Foto: Death to Stock

Levei dez anos para realizar um sonho

Ou como “da noite pro dia” eu publiquei meu primeiro livro

Um bom poema leva anos, já diria Paulo Leminski. Até entrar na faculdade, eu tinha cadernos onde escrevia religiosamente sobre o meu dia. Não eram exatamente “diários”, eu tentava dar um brilho na minha narrativa criando crônicas cotidianas com tiradinhas engraçadas, análises de comportamento humano, reflexões cheias de humor sobre mim mesma. Era apenas um exercício literário, mesmo que eu ainda não soubesse, da filha da Neti e do Nica que era metida a escritora, como diziam as vizinhas.

Depois veio a internet. Abri um blog e abandonei os manuscritos dos cadernos. Com dois ou três anos de Respeite Meus Mullets (esse era o nome do blog), já tinha uma base respeitável, para a época, de leitores. Ainda escrevia apenas crônicas, devaneios cômicos que as pessoas entravam na onda e riam comigo. Peguei gosto pela escrita ali, trabalhando em cada texto, vendo o que funcionava e o que não rendia. Quando o RMM acabou, seis anos depois, eu fundei o Elvis Costello Gritou Meu Nome, um blog um pouco mais introspectivo e sério, onde eu apurei ainda mais o meu estilo e inclui outras “editorias” como resenhas literárias — já que eu sempre fui a doida dos livros e sentia necessidade de contar o que eles me faziam sentir.

Quando o ECGMN acabou, mudei aqui pro Medium. Eu nunca parei de escrever, desde aquele primeiro caderno, nunca. Com o tempo, vi que tinha uma identidade no que eu escrevia. Que aquilo era meu, mais do que meu, aquilo era eu. Escrever era parte de mim, como é parte de mim ter nascido no Paraná ou torcer para o Palmeiras. Diante disso, me senti mais segura em publicar meus textos e me ver como alguém que escreve. Passei a trabalhar com redação também. Escrever por lazer e por obrigação ajudou a minha escrita e deu corpo ao meu trabalho, uma coisa completando a outra. Sentia ser mais sólido o meu jeito de escrever. Quando sentava diante do computador, já tinha as palavras prontas na cabeça, não passava um dia inteiro martelando aquilo — como era no começo. Foi aí que comecei a sonhar em escrever meu próprio livro. Mas como? Sobre o quê? Enquanto não tinha a resposta para essas perguntas, escrevia mais. E lia mais ainda.

Anos atrás, conversando com meu marido, ele disse que eu devia escrever ficção. A crônica eu já dominava, a meu modo, era hora de inventar histórias. Só que eu não conseguia nem me imaginar fazendo isso, não sabia por onde começar e nem se tinha talento mínimo para tanto. Essa foi mais uma das ideias que ficaram guardadas no meu coração por anos sem que eu soubesse o que fazer com ela. Durante o câncer, me aventurei a escrever meu primeiro romance. Não sei o que me deu, mas de repente eu estava cansada de esperar ser boa para escrever um livro. Eu já tinha escrito muito, por anos a fio, sobre todas as coisas, em todos os formatos. Eu já tinha entendido que não precisava ser boa porque não existe isso de “ser boa”: não pode existir juízo de valor em algo feito de coração. Com a doença e os anos pensando na ficção como próximo passo, achando que morreria amanhã eu queria escrever sem me importar no que daria.

Foi assim que surgiu All Across The World, uma história de amor meio doida, publicada capítulo a capítulo no Wattpad — plataforma digital para escritores iniciantes. Com o sucesso inesperado de AATW, foram mais de 15 mil leituras até a sua conclusão, hoje já passa das 18 mil, eu fui em frente e não parei mais.

Até o momento já escrevi seis livros, a maioria no Wattpad, alguns engavetados e ainda inéditos. Não sei se hoje em dia escrevo bem ou pelo menos melhor que antes, mas sigo escrevendo até descobrir. As coisas foram acontecendo pouco a pouco e sem planejamento: AATW virou uma trilogia, escrevi um livro pra um desafio de 10 mil palavras em trinta dias, outro é uma antologia dos melhores textos do RMM. No momento, estou escrevendo meu sétimo livro, uma história de amor sobre uma moça solitária em São Paulo.

E escrevi Malvarrosa. Malvarrosa foi um livro que eu tive a ideia de escrever quando uma das minhas melhores amigas, que hoje mora na Espanha, publicou uma foto que ela tirou de um festival que acontece por lá. Eu levei uma semana para delinear a ideia e dois meses para escrevê-la. Ali eu vi que já tinha uma obra, podemos dizer. Eram cinco livros no meu perfil do Wattpad e mais os arquivados. E agora?

Publicar livros não é fácil, pelo menos não no jeito clássico, com edição impressa, contrato com editora grande e coquetel de lançamento. Por todos esses anos, eu levei “não” de muitas editoras. Muitas pessoas me ajudaram também, ilustrando meus livros, ajudando a formatar, me apresentando a contatos. Ainda assim, não vingava. Parecia um panorama frustrante, não? Como fazer a transição de alguém que escreve para escritora sem ter nenhum livro publicado?

Um bom poema leva anos, disse Leminski. Cinco jogando bola, mais cinco estudando sânscrito, seis carregando pedra. Depois de tanto tempo entre criar coragem de escrever e criar coragem de publicar on-line, percebi que é preciso coragem até mesmo para tomar o que é seu para si. O que define como seus sonhos serão realizados? Quem diz o “agora sim” dos desejos que são só seus? Não existe uma receita certa, não existe um Deus que vá dizer se você pode realizar ou não. Me frustrei por anos porque nenhuma editora me queria até perceber que não preciso de editora nenhuma. Para me dizer escritora, não preciso do aval de ninguém além de mim. Não preciso de nada além dos meus livros. E tendo meus livros, os levo comigo por onde eu for e como eu for, como filhos pequenos seguindo a mãe em ninhada. Foi quando descobri isso que cansei de esperar, desisti de fazer as coisas do jeito dos outros e resolvi fazer do meu jeito.

Por um ano inteiro analisei a ideia de publicar via Amazon. O programa deles de publicação direta é bem atrativo, razoavelmente rentável e totalmente intuitivo. Li bastante sobre, reparei nas entrelinhas dos tutoriais, vi outras pessoas conhecidas publicando por lá. Assimilei a ideia. E então, um belo dia, decidi que publicaria meu livro lá. Algum livro meu. Qual?

Escolhi Malvarrosa por ser dos meus livros mais recentes e, por isso, ter uma certa segurança em relação a qualidade dele. Em questão de dois dias, entre preparar o arquivo, fechar contrato e esperar aprovação, eu fiz tudo sozinha. E então, de uma hora para outra, após dez anos de espera e trabalho, eu tinha um livro publicado. Uau!

Não sei se pode ser visto como demérito um livro ser publicado apenas digitalmente, mas a verdade é que, para mim, dá um orgulho danado ligar o Kindle e ver meu livro lá, no meio dos outros que estou lendo. Vê-lo no Skoob e no Goodreads, redes sociais para leitores, também me deixa toda boba. Me alegra saber que mais gente verá isso também. Publicado pela Amazon, meu livro faz parte do Kindle Unlimited, programa que eu adoro, e pode ser baixado de graça em lojas Kindle do mundo todo. Muita gente pode lê-lo, muito mais do que leria se ele fosse publicado apenas no Wattpad. Ou se ficasse no fundo da gaveta. Isso é algo grandioso, eu acho, algo a ser comemorado por alguém que começou a escrever em caderninhos, para ninguém.

Então hoje, você pode olhar minhas redes sociais e dizer que “do nada” eu escrevi esse livro. Mas, se você mesmo trabalha diariamente nos seus sonhos, sabe que não é bem assim. Esse livro começou a ser escrito muitos anos atrás, nos meus testes de crônicas, nos livros que já li, nas rejeições de cada editora. Começou a ser desenhado quando decidi que iria escrever ficção mesmo sem saber escrever ficção e quando escrevi dois livros em um ano em que também tive câncer. Não acho que ele poderia ter sido publicado cinco anos atrás. Não acho que ele poderia ter sido publicado nem mesmo semana passada. Cada coisa aconteceu a seu tempo para que só agora ele fosse à venda. Cada pequena decisão e todo pequeno gesto de coragem em seguir em frente mesmo sem certeza alguma fez com que hoje, depois de tanto tempo, eu pudesse publicá-lo.

Um livro, você vai dizer, não é grande coisa. Quem sabe não seja mesmo. O sentido dele vem quando você vê que não se trata apenas de algumas páginas de uma história inventada. Para quem o escreveu, pode ter sido a vida toda. Pode ser o sonho de uma vida. O significado dele vem de saber que tudo é possível, basta você acreditar em você mesmo e lutar pelo o que quer. Ter paciência em alguns momentos, ter raiva em outros. Desistir por meses e então voltar, como se nada tivesse acontecido.

Acreditar em si mesmo é algo estranho, não tem a roupagem que a gente acha que tem. É um sentimento que vai e volta, não dura o tempo todo, mas dura o suficiente para que aos poucos você vença. E um dia você consegue. E eu te digo com toda certeza que você tem o dom, o talento e a coragem necessária para realizar o que quer que seja. Mesmo que leve um dia ou dez anos. Assim como eu consegui.


Em breve todos os meus livros estarão na Amazon, esse é o próximo passo. Enquanto isso, você pode comprar “Malvarrosa” e ler no Kindle e/ou ler no Wattpad meus outros livros disponíveis .