Fim
(Fernanda Torres)

Passo os olhos pelas prateleiras contendo os destaques da livraria e quando estou quase ficando deprimido com tanta porcaria, vejo um livrinho de uma atriz global que admiro. Putz, porque atriz se mete a escrever? A televisão já não basta? Mas a curiosidade é maior do que o preconceito e além do mais é a Vani, cara. Olha para um lado, olho para o outro e quando tenho certeza de que ninguém está me vendo dou uma lida nas primeiras páginas. Imediamente aquilo se torna um guilty pleasure, pois o tom irônico/ranzinza do personagem já me ganha nos primeiros parágrafos e me faz lembrar a HQ “Wilson” do Daniel Clowes, que adoro.
Compro o dito cujo sem olhar na cara da vendedora e cogito a possilibilade de lê-lo escondido no banheiro da firma, afinal, a guria é da Globo, não pega bem. Mas conforme avanço algumas páginas, acabo confirmando: Fernanda Torres, além de ótima atriz, é uma boa escritora. Que raiva, né?
A história de um grupo de amigos idosos relembrando o passado no Rio de Janeiro vai sendo contada através de múltiplas perspectivas de modo que cada capítulo destaca um personagem, às vezes alternando a primeira e a terceira pessoa. Para horror dos recalcados (no sentido Valesca Popozuda do termo) Fernanda Torres demonstra plena segurança da estrutura narrativa que se entrelaça a ponto de vermos as mesmas cenas por até três pontos de vista diferentes. Felizmente não há aqueles avisos prévios chatos, informando os avanços e recuos temporais, tudo está tão bem amarrado que a falta de linearidade não chega a deixar a história confusa. E no meio disso tudo temos uma espécie de comédia de costumes que retoma uma época dourada da classe média/alta carioca.
Obviamente o humor se destaca, devido timing perfeito da autora, mas é um humor que vai facilmente da autodepreciação para a melancolia. No fundo é um puta livro triste, pois as lembranças daqueles velhos frustrados nos fazem crer que praticamente nada vale a pena e que não há muita esperança de sermos minimamente felizes nessa vida.
Lá pelas tantas o tom sacana da narrativa (os velhinhos tinham um jeito Alexandre Frota de ser) acaba cansando um pouco e fica uma incômoda impressão de que a história está se repetindo ou que os personagens talvez nem sejam tão interessantes assim. Mas ao final o saldo é bem mais positivo do que negativo. Os ótimos fluxos de consciência, momentos em que Fernanda Torres se sai melhor, são prova disso e nos fazem crer que estamos diante de um escritora promissora . Da próxima vez, nem precisarei olhar para os lados antes de pegar o livro na prateleira.
Nota: 3/5
Título: Fim
Autora: Fernanda Torres
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2013
Número de Páginas: 208
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