Lugares Escuros

(Gillian Flynn)

Duas décadas depois de testemunhar sua mãe e suas duas irmãzinhas serem assassinadas a tiros e a machadas na fazenda da família, a jovem Libby Day encontra um grupo de fanáticos por crimes famosos e se defronta com seguinte questionamento: e se o seu irmão mais velho, que na época foi acusado e condenado, não for o verdadeiro culpado pela chacina?

Se em “Garota Exemplar” Gillian Flynn conseguia nos fazer ficar grudados no livro por colocar os próprios suspeitos como narradores da história, em “Lugares Escuros” a autora repete o mesmo efeito magnético, mas utilizando flashbacks em terceira pessoa que exploram o ponto de vista da mãe e o do suposto assassino, que tinha apenas 15 anos na época. É aquele esquema divertido: passado e presente vão se alternando enquanto o leitor vai encaixando as peças.

Apensar de ser basicamente um thriller policial, cujo objetivo é nos entreter e não fazer profundas análises filosóficas, “Lugares Escuros” trata a questão da memória e da culpa de maneira interessante. A protagonista vê suas convicções se diluírem aos poucos ao perceber que aquilo que ela entendia como memória, poderia também ser chamado de ficção, tal qual o protagonista de “O Sentido de um Fim”, de Julian Barnes.

O que move Libby Day não é exatamente a expiação da culpa, ela é muito egoísta para agir só por isso, só por eventualmente ter destruído vários anos da vida do irmão, o que a move sinceramente é uma necessidade profunda de descobrir a verdade sobre si mesma no passado e a partir daí tentar encontrar um rumo para seguir agora no presente, já que ela não tem a mínima ideia do que fazer consigo mesma (e os objetos que ela rouba dos outros são só mais uma dessas tentativas de usurpar o pedaço de uma vida que não é a sua).

Como vimos em “Reparação”, de Ian McEwan, as consequências de uma mentira infantil pode trazer consequências desastrosas no mundo adulto. No caso de “Lugares Escuros” não temos certeza nem se a mentira existiu, mas temos certeza que as consequências são desastrosas e um tanto ensanguentadas.

Mas nem tudo são flores pretas nesses universo sombrio de Gillian Flynn. A evolução da personagem e suas mudanças de comportamento são bem difíceis de engolir, pois o livro começa com os dois pés no peito, com ela sendo bem deprimida, bem lazarenta e aí quase imediatamente diminui o tom e ela quase vira uma moça fofinha do meio em diante.

Há também de se ter muito boa vontade e uma baita de uma suspensão de descrença para acreditar no número de coincidências que levam à resolução do crime e, principalmente, na simultaneidade bizarra com que os fatos aconteceram na noite dos assassinatos, tornando furadas todas as nossas teorias a respeito de quem cometeu o crime, mesmo que você não seja um leitor trouxa e fácil de enganar como eu.

Entendo a necessidade de enfiar todas as informações num só dia pra deixar a leitura frenética (li as últimas 150 páginas numa sentada), contudo as coisas podem soar tão forçadas que podem comprometer tudo que foi construído até ali. Não chega a ser o caso, mas quase.

Apesar dessas questões, a linguagem bem elaborada de Gillian Flynn, o que nem é muito normal neste gênero, e a boa costura temporal da narrativa faz com que a leitura de “Lugares Escuros” valha a pena e garanta algumas horas de ansiedade e um bom tanto de unhas roídas.

Nota: 3,5

Obs: A moça ali na capa é a Charlize Theron. O livro foi adaptado e estreará em breve nos cinemas.

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