O espelho do Diabo

“Anjo caído”, pintado em 1868 por Alexandre Cabanel (detalhe)

Se tem algo em que acredito, entre tantas variações metafísicas e filosóficas, é na existência do Diabo. Ele é a metáfora mais presente no imaginário humano desde que descemos das árvores. É claro que ele tem muitas faces. O Diabo pode ser um espírito Greco-romano, mediador entre os deuses e os homens; pode ser um anjo rebelde, um opositor, um blasfemador; pode ser medíocre. Contudo, independentemente disso, ele está sempre presente. Porque ele é aquela ideia maldosa que surge de vez em quando, o desejo que refreamos, o rosto que vemos pelo canto do olho na multidão, que logo esquecemos e não conseguimos lembrar. Ele é amoralidade, quando esta se aplica; é gula ou traição. Ele é tudo aquilo que fazemos de condenável, pelos outros ou por nós mesmos, e que não podemos aceitar como nosso.

Recentemente terminei de ler o Demonologista, de Andrew Pyper. No livro, um professor especializado no mito do demônio se vê envolvido em um jogo estranho e peculiar com o Diabo, na esperança de salvar a alma de sua filha. Eu poderia comentar sobre o estilo, a estrutura ou mesmo o enredo. Ainda assim, o que mais me interessou no livro foi a abordagem dada ao tema do Adversário.

O protagonista, David Ullman, é um especialista na epopeia Paraíso Perdido, de John Milton. No capítulo 12, ele afirma estar indo para o inferno, em uma busca satânica, ao modo de Milton, por uma existência apartada da divindade. Essa existência é representada, em certas instâncias, pela busca e possível reencontro com sua filha, Tess. Nesse capítulo, existe uma considerável transferência de imagens literárias. O personagem passa por uma estranha que pede carona, que ele identifica em um primeiro momento com Tess. Quando ele decide parar para pegá-la, percebe que a garota não se parece com sua filha, e sim com ele próprio. Ele rouba vislumbres, analisa a menina. Ele a vê como uma espécie de boneca de pano viva e admite envergonhado que ela parece possuir algo de ordinário, como um fetiche levemente sexualizado. Contudo, ela assume então a voz do Inominável (compreendido pelo personagem como o demônio ou um demônio), se insinua sexualmente e, quando ele a repele, ela o ataca de forma animalesca. Porém, Ullman consegue derrubá-la do carro.

Nessa jornada para o inferno, a primeira coisa da qual ele precisa se livrar é um emblemático amálgama da representação da filha, do Diabo, de si mesmo e de uma figura comum e sexualizada. É como se entre a filha e o diabo houvesse algo da própria personalidade do personagem. Mais que isso, a estranha quarta figura mediadora dessa relação é a imagem da Boneca de Pano, da menina sardenta do interior, um fetiche, um complexo de desejo. Não consegui não pensar em Olímpia, de Hoffman, a boneca de madeira que ganha vida, no conto O Homem da Areia. Ambas são autômatos que incorporam parte de um desejo obscuro do personagem, ainda que essa conclusão possa soar um pouco reducionista. Cheguei nessa consideração devido à descrição da queda da garota, pois Ullman menciona que ela cai do carro com um ruído “suculento”. Queda e desejo, paixão e morte.

O Diabo parece atrelado ao desejo, ao vazio que, às vezes, só o mal parece saciar. Em Paraíso Perdido, Satã escolhe o mal como a única forma pela qual pode viver. Sua retórica é forte, porém, apesar de sua ânsia por vingança frente à derrota, ele sabe que jamais será livre. O inferno que atormenta Satã é interior: é a prisão do eu. A consciência de ser individual e, por isso mesmo, estar sozinho. No livro de Pyper, a solidão do protagonista é o desejo pela filha e pelo Diabo, a fome pela transgressão. Mas o personagem conhece os espíritos antigos que ajudaram a constituir o mito do demônio. A filha, para ele, é seu único espírito mediador. Sem ela, ele percebe que toda a criação é sustentada por pilares de Nada e um vazio se abre entre a matéria e a espiritualidade. Todavia, da mesma forma que o Satã de Milton, o seu inferno é interior e não importam os quilômetros rodados, ele continua sempre presente.

De forma um tanto assustadora, Pyper é capaz de nos lembrar que todos têm demônios dentro de si. Eles estão lá sempre que nos recriminamos, nos refreamos ou julgamos uns aos outros. Pois o Diabo está presente em nossa raiva ou ódio, frustração ou potência, derrota ou vontade, solidão e ausência. Sentir isso é sentir o demônio, é ser lembrado da consciência da queda; de certa forma, é ser realocado no exato momento da queda. Demônios são reais e estamos cercados por eles, no espaço vazio entre as palavras, no vácuo de uma batida de coração.

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