por Lucas Millan

Aposto que todo o mundo, por mais letrado, culto e frequentador de círculos boêmios que seja, já se deparou com uma obra de arte contemporânea, deu uma coçada na cabeça e se perguntou: O que diabos é isso? Essa porcaria é arte?! Qualé!

E não é pra menos. A arte contemporânea é subjetiva ao ponto de parecer que o objetivo principal das galerias é fazer a gente apontar o dedo e dizer “Isso não é arte coisa nenhuma!”. Escatologia? Arte. Imagens transgredindo a moral e os bons costumes? Arte. Uma pichação em um muro? Arte urbana. A ausência de arte? Arte! Arte pra caralho!

Fountain (1917), Duchamp

A arte contemporânea se preocupa muito mais com transmitir ideias, conceitos, em fazer “statements”, do que com a estética, do que com o que achamos belo e o que tradicionalmente consideramos arte. Ela se tornou um clube tão restrito e rocambolesco que a cultura popular simplesmente deixou ela de lado, passando a ridicularizá-la. Para sermos ainda mais diretos, damos muitíssimo mais valor a um Botticelli do que a um Duchamp, preferimos um Goya a um Pollock e consideramos muito mais arte um Jan Van Eyck do que um Romero Britto.

Então por que essa arte chata e feia existe? O que rolou para chegarmos nesta época tão estranha para a arte e a estética no geral, onde a função do artista e sua relação com a sociedade é tão incerta?

Afinal, por que a arte contemporânea é tão bizarra?

O Juramento dos Horácios (1784), de Jacques-Louis David, é a obra culminante do Ciclo Classicista, com sua composição simétrica, suas formas bem definidas e sua temática histórica. Conhecemos por Ciclo Classicista o período entre o Renascimento(s.XV) e o fim do Neoclássico(s.XVIII).

Pra entender isso, a gente tem que voltar um pouco no tempo, até uma época onde tudo era mais simples, quando a arte seguia as pautas estéticas do mundo clássico e os artistas eram limitados por aqueles que requeriam seus serviços: nobres, líderes religiosos, grandes comerciantes. Em um contexto tão restrito, apenas os gênios se destacaram e sobreviveram até os dias de hoje.

Michelangelo, da Vinci, Velázquez, Caravaggio, J.L. David, essa galera toda acreditava que a Arte com maiúscula já havia sido criada pelos gregos e romanos e que tudo o que eles podiam fazer era tentar chegar o mais próximo possível dessa perfeição. Assim como os clássicos, eles seguiam a ideia de que a beleza era uma questão de simetria matemática e de reprodução da realidade.

Mas aí chegou a Revolução Francesa (1789) e todo o mundo ocidental eurocêntrico virou de cabeça pra baixo. O Antigo Regime caiu, a Burguesia subiu e, com ela, seus conceitos fundamentais como a liberdade e a individualidade humana. Todos somos iguais em tanto que todos somos únicos. O passado deixou de ser o grande referencial para dar lugar ao espírito criador do artista e sua visão do mundo, única e inimitável. A Arte Romântica, muito mais emocional e subjetiva, é a que começa a prezar pela originalidade.

Caminhante Sobre o Mar de Névoa (1818), de Caspar David Friedrich, é a obra que melhor representa o espírito do Romantismo, focado na individualidade do artista, em seu contato com a natureza e na grandiloquência dos sentimentos humanos.

Essa originalidade deu margem para que alguns artistas, principalmente aqueles que não queriam ou não conseguiam se adaptar às novas exigências estéticas do público, experimentassem com as formas. O antigo preceito de que a arte devia refletir a realidade, o grande conceito da Mímese aristotélica que definiu séculos e séculos de produção artística, era finalmente desafiado por gênios como Van Gogh, Monet, Manet e Munch, cuja arte foi completamente desprezada por seus contemporâneos, relegando-os a uma vida de pobreza e boemia.

Acreditem ou não, essas obras que nós atualmente consideramos clássicos de preço incalculável foram tachadas de insultantes para o bom gosto. A alta classe e as academias de arte, apesar da importância que davam para a liberdade artística e o conceito de originalidade na arte, ainda diziam que havia certas regras que um artista devia seguir para ser um artista de verdade. Por outro lado, esses renegados apenas se fortaleceram em sua convicção, em sua vontade de criar uma arte nova, verdadeira, que expressasse o seu verdadeiro mundo interior, sua verdadeira visão de mundo.

Neste contexto, surgiu a famosa ideia de que a qualidade de um artista é inversamente proporcional à sua popularidade.

Impressão, Sol Nascente (1872), de Claude Monet, é a obra que deu nome ao movimento impressionista. Com pinceladas soltas e um marcado contraste de cores, Monet abandona as formas definidas tradicionais e aposta por uma visão efêmera do mundo. Era costume pintar uma mesma paisagem em diferentes momentos do dia para evidenciar como nada permanece igual, como é impossível definir uma imagem ideal do mundo.

Enquanto o público convencional ignorou completamente essa vertente artística, a nova geração de artistas a idolatrou e seguiu seus passos para levar a cabo a maior revolução estética da história: o Modernismo, uma corrente de renovação artística que espalhou pela Europa (e posteriormente pelo resto do ocidente) uma vontade de criar uma arte nova, jovem, livre e moderna que rompesse definitivamente com o passado e as regras da tradição.

Os maiores atrativos desse movimento, a liberdade e a vontade de renovação, também foram os seus maiores problemas. Como o objetivo era justamente quebrar as regras e construir algo novo do zero, cada artista partiu de um ponto diferente tornando o movimento impossível de se definir por apenas uma ou outra obra, já que todas eram diferentes as umas das outras. Foi mais um período de experimentação e entusiasmo do que um movimento em si.

Abaporu (1928), de Tarcila do Amaral, é o quadro brasileiro mais valioso do mundo e exemplo da vontade modernista de romper com a estética tradicional. O próprio título, tupi-guarani para antropófago, expressa a necessidade do artista, principalmente o brasileiro, de devorar toda a história, a cultura e a arte dos que vieram antes de sí para criar algo novo, autóctono, neste caso literalmente de seu interior.

Os que realmente deram um objetivo a toda essa experimentação modernista foram as Vanguardas, termo derivado do contexto militar, da parte frontal de um exército que ao mesmo tempo guia o resto das tropas e são os primeiros a combater o inimigo. Portanto, as Vanguardas tinham como objetivo não apenas destruir a tradição e construir uma nova arte, mas também guiar toda a humanidade por essa nova estética que fugisse dos artificios da tradição e permitisse uma expressão mais verdadeira.

Como todos sabemos, a primeira metade do século XX foi bem agitada e a Europa foi o palco de uma série de distúrbios políticos, filosóficos, culturais e militares. Guerras, revoluções proletárias, estabelecimento de novos meios de comunicação em massa. Podemos dizer que a primeira metade do século XX, principalmente a partir da primeira guerra mundial, foi a época em que a humanidade mais acreditou que era capaz de mudar o mundo e transformá-lo em um lugar melhor.

As Vanguardas eram o reflexo dessa vontade de guiar a humanidade para um cenário utópico, seguindo uma ou mais ideologias e aplicando-as em sua arte. Para os movimentos de Vanguarda a arte não era um fim, um objetivo, mas sim uma mera ferramenta que levaria a humanidade para a mudança.

Para as Vanguardas, a arte não era apenas arte, e sim um movimento político.

Tanto é assim que cada movimento possuía seu próprio manifesto. Alguns movimentos, como o Surrealismo, chegaram a ter vários manifestos, cada um atualizando (e muitas vezes contradizendo) as intenções do anterior.

El Gran Masturbador (1929), Salvador Dalí. Espelhando-se nas teorías freudianas, os surrealistas tentavam desenvolver a linguagem e a estética onírica com o objetivo de compreender e expressar o inconciente humano. Para isso, os artistas surrealistas tentavam se livrar o máximo possível de sua conciencia e dar asas ao inconsciente.
Guernica (1937), de Pablo Picasso, artista que inspirou e elevou o Cubismo à posição de movimento vanguardista mais relevante por haver dinamitado o conceito tradicional de perspectiva. Nesta obra, por exemplo, a sobreposição de ângulos e pontos de vista tenta expressar a totalidade dos horrores sofridos durante o bombardeio da cidade de Guernica durante a guerra civil espanhola.
Charge of the Lancer (1915), de Umberto Boccioni. O Futurismo, por sua vez, defendia a constante mudança do mundo e o progresso humano. Essa mudança e esse progresso eram simbolizados pela guerra. Os Futuristas eram grandes entusiastas do fascismo. Nesta obra, Boccioni utiliza a dinamização de uma cena para transformar o lanceiro em uma figura parecida a uma máquina de guerra em movimento.

A Europa vanguardista era uma panela de pressão prestes a explodir. Tantos grupos se achando donos da verdade apenas aceleraram o inevitável: uma Segunda Guerra Mundial que chocou e despedaçou as esperanças do artista de alcançar um mundo ideal. De fato, os crimes do fascismo apenas evidenciaram o quão perigoso é tentar impor essa verdade aos demais.

Apartir do fim da Segunda Guerra Mundial, a arte perdeu suas certezas. O Modernismo havia destruído a segurança da tradição. As Vanguardas haviam plantado sementes de novas certezas, mas o solo se mostrou infértil.

Sem uma estética que seguir e sem um objetivo que alcançar, pra que fazer arte?

Marilyn Monroe (1962), Andy Warhol

A segunda metade do século XX é um enorme paradoxo. Por um lado, temos um mundo carente de ideais universais, cada vez mais fragmentado e individualista. Por outro, temos um mundo cada vez mais globalizado, onde o progresso econômico, os meios de comunicação massivos e a indústria cultural começam a construir as bases de uma nova sociedade. O centro da cultura deixou de ser a Europa e passou a ser os titânicos Estados Unidos.

Muitos artistas procuraram uma nova universalidade justamente nessa crescente cultura de massas. O Pop Art ao mesmo tempo denunciava e glorificava os novos meios expressivos que impregnavam a vida das pessoas: HQs, arte publicitária, cinema, televisão, tudo aquilo que era consumido e idolatrado por grande parte da população possuía um potencial estético e de universalidade que nenhuma outra forma artística já tivera. As regras da arte são as regras do mercado. Se não temos ninguém para nos dizer o que é arte, então vamos pelo menos ganhar uma grana com ela. Afinal, arte é subjetiva. Afinal, qualquer coisa pode ser arte.

Já outros, e aí chegamos (até que enfim) ao ponto principal deste artigo, tomaram o caminho inverso. Ao invés de investirem esforço em transformar a arte popular em algo mais próximo ao sonho modernista, muitos artistas optaram por chocar diretamente essa cultura popular com imagens e conceitos e ideias que não apenas fugissem do sentido comum, mas que denunciassem o absurdo desse sentido comum.

Chegamos finalmente à arte conceitual.

A arte conceitual, inspirada diretamente pelo dadaísmo e pelas obras de Duchamp, propõem que uma obra de arte já não deve ser interpretada como um objeto de contemplação fabricado pela mão de seu criador, mas sim como um objeto de pura especulação intelectual. Em outras palavras…

A arte conceitual quer te fazer pensar.

Isto não é um cachimbo (1928), de René Magritte, forma parte de uma serie entitulada “A Traição das Imagens” cujo objetivo é, justamente, evidenciar como percebemos a realidade através de nossa linguagem.

Enquanto a indústria cultural trata o seu espectador/ leitor/contemplador como um rei a quem deve-se agradar, a quem deve-se dar tudo mastigado, a quem deve-se guiar e entreter e inspirar e cujo ego deve-se massagear, a arte conceitual quer fazer justamente o contrário: quer chocar, quer tirar o espectador de sua zona de conforto, de seu lugar comum.

A arte conceitual considera que a humanidade está presa em um transe e que a única maneira de fazê-la sair desse estado é com violência, um tapa na cara conceitual. O artista quer, sim, te ver franzindo o cenho, apontando para a sua obra grotesca e dizendo “Essa merda não é arte”. Mas, principalmente, ele quer que você faça algo que a humanidade parece ter esquecido de fazer: ele quer que você debata, desenvolva ideias, pense!

As Vanguardas pretendiam tirar as pessoas da ignorância, dar ao povo algo no que acreditar e ideais que seguir. Antes do romantismo, a população letrada ou culturalmente relevante era quase nula. Mas durante a segunda metade do s. XX temos uma massa alfabetizada, escolarizada, com um enorme potencial intelectual… Que prefere não utilizá-lo. Que prefere consumir, passivamente, informação e produtos culturais desenvolvidos justamente para nutrir essa lei do mínimo esforço.

Por isso os artistas abstratos e conceituais tomam emprestadas as técnicas vanguardistas para denunciar as injustiças do mundo, as contradições humanas e, principalmente, as mentiras que contamos a nós mesmos.

Se com esta descrição você deu um sorriso entusiasmado e começou a procurar no Google maps o museu de arte contemporânea mais próximo, então por favor pare de ler aqui. Boa viagem pelo mundo dos conceitos e bem-vindo à morte da arte.

Mas se com esta descrição você apenas deu um discreto bocejo e revirou os olhos… Bom, bem-vindo à parte puramente opinativa deste texto.

A própria cultura pop abraçou a esquizofrenia do pós-modernismo como uma grande piada.

Pode parecer que hoje em dia vivemos a era de ouro dos ofendidos, onde tudo causa reclamação, onde toda piada é polêmica e onde toda afronta à moral e aos bons costumes é motivo de revolta social. Mas acreditem, é justamente o contrário.

Muita coisa mudou desde o surgimento da arte conceitual. Já não somos uma massa passiva sentada na frente da televisão entre três e sete horas por dia, já não percebemos o mundo através de um ou dois mediadores que apenas querem nos agradar e entreter.

Somos uma população dinâmica, efetivamente globalizada e intrinsecamente comunicada. As redes sociais, por mais repletas de futilidades que possam parecer, são o espelho perfeito de nossa atividade e, principalmente, de nossa capacidade de escolha. O simples fato de termos um número infinito de formas de entretenimento já quer dizer que temos que tomar uma decisão ativa.

Já não é um “Ou eu assisto Faustão ou eu assisto Gugu”.

Assim como já não somos passivos em nosso entretenimento, tampouco o somos em nosso relacionamento com a informação. É só dar uma olhada em qualquer notícia de qualquer portal e se deleitar com sua área de comentários. Se algo nos ofende, reclamamos. Se não concordamos com algo, o expressamos. Independentemente da qualidade de nossos argumentos, essa não é a questão: atualmente achamos que temos, sim, voz ativa e a expressamos. Saímos há muito do círculo vicioso da cultura de massas com a que a arte conceitual queria romper.

Como estamos conectados 24h por dia, como estamos sempre expressando nossa opinião e nossas ideias e nossas vontades, e como estamos sempre em contato com as ideias e com as vontades e com as opiniões dos demais, já não precisamos da arte para nos fazer pensar.

A violência que a arte conceitual propunha já não nos dói como nos doía. Em primeiro lugar, já não nos dói pela exaustão; são tantas as obras conceituais que acabaram se tornando lugar-comum e caíram na banalização, assimiladas pela cultura popular como piada. Por outro, uma ideia, um conceito, já não possui o mesmo valor que possuía há algumas décadas. Tentar chamar a atenção de forma tão glorificada e institucionalizada como a arte para apenas uma ideia já nos parece uma atitude pretenciosa, fútil, adolescente.

Já não nos dói ver como mancham o nome da tradição e dos grandes nomes da arte pois nós não fazemos parte desse cânon que o modernismo queria destruir. Não nos ofendemos pelo fato da arte conceitual não seguir as regras da arte tradicional. Nos ofendemos por essa arte prometer, respaldada por um pós-modernismo grandiloquente porém caduco, algo que valha a pena o nosso tempo. E nos ofendemos mais ainda quando tudo o que recebemos é algo que podemos encontrar em qualquer canto: ideias.

Talvez seja muito temerário de minha parte considerar a nossa uma época ilustrada, onde todos temos consciência de nossa capacidade racional e onde aplicamos essa capacidade da melhor maneira possível. Nem de longe. Nem de longe mesmo.

Mas pelo menos já não estamos estancados naquela época de confusão e marasmo pós-vanguardista, pós-segunda guerra mundial, onde tivemos que nos refugiar no entretenimento para esquecer que a arte já não era possível.

Se já não precisamos (ou não conseguimos) fazer pensar, o que fazer com a arte?

Convergence (1952), Jackson Pollock

Como vimos neste artigo, a arte sempre respondeu às necessidades mais íntimas da humanidade, como um último recurso para expressar o seu mundo interior. Quanto mais livre a humanidade, mais complexo o seu mundo interior. E quanto mais complexo o seu mundo interior, mais difícil é expressá-lo. Ser livre quer dizer se livrar das certezas e mergulhar, com um entusiasmo ingênuo e perigoso, no incerto.

Odiamos a arte contemporânea pois ela é incapaz de nos dizer algo certo, relevante e seguro. Odiamos a arte contemporânea pois ela apenas confirma que somos seres incompletos. Odiamos a arte contemporânea pois ela mesma já desistiu de ser arte e passou a ser um jogo, uma brincadeira de mau gosto.

Talvez devamos aceitar de uma vez por todas que somos essencialmente diferentes uns dos outros e que não existe uma forma nem tampouco um motivo para querer uma arte para todos. Talvez devamos explorar nossas qualidades individuais e desenvolver estéticas, no plural, que melhor expressem os diferentes mundos. Talvez devamos começar, pouco a pouco, tímida e despretenciosamente, a construir as bases de algo que poderia chegar a ser, talvez, quem sabe, por que não, uma arte que compreenda e seja capaz de expressar esta multiplicidade de opiniões, ideias e vontades.

Portanto, da próxima vez que você vir uma obra de arte, seja ela feia ou linda, profunda ou rasa, um Picasso ou um Romero Britto, expresse a sua opinião. Diga que é uma merda, ou diga que mudou a sua vida. Mas, principalmente, justifique a sua resposta.

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Cabine Literária

Literatura com personalidade

Lucas Millan

Written by

Professional of Words. Literary Studies graduate at Universitat de Barcelona. Half Brazilian, half Catalan, whole deer.

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