Meus Desacontecimentos — A história da minha vida com as palavras
(Eliane Brum)

Nestes tempos em que os 140 caracteres do Twitter têm determinado o volume de palavras que utilizamos para nos comunicar, Eliane Brum é quase uma aberração, pois para desespero daqueles que leem apenas manchetes, a moça se atreve a escrever mais do que dois parágrafos na internet. Haja concentração. Seus textos “quilométricos” (muitos deles reunidos no livro “A Menina Quebrada”) são adorados e odiados quase que na mesma medida nas redes sociais, lugar onde o povo não é lá muito acostuma a ler textos inteiros antes de emitir uma opinião. De todo modo, o fato é que a jornalista gaúcha geralmente escreve coisas bastante pertinentes.
O que talvez nem todo mundo saiba é que ela também é uma boa romancista. “Uma Duas”, publicado em 2011, é uma voadora com os dois pés (calçando coturno) no estômago, que fala sobre uma dificílima relação entre mãe e filha. Já em “Meus Desacontecimentos”, Eliane parte para um resgate de seus passado e o papel que a palavra escrita teve em sua vida.
Menos impactante do que “Uma Duas”, talvez por se tratar de algo mais pessoal (a propósito, prefiro muito mais a ficção e não faço parte da torcida que adora tudo que seja “baseada em fatos reais” só por causa desse suposto compromisso com a realidade), este novo livro faz um panorama bastante bonito de uma infância em que o amor pelos livros funcionou como espécie de bunker para escapar dos bombardeios da vida real. O estereótipo da “personagem” não foge muito daquele básico de quem gosta de livros: jeitão estranho, se sentir deslocado, mas ao mesmo tempo achar que é especial só por causa disso, dificuldade de se relacionar com as pessoas, preferir escrever e ler a conversar com alguém, etc.
O tom de abstração e significação do mundo através da descoberta da linguagem é quase etéreo e rende ótimos momentos de puro lirismo, mas aos poucos vai se tornando um pouco repetitivo. Ok, ok, entendemos que escrever é um troço mágico, a gente sente isso também, mas vamos adiante. Eis então que surgem as complicadas relações familiares, a relação com a morte e o livro melhora consideravelmente.
Mas em alguns momentos a autora deixa de lado a sofisticada construção narrativa (ela escreve bem pra caralh… caramba) que tinha elaborado até ali e passa a flertar um pouco com seus textos da internet (jornais e revistas), quase resvalando numa lição de moral sociopolítica desnecessária. Entendo que o contato com um índio e com uma emprega doméstica possam ter sido marcante em sua vida, despertado uma visão política, etc, mas é difícil não sentir um pretensioso autoelogio ali, uma demonstração de humildade que poderia ter sido mostrada de forma um pouco mais sutil.
Depois de “Uma Duas”, um livro que adoro e até indico em sala de aula, é claro que eu esperava muito mais deste aqui, mas em todo caso, “Meus Desacontecimentos” tem seus bons momentos e certamente não decepcionará os fãs da autora.
Nota: 3/5
Título: Meus Desacontecimentos — A história da minha vida com as palavras Autor: Eliane Brum
Editora: Leya Ano: 2014
Número de Páginas: 144
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