Experiências de leituras em 2016 — Parte 2: fevereiro

Todo mês estou escrevendo um registro de tudo o que leio e assisto. No mês de janeiro, publiquei este texto. Em parte, o que eu quero é registrar um pouco dos meus pensamentos e impressões sobre as leituras, pois acredito que no fim isso pode me dar uma ideia da dimensão do que se passou na minha cabeça durante o ano. Não tenho nenhum tipo de meta - e sou meio avessa a essa ideia. Leio porque gosto, e honestamente, estou muito bem com o quanto leio. Ultimamente tenho assistido poucos filmes, e acho que é mais interessante pensar sobre por que isso está acontecendo do que ficar me forçando numa meta a assistir mais. Também acredito que escrever sobre essas experiências pode me conectar com pessoas que tenham alguma afinidade de leituras, e vai ser ótimo se você que está lendo tiver quiser conversar sobre o que foi lido ou sugerir novas leituras. Como disse no mês passado, nenhuma das obras está sendo resenhada aqui, são apenas impressões sobre as leituras e filmes.

Este é o relato de fevereiro, na ordem de leitura.


Livro: A viagem do elefante - José Saramago

Desde que morei por um ano em Portugal, passei a me interessar muito mais por literatura portuguesa. Lá mesmo, já fiz esse exercício de ler escritores e escritos portugueses, e achava genial. É que ter a oportunidade de ler algo de alguém que viveu naquele lugar ajuda a entender melhor nuances de coisas à sua volta. E sim, a gente também pode entender de um jeito diferente essas obras nesse contexto… (é, eu também fiz isso no mês passado, dessa vez com a Argentina, e foi, novamente, genial. Tá registrado aqui)

Estou contando isto porque, pra falar a verdade, eu esperava um pouco mais desse livro. Ele não é mal - e me manteve interessada e entretida o suficiente. Acho que o porém é que quando li outros livros do Saramago (creio que Ensaio sobre a Cegueira foi o melhor deles) eu só larguei o livro quando ele acabou. Era aquele tipo de leitura meio obsessiva; e eu adoro me sentir arrebatada assim.

Não foi o caso dA viagem do elefante. É, de fato, a história da viagem do elefante Salomão, que sai de Lisboa acompanhado por uma imensa comitiva, por ordem do rei, para ser entregue em Viena como presente. Dizem que a história de fato se passou. E é tão absurda que realmente merecia ser contada.

Mas pra falar a verdade, o livro só ganhou mais graça quando, sem querer, eu comecei a ler com sotaque português. Era como eu costumava ler em Portugal - porque era também o que eu ouvia em Portugal. Parece que as palavras ganham outro sentido. Os arranjos gramaticais diferentes do português brasileiro ganham um relevo, e de certa forma, ganharam para mim agora uma lembrança dessa época que vivi por lá. Botar um sotaque na leitura foi uma tentativa de resgate da vivência portuguesa, e foi divertidamente válida.


Livro: Homo Sacer. O poder soberano e a vida nua. (Giorgio Agamben)

Eu estou detestando ter de escrever isso, mas eu desisti deste livro na metade. No entanto, acho que é legal poder compartilhar isso. Eu ODEIO desistir de um livro no meio. Mesmo. Mas este livro é bem difícil. Eu estava achando muito inútil ler algo que não fazia o menor sentido pra mim. Já tinha lido outro livro desse filósofo (era Nudez, e eu li uma parte dele numa praia de nudismo. Queria ler sobre corporalidade vivenciando alguma experiência corpórea) e a experiência (da leitura e da praia) foram bem legais. Eu queria ler o livro por que acredito que ele pode me auxiliar em algumas partes da construção do meu projeto de doutorado (que tem muito a ver com biopolítica), mas grande parte do que encontrei nele eu não entendia muito bem o que o autor queria dizer. Ter lido Nudez é a única coisa que me salvava nessa leitura: me fazia entender uma coisa ou outra.

Resolvi parar no meio, e ler um comentador do Agambem para ver se a leitura melhora. Também me sugeriram (andei conversando sobre o assunto com algumas pessoas) assistir vídeos de entrevista com o autor. Voltarei a este livro em breve, e espero poder contar se as estratégias foram boas. Eu desisti do livro, mas não de todo.


Livro: Manual do herói (Sônia Hirsch)

Em janeiro, eu havia comentado que a leitura da Autobiografia de um Iogue era um bocado deslocada do tipo de livro que eu costumo ler, mas que tinha sido uma grata surpresa. Tomada por essa tentativa de ser menos preconceituosa com algumas temáticas, comprei esse livro da Sônia Hirsch. Sônia é jornalista, mas escreve sobre alimentação e saúde. Nesse livro, a viagem toda está em cima da medicina tradicional chinesa. Para mim, as ideias estão distantes da minha vivência, e considerei difícil absorver tudo. Creio que devo ler novamente. Li muito rápido, de maneira compulsiva, daquela maneira que eu queria ter lido o livro do Saramago. Gastei uma única tarde enterrada no assunto. E são muitos, muitos pequenos detalhes, e uma lógica que foge um bocado da nossa cabeça científica.

A escrita de Sônia Hirsh, no entanto, merece ser comentada. É de um humor suave, e uma fluidez gostosa. É daqueles livros que faz parecer que escrever é uma coisa muito simples. Só por isso, sem me concentrar no conteúdo do livro, já gostei muito de ter tido a oportunidade dessa leitura. Adoraria poder ler outros livros dela.


Livro: Açúcar, gordura, sal. Como a indústria alimentícia nos fisgou. (Michael Moss)

Eu adoro ler e pensar sobre comida, cozinha e coisas desse universo. E detesto livro de receita. Já adianto que estou lendo muito sobre isso, e se você for acompanhar esta série, isto vai ficar bem evidente. Este livro estava na minha fila de próximas leituras tem um tempo. Eu imaginava que não ia acrescentar muita coisa ao que eu já sabia ou que eu já tinha lido (porque eu leio muito do assunto), e acho que eu estava certa. Mesmo assim, foi uma boa leitura. Eu detesto a indústria alimentícia, e adoro cozinhar. Nos últimos 2 anos, eu, que já cozinhava muito, passei a fazer do zero praticamente tudo de comida que você imaginar em casa: pão, macarrão, iogurte, bebidas alcoólicas, tortas; café da manhã, almoço, jantar. Em suma, tem uma razão para eu escolher viver assim, e essa razão tem a ver (também, mas não só) com a desonestidade da indústria alimentar: nos anúncios, no uso de ingredientes, em expressar um cuidado que não existe. O objetivo da indústria alimentar, como qualquer indústria, é o acúmulo de riquezas, e não oferecer alimentos. Para mim, cozinhar é uma decisão política. E o livro de Michael Moss me faz sentir que minha decisão continua fazendo sentido.

Me ressenti um pouco pela tradução do livro. Achei que em vários trechos a linguagem parecia uma tradução mesmo, e não algo que parece escrito em português. (Na verdade, acho que é um problema mais do preparador de textos do que do tradutor em si. Recomendo este ótimo texto da Carol Chiovatto para entender melhor a cadeia de produção de livros, e de quebra, seus custos). E claro, como muitos dos produtos são exclusivos do contexto norte-americano, parte do argumento fica um pouco perdido para um brasileiro. Mas é pequena a perda, uma vez que quase todas as empresas retratadas são multinacionais, com produtos no Brasil.


Filmes, ou melhor, poucos filmes

Escrever sobre o que leio e vejo me deu a dimensão do quão poucos filmes estou assistindo. Assisti somente a dois esse mês, e mesmo assim os dois foram nesta última semana. Por um lado, isso me levou a pensar duas causas que podem estar contribuindo para o ralo número. Fiquei pensando que estou vendo pouco porque alguns filmes tem me incomodado por questões de representatividade dos personagens. É o caso do primeiro filme que vou relatar abaixo. Esse incômodo me faz sentir como se eu estivesse desperdiçando meu tempo, e na dúvida, acabo escolhendo não ver. O segundo motivo que levantei é que tenho evitado filmes muito emocionais porque fico com o sentimento comigo por tempo demais (e eu tenho dificuldade de lidar com esses estados emocionais). Como meus filmes preferidos costumam envolver drama em excesso, acabo vendo quase nada…. De toda forma, tentarei adotar algumas estratégias diferentes para escolher filmes no mês de março. Seguem abaixo os filmes que vi:

Filme: I origins (O universo no olhar). Direção: Mike Cahill

É um filme independente, que não escolhi ver propriamente, mas confiei na aposta do meu companheiro. A narrativa envolve um cientista que faz uma pesquisa sobre a visão. Como o senso comum diz que “o olho é o espelho da alma”, a pesquisa do cientista, para ele, é motivada por uma tentativa de provar que não é necessário nenhum ser superior para a existência dos olhos. Ele quer, através da pesquisa, refutar deus. Mas no meio do caminho, alguns acontecimentos o fazem se envolver numa pesquisa oposta, e examinar o universo espiritual.

Na primeira metade do filme fiquei muito incomodada com o modo como a pesquisadora parceira do personagem principal era retratada. A menina, que aparece no laboratório como caloura, ocupando inicialmente a vaga de ajudante, tem um olhar curioso sobre a pesquisa e uma sagacidade que a levam a uma descoberta. Essa descoberta é feita sozinha, por sua conta, e sem muito apoio. Ainda assim, ela está sempre em segundo plano, como se sua descoberta nem fosse sua e sim do personagem principal. Essa lógica de apagamento da importância da personagem laboratorista culminam numa cena completamente desnecessária para a narrativa: o cientista personagem principal aparece dando entrevista em um canal de TV sobre a (sua?) descoberta e o lançamento de um livro. Se essa cena não existisse, a narrativa não seria comprometida em nada. Absolutamente nada. Qual a sua função, então? Por que a cientista não dá entrevista em conjunto com o chefe? Por que ela não recebe nenhum reconhecimento? E esse apagamento não acaba aí. Mais adiante, apesar de ser uma pesquisadora - e não uma qualquer, mas a que chegou a essa descoberta que permitiu a entrevista, o livro, os louros - há uma fala colocada em sua boca que soa completamente ingênua. A gente percebe a ingenuidade pelo tom que ela é corrigida pelos colegas. Imaginem: uma pesquisadora sobre visão não tem conhecimento de que o padrão biométrico da íris independe da cor. E claro, nesse contexto ela nem parece mais pesquisadora. Ela está grávida, e seu personagem parece uma mera esposa coadjuvante que nada tem a ver com essa vida pregressa na ciência. É muito bizarro e incômodo.

Isso me incomodou bastante, mas achei o final bem sensível. Em geral, acho que as coisas costumam ser mais explicadas do que deveriam em filmes, mas esse tem um fechamento muito interessante. Se eu não estivesse tão sem paciência para esse tipo de representação feminina nos filmes, eu diria que foi uma experiência bacana.


Filme: Hoje eu quero voltar sozinho. Direção: Daniel Ribeiro

Este é o caso de um filme que andei evitando por mais de um ano porque de alguma maneira pus na cabeça que me deixaria num estado emocional vulnerável por muitos dias. Errei. O filme não é exatamente dramático, mas sim delicado. É um ótimo contraponto ao filme anterior na questão da representatividade: é um filme com amor homossexual sem ser sobre homossexualidade. É um filme com um cego, sem precisar ser um filme sobre deficiência. E isso é o mais genial desse filme.

Se isso não fosse suficiente, o diretor ainda é bem sucedido em criar uma ótima ambientação e verdade sobre os dramas da adolescência. Consegui sentir a intensidade de como são vividos os dramas dessa fase durante as duas horas do filme; me senti adolescente. Só não gostei inteiramente do final. O fim, pra mim, parece uma fantasia juvenil de como os problemas deveriam se resolver. Mas a adolescência - e as comunicações truncadas, tão bem retratadas no filme - são bem menos românticas do que o desfecho proposto. Queria que o filme tivesse mais tempo para que o desfecho pudesse ser mais bem desenvolvido. De toda forma, é um filme que eu recomendaria a outras pessoas. Foi uma ótima ter assistido.