The Handmaid’s Tale: o pesadelo (im)possível

Provavelmente você já deve ter ouvido falar em The Handmaid’s Tale ou o Conto da Aia, série e livro que contam a história de uma sociedade distópica chamada República de Gilead, que antes era nada mais, nada menos, que os Estados Unidos e que após um golpe militar se torna um estado totalitário teocrático, que prega o retorno aos “valores tradicionais”, onde basicamente as mulheres perdem todos seus direitos.

O livro é de autoria da canadense Margaret Atwood e foi lançado em 1985, e a série (ganhadora do Emmy de melhor série/roteiro/atriz/atriz coadjuvante/direção — ufa!- de drama desse ano) é uma produção do Hulu (tipo uma Netflix, mas que só está disponível nos States).

Depois de ler o livro e ver a série é impossível não ficar impactada, principalmente se você é uma mulher. Em Gilead as mulheres giram sempre em torno dos homens, há basicamente 6 funções que elas podem ser designadas a desempenhar: podem ser uma aia, que é o caso da protagonista, este papel é colocado às mulheres férteis (mais para frente vamos falar mais delas); pode-se ser uma esposa; uma marta, que são as mulheres responsáveis pela limpeza e alimentação da casa, como empregadas domésticas (mas sem vínculos ou direitos trabalhistas).

Pode-se ser uma tia, geralmente mulheres mais velhas e responsáveis pela lavagem cerebral no Centro Vermelho, onde as aias são doutrinadas; pode-se ser uma Econoesposa, que são as mulheres casadas com homens que não são ricos o suficiente para terem direito a uma aia ou uma marta, ou seja, elas fazem tudo, administração da casa, limpeza, comida, etc.; e por último, mas não menos importante, pode-se se uma prostituta.

Esqueçam as opções de ser professora, engenheira, jornalista, aliás, esqueçam qualquer tipo de opção, as mulheres são proibidas de ler e escrever e até dentro desses 6 papéis citados, elas não têm liberdade de escolha, o estado (patriarcal) decide o que vai fazer com cada uma delas, inclusive, se vivem ou se morrem.

Ok, falando nesses termos essa história pode parecer absurda e distante, mas não é assim que nos sentimos ao ler/ver O Conto da Aia, sabe por quê? Porque essa história se passa em uma sociedade baseada na cultura do estupro e onde a religião é usada como desculpa para a retirada de direitos femininos. Hum… Acho que você, mulher, conhece bastante dessa realidade.

É uma experiência no mínimo perturbadora ver/ler algo que parece impossível ser tão real, a situação vivenciada pela Offred (a protagonista) é um extremo, mas a base em que essa situação extrema foi construída é uma realidade vivida por nós, mulheres, e nos faz enxergar toda a verdade presente na trama. Atwood, a autora, já afirmou que seu livro é um romance de teoria social, e mesmo tendo sido publicado em 1985, ainda é atual e alarmante.

O Conto da Aia tem como protagonista Offred, não se sabe seu verdadeiro nome (na série é adotado o nome June). Ela é uma aia, pois após o golpe todas as mulheres férteis foram designadas a esse papel, que tem uma função primordial na República de Gilead, a reprodução. Acontece que devido à poluição, desmatamentos, abortos, DSTs, a grande maioria das mulheres se tornou estéril, então as aias são essenciais para a continuidade do sistema.

É relevante destacar que o golpe acabou de ser dado, ou seja, Gilead tem poucos anos de existência e as mulheres jovens e adultas que lá vivem experimentaram a vida longe da ditadura, num Estados Unidos livre; claro que ainda era um país machista, mas nada comparado com a crueldade de Gilead.

Offred era uma mulher comum, que trabalhava, era casada, mãe de uma menina, e que de repente é demitida de seu emprego (na nova lei as mulheres não podem trabalhar, nem estudar), perde seu dinheiro e autonomia financeira (as mulheres são proibidas de ter contas bancárias e propriedades) e é separada da família e dos amigos para servir de incubadora humana ao estado.

As aias, após essa separação, são enviadas ao Centro Vermelho, onde as tias as fazem passar por uma lavagem cerebral. Lá, elas perdem a sua identidade, são marcadas, torturadas, tudo com base nos preceitos religiosos defendidos pelo estado. A partir de então, são enviadas às casas dos comandantes (os “chefes de família”), na qual são estupradas todos os meses, durante seu período fértil, para cumprirem sua “função natural”, a de reprodução. Esses estupros acontecem na presença das esposas dos comandantes, que são obrigadas a estarem presentes, com a aia entre as suas pernas, enquanto essa é violentada. Essa Cerimônia, como é chamada, é baseada na história de Raquel, em Gênesis. Aliás, o grupo religioso responsável pelo golpe é intitulado os Filhos de Jacob, Raquel era casada com Jacob e não podia ter filhos.

Para não dar spoiler, eu não vou me alongar mais, mas posso dizer que The Handmaid’s Tale é riquíssima nos detalhes, tanto livro, quanto a série, que por sinal é muito fiel à história original. No livro só temos acesso aos pensamentos de Offred e a sua perspectiva dos acontecimentos, o interessante desse aspecto é que o livro te deixa com a sensação de estar tão reprimida quanto a personagem. A ela só sobraram os pensamentos e a ignorância sobre a sua situação e a de seu país, em muitos momentos não entendemos o que está acontecendo em Gilead, porque a própria personagem não entende, estamos tão perdidas quanto ela. Isso é maravilhoso na escrita de Atwood!

A série complementa muito dessa falta de informação, por isso recomendo ler o livro primeiro e depois ver a série. Elisabeth Moss, atriz que interpreta a Offred, está brilhante, só por ela já valeria a pena assistir, mas todo o resto também está incrível, então tem que ver mesmo! Ah! Preparem-se para um final que vai te deixar de boca aberta!

Elogios à parte, a crítica presente em The Handmaids Tale está em todas as minúcias do livro/série, está na cultura do estupro no qual aquela sociedade se fundamenta, está na retirada do direito a educação das mulheres, na retirada do direito de escolha, no direito de ter sua sexualidade (numa sociedade tão reacionária, onde ficaria o direito da comunidade GLBT? O que acontece com as mulheres lésbicas? Vale a pena ler/assistir para saber, mas se prepare porque vai ser pesado), está no apagamento de sua identidade e da humanidade (perde-se o nome, vira-se Offred: of Fred, do Fred, em português; Fred é o nome do comandante da casa onde a Offred está como aia; ou seja, ela não é mais uma pessoa, ela é um objeto, uma máquina de ter filhos, e que pertence a um homem).

Moral dessa história: Mulheres, uni-vos! Tudo que se passa nessa trama de certa forma já aconteceu no passado ou ainda acontece hoje, o que impede que estes desmandos aconteçam de uma só vez ou em tão grande proporção é a união das mulheres e a força do movimento feminista ao longo de todos esses anos, estejam atentas, vigilantes, nós não podemos relaxar, não podemos fechar os olhos nem um segundo, temos que ocupar espaços de poder, fazer valer nossos direitos, fazer valer nossa humanidade.

Conhecer essa história foi uma experiência incrível e assustadora, faz lembrar Simone de Beauvoir quando ela diz “nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”, portanto, vigiai sempre, manas!

Já leu e/ou viu The Handmaid’s Tale? Bora bater um papo, e me diz o que você achou nos comentários. Ainda não viu? Então vai fazer isso agora!!! Haha.