A Importância de Pensar Mulher

I am no bird; and no net ensnares me; I am a free human being with an independent will, which I now exert to leave you.’ Another effort set me at liberty, and I stood erect before him.
Charlotte Brönte,
Jane Eyre

INTRODUÇÃO

A existência duma filosofia feminista assenta incontornavelmente na assunção da existência (ou pré-existência) duma filosofia de carácter essencialmente masculino. Intencional ou acidental, só na ausência ou distorção das características essenciais da feminilidade é que se pode invocar a necessidade de uma filosofia diferente e, porventura, mais correta. Que a filosofia ocidental é androcêntrica nem sequer é matéria de discussão: a leitura atenta dos autores canônicos não deixa sequer margem para dúvidas¹, já que as frequentes alusões diminuidoras do gênero feminino são a prova factual dessa tendência. Contudo, a questão que imediatamente se coloca é a de se perceber se essas posições são ou não intrínsecas às doutrinas subjacentes; ou seja, é fundamental perceber se tais afirmações discriminatórias são ou não fulcrais nos sistemas filosóficos onde se encontram, contaminando todas as subsequentes derivações que deles se faça, e em que medida ficariam estas filosofias estruturalmente comprometidas na necessária depuração hermenêutica exigida pela nossa contemporaneidade.

A discussão não é pacífica nem de fácil resolução. A leitura superficial das diversas passagens que denigrem as mulheres deixa alguma margem para que estas sejam tomadas como meras repetições dos contextos culturais históricos envolventes dos filósofos que as produziram, mas uma análise mais aturada pode revelar manifestações evidentes de preconceitos com ramificações negativas muito profundas, embora subtis.

Por motivos de brevidade e simplicidade deste estudo, adotarei uma posição favorável ao argumento de que as visões negativas ao gênero feminino são apenas extrínsecas² às filosofias da maioria dos autores canônicos. Faço-o com base na percepção de que o aspecto mais determinante no pensamento de cada filósofo é a sua ontologia, dela derivando as demais consequências para os seus sistemas. Como as mais evidentes posturas discriminatórias são meramente circunstanciais e periféricas, refletindo acima de tudo o zeitgeist contextual dos diferentes autores e sem ligações ontológicas comprometedoras evidentes, essas falhas não são estruturais ao seu pensamento. O androcentrismo é apenas aparente, ainda que injustificável.

Seja como for, a assunção de uma filosofia que só extrinsecamente se fez discriminatória não exclui a necessidade da existência duma abordagem feminista. Aliás, esta é essencial na medida em que o feminino é uma realidade existente e que não pode ser negada, tendo, por isso, de ser pensado e tratado filosoficamente. Todavia, a filosofia feminista deve resistir à tentação de tentar, reescrever a história da filosofia ocidental e, ao invés, focar-se na complementação das lacunas deixadas por essa mesma narrativa do passado. Desde a quase inexistência de filósofas no cânone que ocupem lugares de destaque até à grosseira omissão de um tratamento capaz dos diferentes aspectos do ser feminino, a filosofia feminista tem um campo vasto de ação que é essencial para a redefinição do papel da mulher como ser pensante e atuante numa sociedade que se quer e exige cada vez mais verdadeiramente igualitária.


PENSAR MULHER

Será que se pode falar dum pensar feminino? Se sim, em que sentido? A dificuldade de defesa de uma tal posição assenta logo à partida na problemática intrínseca à própria circunscrição dos termos usados: pensar e feminino. Como título do trabalho escolhi a frase A Importância do Pensar Mulher. Este pensar refere-se à razão, tal como entendido filosoficamente, e mulher à dimensão do feminino. Mas isto são apenas definições demasiado abrangentes que necessitam de uma maior precisão. Tal como estão, pouco adiantam.

A predominância do gênero masculino na história da filosofia ocidental é por demais evidente, como atrás referido, e pese embora a extrinsicalidade do natural androcentrismo resultante, é, contudo, importante não desconsiderar outros possíveis indesejáveis efeitos que esta hegemonia sexual pode ter tido no campo da filosofia. O conceito razão é um desses domínios filosóficos onde o espaço da mulher foi sempre posto em causa.

A literatura filosófica feminista é bastante eclética e pródiga em posições contrárias³. Há, contudo, quem defenda⁴ que a razão é um desses domínios deformados pela excessiva ênfase dum repensar os seus próprios fundamentos a partir da perspectiva da masculinidade. E dessa racionalidade resultante feita género em símbolo através dos próprios caracteres que para si reclamou, faz-se feminilidade tudo aquilo que se julga que à razão obsta. O masculino exclui o que lhe escapa, o que não possui ou compreende. Repetição feita hábito, hábito tradição, tradição símbolo. A razão passa a ser um certo modelo de racionalidade alicerçada naquilo que o masculino demarcou como desejável, à imagem duma ordem que tomou como natural e que comodamente pretende manter. A intenção transforma-se em cultura e nela justifica-se verdade. Na obscuridade do tempo desce a bruma que entorpece o julgamento, dificultando a percepção e subsequente circunscrição do problema nem sequer tem espaço para se definir. A mulher vê-se excluída do domínio da razão e, sem ela, da filosofia.

O espaço de acção da mulher na filosofia é hoje outro, mais alargado. O véu da contemporaneidade mascara os velhos demônios que finge mortos e o peso do tempo é âncora que dificulta a mudança. Hoje a mulher é obrigada a reclamar espaço num campo que já à partida a limita, fazendo-se identidade no esvaziamento do seu potencial específico para se ver transformada numa espécie de versão amputada do ideal masculino — a sua presença é sombra que se faz na ausência de si.

Cabe à filosofia feminista a tarefa da identificação da dimensão do feminino e da sua defesa. Mas o processo não pode ficar à mercê duma forma de estar que já à partida se tem sem norte. Buscando a verdade por detrás do símbolo, a mulher tem de se fazer valer na autenticidade dum pensar que é genuinamente seu.


ADIANTE, NA DIFERENÇA

Repensar o pensar mulher torna-se necessidade. A igualdade, a única aceitável porque justa, faz-se no respeito pela diferença. Não existe uma razão apenas, cremos. O ideal universalista da racionalidade tem de se fundar na potência do particular e fazer alcance através da diversidade. À mulher cabe toda a visão que é sua e que é outra que a do homem, ambos em mundos projetados em si que só na complementaridade se completam.

Para o pensador masculino, esta igualdade tem de ser mais do que um direito negado — não lhe basta restituir o que nunca foi seu. Assumindo a injustiça do passado e o erro do presente, o seu projeto só se pode fazer na abertura à inclusão daquilo que sabe ausente. Nesse sentido, a causa feminina é também a sua causa.

Os caracteres físicos específicos dão corpo a uma metafísica que lhe subjaz, a da diferença feita identidade na oposição. Na transcendência do indivíduo abre-se o campo da percepção que na humanidade é cosmos de infinitas possibilidades; nessa transcendência, o outro é a moral imanente que só aceita a justiça da igualdade e do comum. Para o homem a mulher habita no além de si onde constrói jardim na paisagem da sensação feita conceito. Nela a visão impossível ao homem: o outro pensar.


REFERÊNCIAS

FERREIRA, M., As Mulheres na Filosofia, Lisboa, Edições Colibri, 2005.

LANDAU, I., Is Philosophy Androcentric?, Philadelphia, The Pennsylvania State University Press, 2006.

WARNOCK, M., Women Philosophers, London, Everyman, 1996.

WALTERS, M., Feminism. A Very Short Introduction, New York, Oxford University Press, 2005.

Witt, Charlotte, “Feminist History of Philosophy”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2008 Edition), Edward N. Zalta (ed.). http://plato.stanford.edu/archives/fall2008/entries/feminism-femhist. 2011.11.18


¹ No seu livro Is Philosophy Androcentric?, Iddo Landau aponta que as referências androcêntricas na filosofia ocidental são “muito mais frequentes do que muitos de nós gostaríamos de acreditar” (sic).

² Posição igualmente defendida pelo mesmo autor.

³ FERREIRA, M., As Mulheres na Filosofia, Lisboa, Edições Colibri, 2005.

⁴ Genevieve Lloyd, Karen Green, Luce Irigaray, entre outras.


Originally published at filovida.org on September 20, 2016.