O mundo não precisa do seu livro

E provavelmente você também não


por Danilo Leonardi

Um dia desses apareceu uma pessoa no meu Snapchat pedindo ajuda. Dizia ela que queria escrever um livro, mas não tinha “ideias”. Queria saber como ela poderia fazer pra conseguir as tais “ideias”.

Você consegue identificar o problema?

Uma ideia deveria ser a força propulsora que levaria alguém a escrever um livro, mas a gente sabe que a glamourização de qualquer profissão é capaz de convencer até quem não tem força de vontade ou talento pra coisa. As escolinhas de futebol que o digam.

Mas Danilo, a pessoa só quer escrever um livro. Ela nunca disse que gostaria de ser best-seller.

Então me diga por qual outro motivo alguém ia querer escrever um livro mesmo sem ter nada a dizer.

Eu tento respeitar os hobbies, mas quase sempre que me aproximo de novos escritores é a mesma história. A pessoa me escreve uma cópia de Jogos Vorazes e pergunta como faz pra enviar para as editoras.

Alguns até começam o discurso com “É um mundo parecido com Jogos Vorazes, só que diferente”.

Okay.

Já contei que, quando eu era mais novo, tinha o sonho de ser um vocalista de banda de rock? Essa era a ilusão que poderia satisfazer meu ego retumbante de adolescente. E tenho a impressão de que os escritores são os novos rock stars.

Exemplos, temos vários. André Vianco, Raphael Draccon, Eduardo Spohr, Paula Pimenta. Suas filas de autógrafos são sempre enormes e seus fãs são bastante emotivos. Quem já foi à Bienal do Livro nos anos mais recentes sabe que tem horas que aquilo fica mais agitado que o Lollapalooza.

Talvez por ter crescido em um mundo no qual ser escritor era coisa de gente que não se importava de ser taxada de nerd e boba, tipo eu, não tive a menor pressa pra começar a escrever a sério. Resolvi escrever quando eu me senti preparado pro trabalho que ia dar parir um livro.

Quer levar a escrita a sério, como uma profissão?

Então se dedique a ela como um profissional. Leia muito, crie uma base de leitores pela internet e esteja sempre aberto a críticas, porque escrever um livro é trabalho em grupo (com o coach, o agente, o revisor, o copidesque, o editor etc.)

Prodígios podem aparecer aqui e ali, mas não são a regra, são a exceção. Todos sabem disso, mas mesmo assim caminham na certeza de que são essa tal exceção. É por isso que muita gente se aproxima de mim pedindo uma opinião sincera, mas depois desfaz a amizade (virtual).

Minha dica é: caso encontre um agente ou editor interessado, ouça muito bem o que ele tem a dizer e tente seguir suas recomendações. Muito provavelmente você não nasceu sabendo escrever. Eu sei que não foi meu caso.

Nessas horas, também tome muito cuidado com os caçadores de recompensa. Dizer que você pode publicar seu livro desde que pague por isso, é o mesmo que dizer “Você não foi aceito, mas pelo preço certo a gente dá um jeito.”

Ou seja: você não está pronto e o mundo não precisa do seu livro. Ver aquele documento de Word encadernado que só a sua família vai ler vale pagar 19 mil reais?

E depois batalhar e conseguir ser aceito, esqueça as fantasias de fama e dinheiro após o suor da escrita. Tenha a certeza de que sempre vai ter mais trabalho que recompensa.

Eu mesmo tive muita preguiça de me dedicar às aulas de canto, pra ser aquele tal vocalista famoso. Eu cantava muito mal. Era tão difícil que não valia mais a pena. Então desisti 10 anos atrás e segui com a minha vida, tranquilo e feliz. Hoje só canto no chuveiro.

Mas Danilo, essa quantidade de gente querendo trabalhar com livros não tem seu lado bom?

Esse quadro representa algo maravilhoso para o Brasil, porque mostra uma inversão de valores tremenda, ao equiparar o escritor aos ícones da cultura pop. Ler e escrever também estão longe de ser problemas. O mal está no foco que se dá a isso.

A banalização da escrita, a compreensão de que ser escritor é vomitar 200 páginas, imprimir, depois disso capa da Folha e entrevista no Jô, precisa acabar.

Já desistiu? Então não era pra ser. Resolveu continuar? Então foque na dedicação e continue atento com a galera interessada em se aproveitar do seu sonho.

Precisamos de mais gente querendo trabalhar com livros, sim, mas precisamos também de dedicação, profissionalismo e ideias.


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