Misery — Louca Obsessão

(Stephen King)

Sempre digo que ler Stephen King é como voltar para casa depois de uma longa viagem. É muito legal sair da rotina e conhecer novos lugares, aprender coisas novas, etc, mas nada supera a felicidade simples e sincera de retornar ao conforto do seu lar. Passei vários anos da adolescência no Maine, estado onde se passam a maioria das histórias do escritor americano, sem nunca ter saído do Brasil. De quando em quando era transportado para esse mundo composto por palhaços maníacos, crianças ressuscitadas, carros assassinos e, quer saber, achava tudo aquilo maravilhoso. E ainda acho.

Ele escreveu uns 50 livros e eu infelizmente li apenas uns 15, mas curtia tanto aquilo tudo que sempre senti ser aquele “Leitor Fiel” a quem ele costuma se dirigir nas introduções de suas obras. “Leitor Fiel”, para mim, era aquele cara que gosta quando um autor lança um livro de 500 páginas e ainda torce para que o próximo tenha 800; que vasculha a internet em busca das referências escondidas “olha esse cachorro ali que a guria comentou a respeito é aquele mesmo que estraçalhou um maluco no outro livro”; que defende o autor de “livros comerciais” naquelas discussões acaloradas sobre “literatura séria” na faculdade, etc. Mas que nada, leitor fiel mesmo é a Annie Wilkes, cara. E dá até medo de se parecer com aquilo.

Annie Wilkes é uma senhora não muito carismática e simplesmente assustadora que vive numa fazenda nas montanhas (aliás, sua propriedade fica pertinho de um lugar que talvez você já tenha ouvido falar, um tal de Hotel Overlook). Ela sofre de problemas mentais, adora literatura xexelenta no estilo Danielle Steel e, por acaso, acaba encontrando seu escritor favorito, Paul Sheldon (Sidney Sheldon mandou lembranças), preso nas ferragens do carro, após sair da estrada durante uma nevasca. Ele havia enchido o cu de Dom Perignon para comemorar o fim do livro que acabara de escrever. Tratava-se de uma guinada na sua carreira, afinal Sheldon finalmente havia se livrado da personagem Misery (tipo Sabrina, que tinha nas bancas pra vender), com a qual fez sua fortuna, mas já não a suportava mais, tanto que havia decretado sua morte no último livro, e agora poderia partir para novos desafios literários, escrever coisas mais sérias, quem sabe ganhar prêmios etecetera e tal.

O fato de Annie Wilkes levá-lo para casa dela e não para um hospital era preocupante. Suas duas pernas quebradas também eram um problema. Mas tudo isso era fichinha perto da seguinte questão: Annie tinha um machado e era sua fã número 1, sendo assim ela jamais admitira a morte da personagem Misery no último livro e o faria dar um jeito nisso logo logo.

Assim como em “Jogo Perigoso”, livro escrito 5 anos depois, a história inteira se passa praticamente num mesmo cômodo, a partir da perspectiva de alguém preso à cama. Só que em “Misery — Louca Obsessão” (finalmente lançaram a tradução no Brasil, aleluia irmãos!) Stephen King vai além das descrições agoniantes de fome, sede e vício em remédios, sem falar no interesse da senhorita Wilkes por amputações, e faz também uma reflexão interessantíssima sobre o seu próprio ofício.

Enquanto lida com a brutalidade de Annie, uma das personagens mais interessantes e assustadoras já criadas pelo autor, uma vez que está absolutamente distante de qualquer estereótipo de insanidade visto anteriormente, Paul Sheldon percebe que sua única chance de sobreviver é dar uma de Sherazade (a das Mil e Uma Noites, não a moça que acha ok linchar pessoas na rua) e controlar seu algoz através da curiosidade despertada ao final de cada capítulo do melodramático retorno de Misery, que ele está escrevendo e aos quais nós também vamos tendo acesso a alguns trechos. É curioso como a gente torce para que aquilo não esteja um lixo e Annie não ache ruim, tal como um escritor provavelmente pensaria quando escreve algo e torce intimamente para que o público goste, mesmo que não o admita.

A criatividade cresce a partir da dor, “Porque escritores se lembram de tudo Paul. Especialmente o que dói (…) É bom ter algum talento se você quer ser escritor, mas o único requerimento real é a habilidade de lembrar a história de cada cicatriz”. É a metáfora levada ao pé da letra. Pobre pé, aliás. A questão é que ele percebe que mesmo que se preocupe com as reações, ele nunca fez aquilo para agradar os leitores, “O motivo de os autores quase sempre colocarem dedicatórias em livros, Annie, é que o egoísmo deles no final aterroriza até eles próprios”.

Na sua biografia lançada recentemente, escrita por Lisa Rogak, vimos que o fato de King ser um rockstar das letras, faz com que todo tipo de lunático se aproxime dele e de sua família, o que torna Annie Wilkes assustadoramente crível. Mas o que mais interessa ali na biografia é a relação dele com o ato de escrever, pois funciona como um vício tão poderoso quanto o álcool e as drogas que ele consumiu ao longo dos anos. É mais do que gostar de escrever, é não conseguir respirar se tiver que ficar longe daquele mundo inventado em que se pode ser Deus. Ele inclusive menciona que escreve compulsivamente todos os dias, menos nos feriados importantes como o Natal, mas logo admite que só diz não escrever nos feriados para as pessoas o acharem um pouco normal.

Ao conduzir essa história sangrenta de maneira tão impressionante (duvido que você não tranque a respiração quando Anne parece com um machado), Stephen King mostrou não só que está um nível acima de tantos outros escritores (de literatura “comercial” ou “séria”, foda-se), como também reconquistou um fã antigo. Outro fã número um.

Nota: 5/5
Obs: a quem interessar, escrevi sobre a adaptação cinematográfica lá no Cinema por Escrito (clique).

Título: Misery — Louca Obsessão Autor: Stephen King Editora: Suma de Letras

Ano: 2014
Número de Páginas: 326


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