Nada é Inquestionável

Imagem via Vsauce (https://www.youtube.com/watch?v=VNqNnUJVcVs)

por Rodrigo Ortiz Vinholo

Recentemente, me dei conta de que um dos principais problemas com qualquer discussão dentro da sociedade humana atual (e pensando bem, histórica) é nossa recusa em questionar.

Nós parecemos acreditar, muitas vezes, que certas coisas não podem ser questionadas. E não estou falando de dogmas de fé das religiões, ainda que estes invariavelmente entrem na discussão, mas estou aqui para mostrar que nós devemos discutir mais.

E que nada é inquestionável.

Talvez você já esteja revirando os olhos e falando "Ai meu Deus, lá vai esse anarquista / ateu / maluco / chato falar que não é para eu pensar no que eu penso ou acreditar no que eu acredito", mas peço que me dê alguns minutos do seu tempo. Prometo que até o final, tudo fará mais sentido, e eu diria que mais do que tirar crenças, este texto talvez até reforce algumas delas.

(E não, não sou ateu. Anarquista, nem tanto. Maluco ou chato, talvez.)

Vamos começar falando sobre a Coreia do Norte. Ou ainda, sobre a imagem que nós temos da Coreia do Norte.

Imagino que seja um consenso de que é um país estranho, cheio de hábitos estranhos e um líder pouco confiável, além de um governo e mídia interna manipuladora, certo? É isso que nossas notícias mostram sempre — jornalistas trazem notícias falando sobre coisas estranhas sobre a Coreia do Norte. Nós rimos e seguimos em frente, crentes que é só um país esquisito.

Bom, acontece que há um histórico imenso de notícias falsas, enganos e esquisitices relativas a esse país. Suficiente para o Não Salvo enganar todo mundo durante a Copa do Mundo com uma notícia de que o país teria inventado que ganhara a Copa, e suficiente para criarem um artigo no Wikipedia só sobre o tendenciamento da mídia em relação a qualquer uma de suas notícias.

Mas é claro que a Coreia do Norte é apenas um exemplo para outra coisa — Isso nos demonstra, na prática, o primeiro ponto deste texto: nós temos facilidade de aceitar sem questionar coisas que nos parecem certas.

Qualquer coisa - considerando as nossas experiências, as nossas opiniões, o nosso conhecimento e informação suficiente divulgada por fontes que julgamos confiáveis - pode ser aceita sem questionamento. Até mesmo — e geralmente, com uma frequência assustadora — generalizações.

Junto disso, nós temos que lembrar que há o famoso Viés de Confirmação. Basicamente, ele nos diz que nós lembramos ou interpretamos coisas a partir do entendimento de uma crença ou opinião que já temos. O que nada mais é do que praticamente o que eu disse pouco antes, porém com uma consequência estranha mais explícita — a partir do momento em que nós não questionamos algo, qualquer evidência contra será entendida como falsa.

Só que nós não paramos por aí. Nós adicionamos um fator emocional a nossas crenças.

Continuando o exemplo acima, no Brasil e em outros países cuja relação com a Coreia do Norte é basicamente nula, se acreditarmos ou não nessas notícias, haverá pouca influência no que as pessoas a seu redor pensam de você. Porém imagine um país que estivesse em tensões militares com esse local — qualquer questionamento da inferioridade do país seria considerado um sinal de preferência por ele e até julgado como traição. Quando há importância suficiente em um assunto, nós investimos emoções sobre ele, criando condicionais emocionais sobre as opiniões de outros.

Não precisamos ir longe para notar como hoje, no Brasil, para muitos, qualquer adesão a ideais de esquerda coloca alguém como um "Petralha", “Comuna” ou, alternativamente, adesão à direita coloca como "Reaça", “Coxinha” ou coisa parecida. A partir desse momento, nós consideramos justificável ter uma reação emocional.

E o problema mora aí — se o "inimigo" apoiar uma realidade, nós tendemos a rejeitá-la, sem questionamento, sem pensamento crítico, pois não queremos aceitar o fato de que talvez possamos concordar, nem que em um único ponto — pois, caso concordarmos, nós seremos comparáveis ou iguais a ele.

Parece exagero falar, mas muitos de nós já traímos princípios em nome desse tipo de orgulho.

Existem outras situações, também, em que nos parece que questionar seria um tabu: A maneira como fazemos algo. A maneira como um sistema ou organização funciona.

Do mesmo modo que entendemos que nós seremos indesejáveis por questionarmos, há o entendimento implícito de que questionar é o mesmo que recusar o que acontece atualmente, ou ainda aceitar outra coisa. E isso é longe da verdade, ou ao menos, é longe de como deveríamos ver um questionamento.

Quando questionamos, nós não necessariamente falamos "isto não deve ser assim" — idealmente, nós devemos falar "por que isso é assim?", "que outro modo poderia ser?", "por que o outro prefere outra maneira?".

Questionar não é sinal de aceitação nem de recusa. E não é sinal de fraqueza.

Muitas das grandes evoluções da humanidade foram feitas a partir desse tipo de questionamento. Se o seu medo é que seu questionamento abale sua crença, isso quer dizer que ela já não tem força para você.

Se, ao contrário, você tem tanta certeza de que sua crença é tão inabalável que não a questiona, o questionamento será um esporte interessante: no mínimo, sua crença sairá mais forte, pois será a partir de questionamentos que ela conseguirá mais força. Questionamento gera embasamento.

O que você vai questionar hoje? Faça como um exercício e pegue sua convicção mais forte. É algo no mínimo interessante de se fazer.


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