O que eu mais gostei de ler em 2016

Daqui a dez anos, quando eu estiver no meu leito de morte e a radiação pós-Guerra Nuclear bater 1,8 sieverts, é disso que vou lembrar sobre minhas leituras de 2016:

  • Minha conversão ao Kindle equivale a um ateu convicto que vira evangélico e passa a pregar a palavra de Cristo. Desculpa, Kindlezinho, por não ter acreditado em você antes. Te amo.
  • Falhei na meta de ler seis livros difíceis, mas dobrei a meta de 25 livros e acabei terminando com 52, puxado por um janeiro frenético com oito livros. (Talvez "frenético" não seja o jeito certo de descrever o mês.)
  • Redescoberta do ano: Goodreads. Minha nova rede social preferida. Ótimo pra ver o que as pessoas estão lendo, descobrir e anotar novas leituras e participar do Reading Challenge deles.

Sem maiores delongas: com vocês, o 2.º Prêmio Literário Motti, apresentado por Ricardo Motti, tendo como jurado e ditador supremo Ricardo Motti.


Troféu Farenheit 451

Ao contrário do ano passado, dessa vez eu parei sim de ler livros já começados. Alguns consegui retomar e outros peguei birra mesmo (desculpa, fãs de Americanah: não deu).

Mesmo assim, acabei terminando alguns livros que merecem ir pra fogueira. Mas só figurativamente, porque eu nunca queimaria meu Kindlezinho. Vamos a eles.

3.º lugar: The Vegetarian, Han Kang (2016)

Uma jovem dona de casa coreana tem uns pesadelos malucos e resolve virar vegetariana. Como isso não é comum na Coreia, o marido e a família acham que ela ficou louca. A ideia é ótima, o começo é bom, mas depois fica chato e mimizento—que é o pior adjetivo que posso aplicar a um livro.

Ok, esse não merece ir pra fogueira. Não é pior que o Meia Noite e Vinte do Daniel Galera, por exemplo. Mas The Vegetarian acabou aparecendo em váááárias listas de melhores livros do ano. Então, ó: cuidado com qualquer lista que não seja o Prêmio Literário Motti.

2.º lugar: The Wave, Morton Rhue (1981)

"Nossa, o livro é muuuito melhor que o filme". Sabe? Só que ao contrário.

Primeiro vi o filme. É a história de um professor legalzão que decide ensinar à classe dele que uma ditadura é possível sim hoje em dia, por que não? Incrível. Tem no Netflix, assistam lá. Daí peguei o livro.

Sabe aqueles autores que martelam coisas que já ficaram óbvias? Eu devo ter gritado eu-não-sou-burro-já-entendi-caralho umas oito vezes durante a leitura. Fogo nele.

Campeão: Marrow, Tarryn Fischer (2015)

A descrição do livro começa assim:

In the Bone there is a house.
In the house there is a girl.
In the girl there is darkness.

SHUT UP AND TAKE MY MONEY, certo?

Mas o livro é um grande lixão. Dá até preguiça de explicar. A lição é: quando escreverem seus livros, caprichem na descrição e arranquem dinheiro do trouxa aqui.


Troféu Metamorfose

Os livros de não-ficção que me ensinaram algo, mudaram minha visão de mundo e me deixaram 4% diferente:

3.º lugar: Modern Romance, Aziz Ansari & Eric Klinenberg (2015)

Livro de comediante gera umas coisas muito legais (Tina Fey) e outras muito ruins (Lena Dunham). O Aziz Ansari fugiu do básico e fez um livro sobre relacionamentos na era do Facebook, WhatsApp e Tinder. E pegou um sociólogo pra ajudar a pesquisar.

Pensa assim: qualquer olhada no Tinder faz você avaliar mais potenciais parceiros do que seus bisavós conheciam na vida inteira. O livro tem várias dessas informações interessantes—que você pode até usar com seu crush, veja a ironia!—e ainda é divertido de ler.

2.º lugar: But What If We’re Wrong?, Chuck Klosterman (2016)

Chuck Klosterman, né, mores. O Rei da Argumentação Divertida Sobre Assuntos Aleatórios—o cara que defende que o Kid A previu o 11 de Setembro—com um livro inteiro de argumentações divertidas sobre assuntos aleatórios. ❤

Mas não totalmente aleatórios. É um exercício de imaginar como as pessoas daqui a 100 ou 5000 anos vão olhar para os dias de hoje.

Nossa volúpia democrática vai ser motivo de orgulho ou de risada? Qual série de TV ficará pra história? Quem vai ser o único músico lembrado, do mesmo jeito que a gente só lembra de Bach do período barroco? O que entendemos por força da gravidade vai mudar nos próximos séculos?

Provavelmente vai ser o primeiro dos livros de 2016 que vou reler. Pra completar, me deixou com vontade de arriscar a mão numa Argumentação Klostermaniana Sobre Assunto Aleatório; no caso, sobre o Álbum Mais Importante da História.

Campeão: The Soul of an Octopus, Sy Montgomery (2015)

Eu nunca imaginaria que um livro sobre fucking polvos pudesse ser um dos meus preferidos do ano. Mas foi.

Sabia que polvos reconhecem os humanos que eles mais gostam? Que eles curtem que passe a mão na cabeça deles, igual gatinhos? Que eles são superinteligentes e têm personalidades diferentes? Que você precisa mantê-los entretidos com desafios intelectuais pra eles não causarem no aquário?

Se você me encontrou por volta de abril, desculpa ter ficado falando sobre esse livro. Recomendo muitíssimo a leitura, mas prepare-se pra nunca mais comer polvo sem derramar umas lágrimas.

"Chupa, Chuck Klosterman."

Medalhas Honorárias 1984

Por motivos obscuros, fui me inclinando para livros que lançavam uma premissa surreal e depois construíam um universo ao redor disso.

Os livros abaixo têm suas imperfeições, por isso não chegaram no meu top-3 de ficção do ano. Mas recomendo a leitura de qualquer um. Todos são divertidos, fáceis de ler e com premissas interessantes. Se liga:

The Queen and I, Sue Townsend (1992)
E se um partido republicano ganhasse as eleições britânicas e extinguisse a monarquia, obrigando a Família Real a viver na base do Bolsa-Família?

Futuristic Violence and Fancy Suits, David Wong (2015)
E se um monte de bilionários no futuro criasse uma cidade sem leis no meio do deserto chamada Tabula Ra$a?

Underground Airlines, Ben H. Winters (2016)
E se quatro estados americanos (Alabama, Mississipi, Louisiana e as Carolinas) nunca tivessem abolido a escravidão?

The Man in the High Castle, Phillip K. Dick (1962)
E se a Alemanha e o Japão tivessem ganhado a Segunda Guerra e dividido o mundo entre eles? (Aliás, esse virou uma série da Amazon.)

Mort[e], Robert Repino (2014)
E se uma raça superinteligente de formigas conspirasse para dominar o mundo e escravizar os humanos … e o protagonista fosse contado um gato que vira assassino profissional?


Troféu Marvel

Pra escapar da minha tendência covarde de ler livros que Hollywood transformou em filme, resolvi me arriscar e focar em livros de ficção lançados recentemente. Foi uma boa escolha.

Rufem os tambores pra o grande prêmio da noite. Os livros de ficção que mais me encantaram em 2016 foram:

3.º lugar: "Carrie", Stephen King (1974)

Eu nunca tinha lido Stephen King e achei que era a hora de corrigir isso. Digamos apenas que agora estou com inveja da meta da Aylla de ler dez livros do Stephen King em 2017.

Se o nome dessa categoria fosse Prêmio Leitura de Aeroporto, esse seria o campeão.

2.º lugar: "Submission", Michael Houellebecq (2015)

Talvez um dos melhores livros que eu li na minha vida. Pega essa premissa: e se um partido muçulmano ganhasse as eleições na França em 2022, e a transformação do país fosse contada sob o ponto de vista de um professor universitário decadente que só quer saber de comer as alunas?

O livro parece aqueles quadros renascentistas em que tanto a figura principal quanto o ambiente são apresentados de forma perfeita. E, pra completar, é engraçado pra caralho. É uma aula de ironia. É incrível.

"Mas, Motti, ainda assim não ficou em primeiro?" Pois é. Vejamos.

Campeão: "The Rosie Project", Graeme Simsion (2013)

É uma comédia romântica? É. Mas o Bill Gates recomendou (foi o que me fez descobrir o livro) e é um livro muito inteligente e divertido, especialmente pra quem costuma agendar mentalmente cada hora de um sábado. [suspiro]

“Mas, Motti, é tão bom assim?” É. Submission talvez não seja pra todo mundo, mas o cara tem que ser muito sem coração pra não gostar de Rosie Project. Não dá pra parar de ler e é o livro que eu recomendaria de olhos fechados pra qualquer pessoa.

(Tenho certeza que colocar Rosie Project acima de Submission é uma injustiça histórica equivalente a, sei lá, Pulp Fiction perder o Oscar de melhor filme em 1994 para Forrest Gump—oh, wait, isso realmente aconteceu. Mas não importa. Daqui a dez anos vamos ser poeira nuclear mesmo.)


E em 2017? As metas são: pelo menos 30 livros no ano, sendo um livro com mais de 500 páginas por mês. É meu pedido de desculpas pra todos os livros grandes e assustadores que ficaram encostados na estante. Torçam por mim.


A lista de todos os livros que eu li em 2016 tá aqui, ó: http://bit.ly/2iyuesZ.

Se quiser ver o 1.º Prêmio Literário Motti, com o que eu mais gostei de ler em 2015, tá aqui.