar aí em cima. Em parte, eles ainda não encontraram uma leitura que os motivasse. Ou talvez não estejam cientes que não gostam de leitura (e daí, talvez tenham escolhido um curso não muito apropriado). Por isso, eu fico feliz de conseguir perceber isso.

Não há nada de errado com o livro. Apenas ele não é pra mim.


A série Experiências de leitura, onde narro minhas experiências de tudo o que estou lendo no ano estão publicados no medium. Se tiver curiosidade, é só dar uma olhada:

Janeiro — Fevereiro — Março — Abril