Altos Voos e Quedas Livres
(Julian Barnes)

“Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes. E o mundo se transforma. Às vezes dá certo.” Mas às vezes também dá merda e a vida segue trôpega com jeitão de poesia triste. “Altos Voos e Quedas Livres” é Julian Barnes (autor de “O Sentido de Um Fim”, um dos livros que mais me fizeram chorar de forma constrangedora num ônibus) tentando racionalizar o que lhe ocorreu por dentro quando o que a vida havia juntado passou a não mais ser plural: o amor de sua vida, sua esposa, morreu.
Seria então possível rascunhar o “seguir em frente” apenas com palavras? Ele tenta. E de um jeito bem ousado.
Não sei ao certo como a ABNT literária define a extensão de páginas que determina a diferença entre o que é um conto e o que é novela, mas é certo que aqui o escritor inglês utiliza algum desses gêneros aí, só que misturando figuras históricas e ficção, confissões pessoais e metáforas literárias. Isso tudo num estilo que vai do relato de viagem até, eu acho, a reportagem, com um jeitão meio Cidadão Kane de construção de personagens, com diferentes pontos de vista a respeito de uma determinada pessoa, etc.
São três histórias que são uma só, mesmo que bem díspares. A primeira é sobre balões e o desejo humano por alcançar alturas, e, por conseguinte a dificuldade de lidar com a educação da queda. E “altura” aqui ganha um proporção maior do que uma trena poderia medir, já que pode referir-se ao tempo, pois a certa “altura” da vida, também levamos alguns tombos imensos, mesmo longe de elevações. Na segunda parte, mais próxima do chão, temos uma história de amor que mira o céu, mas como avisa o narrador “(nós) Animais rasteiros, às vezes chegamos tão longe quanto os deuses. Alguns voam por meio da arte, outros da religião; a maioria do amor. Mas, quando voamos, podemos cair (…) Toda história de amor é uma história de sofrimento em potencial”.
Essas duas histórias, que possuem basicamente os mesmos personagens e as mesmas referências históricas e literárias, servem como uma espécie de preparação metafórica para o que vem a seguir: nada de ficção (ou seria tudo?), Julian Barnes, agora num ensaio literário, abre o peito para discorrer diretamente sobre seu desmoronamento emocional após a morte de sua esposa. E aí a frase “Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes. E o mundo se transforma.”, com a qual ele começa cada capítulo (novela, conto, relato?), fazendo apenas algumas variações, passa a fazer um sentido enorme, pois é a partir da justaposição dessas formas literárias tão diferentes que começamos a entender (ou a medir) a altura da queda de quem perdeu aquilo que mais amava.
É um relato de quem conhece intimamente o chão e que sabe muito bem: não há nada que nos prepare para o impacto da queda.
Nota: 4/5
Título: Altos Voos e Quedas Livres Autor: Julian Barnes
Editora: Rocco
Ano: 2014
Número de Páginas: 128
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