Lado B — ou uma história de amor para walkman

(Lielson Zeni)

AVISO: essa resenha não é indicada para menores de 18 anos (bem como a programação da madrugada de sábado para domingo da Band durante os anos noventa) e também para pessoas gramaticalmente sensíveis, devido o uso de linguagem imprópria — bem chula mesmo — e erros de ortografia, já que não temos dinheiro para pagar revisores e o do Word, como tudo que é de graça, a gente sabe, não dá pra confiar, não mesmo.

Que livrinho foda esse “Lado B (ou uma história de amor para walkman)”, do Lielson Zeni. Sei que ao colocá-lo assim, no diminutivo, parece que tô depreciando, só que não é isso não. A literatura ali é coisa de gente grande, mas é que a edição tem só umas 100 páginas, como poderia muito bem ter pelo menos o triplo disso. Para de economizar caractere aí, cara!

Enfim, você pode consumir essas páginas em poucos minutos, feito um fast food, mas só que de verdade (sério mesmo que você acredita na batata-frita do McDonalds?) e logo em seguida ser acometido, não por uma azia, mas sim por um vazio. Vazio do tipo: caralho, por que ele não escreveu mais e porque não tem mais gente escrevendo assim? Se bem que talvez até tenha, mas não chega na cara da gente. Mas deixa pra lá, o que importa é que no curtíssimo espaço desse quase-conto (já explico), Lielson demonstra uma maturidade impressionante no trato com as palavras.

Acho que é pra ser um conto, como os outros livros da série que a Mojo Books publicou, com textos de vários autores inspirados em discos de diversos artistas (“Lado B” foi inspirado em “A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado”, dos Mutantes, não os do professor Xavier, os outros lá da Rita e do Sérgio). Tendo em vista de onde partiu a ideia, então é de se esperar algo não muito convencional. E não é mesmo, ainda bem.

É sobre uma história de amor. Tem um cara que gravou uma mixtape pra uma guria, tem uma festa malucona, tem um relacionamento que deu merda, tem o arrependimento. Já o perdão, sei lá. O enredo é engraçado, depois bonito, depois triste.

A história que me perdoe, mas a forma é fundamental. Por exemplo: O livro começa, mas não começa. É que ainda está sendo criado, então ainda nem é um conto direito. E isso é um troço de se cagar de rir (perdão pelo meu francês, mas o narrador do livro também é todo desbocado, portanto se ele pode eu também posso, me deixem senão eu pego esse blog e vou pra casa), pois autor e editor ainda estão debatendo o deadline. Diz uma nota na página 20: “no momento em que o livro foi publicado o atraso do escritor beirava o ridículo de um ano e meio”. E esse tom de zueira permeia todo o livro, avaliações críticas e piadas vão sendo feitas conforme a história vai sendo contada, chegando ao ponto do editor pedir para o escritor parar de escrever em terceira pessoa e prosseguir com a primeira. É atendido, mas depois ele se arrepende, só que aí o livro já está quase no fim.

Lielson Zeni mistura referências que vão desde citações indiretas, e hilárias, à Tolstói e ao Kafka até paródias de anúncio estilo “aprontando altas confusões” da Sessão-da-Tarde. Fora isso, o negócio é tão despirocado que usa texto taxado, tipo assim, simulação de um teclado telefônico !?, letreiro e desenhos para contar essa história. Enfim, é um troço pra Valêncio Xavier nenhum botar defeito.

Puta livro, leiam. Nota: 4/5 Atualização: conforme informado pelo próprio autor, as ilustrações do livro são do Alexandre Lourenço. Fica registrado o crédito.

Título: Lado B (ou uma história de amor para walkman)
Autor: Lielson Zeni

Editora: Mojo Books
Ano: 2013

Número de Páginas: 101


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