Festa no Covil
(Juan Pablo Villalobos)

Livros narrados por crianças geralmente chamam a atenção pela acurada sensibilidade com que elas percebem o mundo ao seu redor (como o pequeno Oskar, em Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer) ou pela forma curiosa com que tentam significar o universo em que estão inseridas (como em todos os textos em “Nu, de Botas”, de Antônio Prata). Já em “Festa no Covil”, o que impressiona é a sinceridade cruel com que Tochtli, um filho de traficante, descreve seu cotidiano.
Por exemplo:
“As coisas que aprendi com o Youlcaut é que às vezes as pessoas não viram cadáveres com uma bala. Às vezes precisam de três balas ou até de catorze. Tudo depende de onde você atira. Se você atira duas balas no cérebro, com certeza elas morrem. Mas você pode atirar até mil vezes no cabelo que não acontece nada, apensar de que deve ser bem divertido de ver”.
Ou
“Na verdade existem muitos jeitos de fazer cadáveres, as os mais usados são os orifícios. Os orifícios são buracos que você faz nas pessoas para o sangue vazar”.
Esta incômoda objetividade com que o personagem trata a violência é fruto principalmente do isolamento em que vive, pois está sempre trancado na mansão (ou palácio, como costuma chamar) enorme e isolada de seu pai, rei do tráfico, tendo pouco contato com outros seres humanos. Tochtli “filtra” o que vê e ouve neste lugar, através de uma ótica infantil, e tenta dar sentido a esse mundo que, vamos e venhamos, não faz muito sentido, o resultado é um assombroso retrato do narcotráfico mexicano.
O garoto é aficionado por chapéus, inclusive tem uma coleção deles, adora filmes de samurais, joga Playstation 3 e sonha em ter um hipopótamo anão da Libéria. Não difere, portanto, de uma criança comum. A diferença é que ele tem um pai milionário que tenta preencher todas as ausências da vida do menino, comprando-lhe tudo, inclusive um hipopótamo anão da Libéria, se necessário.
E aí que o livro de Juan Pablo Villalobos se torna grandioso, pois ao mesmo tempo em que conta as desventuras do garoto tentando desvendar os mistérios que o cercam e tornando real todos os seus desejos, há outra história sendo contada ali nas entrelinhas. Temos acesso apenas a pequenos fiapos narrativos, mas que unidos vão construindo um panorama não só da brutalidade do grupo criminoso, mas também de seus valores primitivos, códigos de conduta, posicionamento político, etc.
Há no romance certa vontade em compreender a violência como algo cíclico ao longo da história, fazendo do mundo um inferno sem fim (praticamente o Eterno Retorno lá do alemão bigodudo), por isso o menino cita o tempo todo os franceses e suas guilhotinas, “Quando aterrissamos em Paris, Franklin Gómez se emocionou e disse que acabávamos de chegar na terra da liberdade, da fraternidade e da igualdade. Parece que cortar a cabeça dos reis serve para essas coisas”. Mas fica clara, também a intenção de tentar ir além das raízes históricas e desvelar o México-vida-louca atual “Esse é um grande defeito dos livros. Alguém devia inventar um livro que dissesse o que está acontecendo nesse momento, enquanto você lê. Deve ser mais difícil de escrever que os livros futuristas que adivinham o futuro. E aí a gente tem que investigar na realidade”.
Por tudo isso, fica bem evidente que mesmo num curtíssimo espaço (o livro não tem nem 90 páginas), Villalobos, em seu primeiro livro, conseguiu mais do que o suficiente para confirmá-lo entre os grandes autores de língua espanhola.
Nota: 4/5
Título: Festa no Covil
Autor: Juan Pablo Villalobos
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2012
Número de Páginas: 88
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