Cap. 8 — O sertão vai virar mar

ravi freitas
Cacto0083
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2 min readJun 22, 2020

Em Tumalina é comum ouvir as pessoas falarem “eita, que hoje vai chover” quando algo muito improvável acontece. O motivo é óbvio pra qualquer um: a chuva é algo improvável para o sertanejo.

É dito também que, no futuro, uma chuva torrencial chegaria ao sertão, cobrindo todo aquela sequidão com água. E hoje, em Tumalina, é dia de chuva.

Maria estava longe da sua arma e não tinha nenhuma forma de lutar de volta. O Cacto parecia não entender a gravidade da situação. Mas Caçador sabia bem o que vinha agora. Ainda puto pela perda de sua mão mecânica, ele não tinha nenhuma intenção de deixar a rebelde escapar.

Em sua mente, ele fazia com ela as coisas mais cruéis imagináveis. Não sabia se a matava primeiro ou se levaria para que ela sofresse. Não sabia se colocaria seu corpo em praça pública, para mostrar o que acontece com quem desafia os Coronéis, ou a deixaria apodrecer em no meio do sertão, pra que simplesmente nunca mais se ouvisse falar dela.

Mas hoje, em Tumalina, é dia de chuva.

O disparo da arma coincidiu com o movimento de 83. O robô se jogou na frente de Maria e o tiro acertou sua couraça metálica. Nenhum dos dois humanos acreditou no que tinha acabado de acontecer.

“NÃO PROTEJA ELA!”, gritou Caçador. Mas ele não parecia obedecer o Jagunço. Maria puxou a máquina pela mão, pegou sua carabina, e correu pela porta dos fundos tentando se desviar dos tiros que passavam zunindo sobre suas cabeças.

O policial correu atrás deles quando foi surpreendido por um tiro, que o acertou bem no meio do tórax. Sangrando, o Jagunço buscou o alarme em seu bolso, fazendo com que as sirenes de Cordel de Aço soassem por toda cidade.

Um homem como ele não poderia morrer ali. Nenhum verme havia matado um Jagunço antes, ainda mais Caçador, conhecido por ser o que mais gostava de se divertir com suas vítimas. A população correu de volta para suas casas, enquanto o homem, meio humano e meio máquina, cambaleava, segurando o que ainda podia segurar de si mesmo, como se tentasse desesperadamente fazer com o que o sangue que jorrava de si mesmo voltasse pro seu corpo.

As pessoas passavam abismadas, em choque com a cena mais que improvável que viam. Ninguém nunca havia visto um Jagunço definhando em uma poça de seu próprio sangue. O povo de Cordel de Aço presenciou ali uma cena rara, mas que se repetiria ainda mais duas vezes. A morte de um dos três grandes pilares que comandavam a força militar da cidade.

É que hoje, em Tumalina, é dia de chuva.

Maria sentiu as primeiras gotas caindo em seu rosto. Olhou pra cima e viu o céu cinza, carregado de nuvens pesadas e o início do que viria a ser uma chuva que beneficiaria as plantações e os animais por muito tempo. Olhou pra 83, que também olhava para o céu, e sorriu.

“Eita, que hoje vai chover.”

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ravi freitas
Cacto0083

eu sou o inverno russo matando todos aqueles que se aproximam