Absurdo à terceira potência

Primeiro que tudo, o absurdo, este, o de ser este texto um testemunho de mim eu mesmo eu próprio. Sem outra fonte de autoridade que não esta, a de me assumir como testemunha dos eventos que relato, avanço, então, para esta análise-descrição do fantástico fenômeno de me acontecer em mim uma história.

O dia, creio, tanto faz — em todos estórias, eventos, sucedidos. Neste, em particular, choveu. A chuva, por si só, não merece espanto. No tempo em que relato estes eventos, a grande maioria dos presentes raramente se dava conta de eventos tão pequenos. Nesse tempo, portanto, meras trivialidades tinham pouca importância. Para eles, segundo me informavam as muitas redes sociais que frequentava, o que realmente importava eram as grandes questões, não meras tecnicalidades daquilo que acontecia no meio envolvente. Ou seja, chover, por si só, não constituía qualquer problema.

Também sem história decorria o deslocar-me de bicicleta, pois a rotina havia já consumido o pouco que de atenção sobrava para que nisso lhe descobrisse qualquer valor narrativo. Nada, nada, nada, portanto, até agora três, três parágrafos gastos e nada que espante. Continuar, portanto, lendo, quando ler custa, para quê? Na floresta queimada da atenção perdida, que promessa justificaria o meu lento cozinhar no banho-maria do tédio com que até aqui vos arrasto?

Poderia, platônico, invocar ignorâncias, a minha, a vossa, a de todos; ou, esteta presumido, desconstruir o texto e descobrir-lhe qualidades de ilegibilidade como tudo o resto que forra as prateleiras de vossas estantes; ou, ainda, pateta-simples, condenar isto a letra-morta, emissão sem potência de rádio com defeitos em frequência abandonada e, portanto, condenada ao esquecimento. Poderia — não o farei.

Ora, por partes, vejamos: no primeiro dos parágrafos, o absurdo de haver primeira pessoa singular do verbo ser-tragédia que possa servir ela própria em si mesma como testemunha de uma história. Absurdo sobre absurdo, como cenário de fundo a fantasmagórica materialidade das inconcebíveis imensidões vazias de todo o cosmos-universo. Em primeiro plano, três vezes absurdo, um eu de mim eu mesmo eu próprio, bicho macaco pensante-falante em corpo-matéria atuante, que, escrevendo, se narra. Isto parece-nos mais que suficiente para provocar um estranhamento, uma angústia, uma dúvida incômoda: um princípio de escândalo.

Como se de absurdo em absurdo se avançasse, no segundo parágrafo chove. Mesmo quando chove, nem que seja chuva pequena, neblina, nesse mero cair de água limpa, pura, pronta para beber, regar, lavar — ainda por cima do céu(!), só porque sim, porque chuva, e chuva é água, céu, vento e todo tanto que nunca pára — o estranhamento retorna, e agora se agudiza.

Se, por último, equilibrarmos o macaco molhado — bicho celular-bacteriano, criatura que dos pântanos defecantes de si próprio se desdobra em motivação para galgar chão — em cima de duas rodas, o absurdo absurdo fica num cérebro bicicletante, narrativo, historiante, completando assim o quadro de estranhamento que, de tão estranho, três vezes grita que disto se faça uma filosofia.

Fosse o macaco-eu bicho das letras, não dos que mastigam papel impresso, inseto, mas verme cobarde de academia, e faria disto um paper, qualis lattes imbecilis. Eu-macaco não, paro já aqui. Tenho fome; e com fome avanço entre cagadas.


Originally published at filovida.org on January 30, 2016.