Nosso olhar importa
De quantas mulheres fotógrafas contemporâneas você ouviu falar?

“Ouvir mulheres cantando sobre si mesmas — em vez de homens cantando sobre mulheres — faz tudo parecer repentinamente claro, e possível.
Toda a minha vida sempre pensei que, se não fosse capaz de dizer algo que os meninos achassem interessante, eu poderia muito bem calar a boca. Mas agora me dou conta de que havia toda uma outra metade invisível do mundo — garotas — com quem eu podia falar. Toda uma outra metade igualmente silenciosa e frustrada, apenas esperando que dessem a ela o menor sinal verde — a menor cultura de arranque — e ela explodiria em palavras, e música, e ação, e em gritos aliviados e eufóricos de ‘Eu também! Eu também sinto isso!’”
Do que é feita uma garota, Caitlin Moran

Desde muito cedo eu me interesso por fotografia. Os primeiros fotógrafos que conheci, eram homens. Eles eram incríveis, mas eles não me mostravam o que eu queria ver. Um mundo novo se abriu quando comecei a ver fotografias tiradas por mulheres. Nem sempre era porque eram melhores fotógrafas e sim porque eu percebia que poderia ter alguma chance ali.


“Existe uma força enorme na representatividade feminina na arte, sobretudo na fotografia, ela não só permite que possamos falar por nós mesmas como criar novas possibilidades para nossas vidas, nos da suporte para entender quem somos e cria um sentimento de pertencimento”, Juh Almeida.
As mulheres crescem com fardos que são fundamentais para se arriscarem menos no futuro. Crescemos com a sensação de que o que fazemos e como fazemos não são tão importantes assim. Junto a isso, temos uma falta de representatividade absurda. E não é porque não fazemos, é porque nos calam.
A fotografia feita por mulheres ainda é pouco retratada pela mídia. É lógico que não temos muito espaço para arte no Brasil, mas tire uns minutos do seu tempo para pesquisar a fundo sobre isso e veja a quantidade de matérias em pequenas revistas, sites, etc que são feitas sobre homens fotógrafos.


Quando vemos alguma matéria sobre essas mulheres, elas são geralmente atreladas a como é ser uma mulher fotógrafa e quase nunca sobre a profundidade de seus trabalhos.
O machismo, infelizmente, não acaba aí. Junto a essa preferência da mídia e falta de representatividade, ainda tem um número assustador de fotógrafos que cometem abusos durante as sessões de fotos. E eles continuam na mídia, continuam ganhando prêmios e sendo ovacionados, como se absolutamente nada tivesse acontecido. E as mulheres, mais uma vez, silenciadas.
No World Press Photo, que organiza a maior e mais prestigiada mostra de fotojornalismo do mundo, apenas 15% das fotos que concorrem aos prêmios foram feitas por mulheres*.


“Ser mulher na arte ainda é um exercício: de resistência, insistência e firmeza”, Carine Wallauer.
E mais uma vez, não é porque não fazemos. Como não nos vemos, achamos muitas vezes que não somos capazes. Ou, pior, sabemos que somos capazes, mas muitas vezes não seremos escolhidas justamente por sermos mulheres.
Sempre precisamos ocupar nossos espaços de uma maneira muito mais árdua do que a dos homens. Vários estudos apontam que mesmo sendo mais competentes que alguns homens, ainda não estamos nos locais de liderança, justamente por sermos mulheres.


“Ter mulheres na fotografia é ter mulheres tendo voz sobre sua vida. Não deixando se anular pela sociedade ou homem “forte” ou “mais possível” é se tornar forte, ser o que ela de fato é. Simplesmente incrível em sua delicadeza de ser!”, Bruna Bento.
Queremos espaços. Queremos ser vistas. Queremos que nossos trabalhos tenham valor e que a importância devida seja atribuída a eles. Não queremos ser desmerecidas pelo nosso sexo. E por sermos mulheres, temos o dever de dar representatividade umas às outras.
*Fonte: New York Times

