O Brasil é Bom
(André Sant’anna)

Os livros de contos perfeitos se parecem, cada livro de contos irregular, é irregular à sua maneira. “O Brasil é Bom”, escrito pelo ex-mineiro agora paulista, André San’anna, por exemplo, é bom; o livro é bom, não o país, já que o título obviamente é irônico; mas é também irregular, e esse irregular aí vale pros dois, o livro e o país, não pro André, pois aqui é só uma análise literária e não biográfica, mesmo que o livro seja meio biográfico numas partes.
Talvez fosse o caso de discutir se realmente existe livro de contos perfeito e alguém inteligente diria que tem os do Borges que pouca gente comum leu tudo, mas que outras pessoas mais inteligentes que a gente já leram e disseram que sim, é perfeito sim, por isso e por aquilo outro, essas coisas de pessoas inteligentes. Talvez também fosse o caso de discutir se não é um baita clichê preguiçoso isso de dizer que todo livro de contos é irregular e que alguns contos, nossa, são incríveis e que outros, credo, o autor botou ali só pra fechar o número de páginas acordado previamente com a editora que, por sua vez, certamente fez vista grossa só pra manter o número de páginas acordado previamente com o autor. Talvez fosse o caso, mas não é o caso, nesse caso.
O livro começa assim ó:
“Jesus nasceu num barraco bem pobrinho, num lugar bem pobrinho, cercado de vaquinhas, estrelinhas, uma lua sensacional. Jesus nasceu nesse clima e a Gloria Pires falou: esse menino vai se chamar Jesus. Jesus Cristinho.”
Bem louco né? O André curte os malucos, vive repetindo “Viva os malucos!” nas redes sociais, não sei se assim no plural, talvez seja só na rede social, uma só, no caso o Facebook. Enfim, a literatura dele é aquela doidera que pode assustar ou fascinar já de cara, quem o conhece de antigamente lá dos contos de “Sexo e Amizade” (que tem “A Lei”, um de meus contos favoritos, que não é meu, é do André, autor desse livro, mas que a gente diz “meu” assim mesmo, pois vai se apropriando daquilo que gosta, fazendo parte junto conforme vai lendo, etc, a literatura é foda, você sabe) já está acostumado. É um troço meio caleidoscópico, que jamais segue uma linha narrativa reta, cheios de frases enormes ou minúsculas, pela metade, contraditórias, vai indo e voltando, enchendo de repetições, só que bem conscientes, pois a cada repetição, um novo sentindo vai sendo criado. Nem sei explicar direito, talvez nem precise, mas vou tentar.
Isso tudo do parágrafo anterior está no melhor conto do livro. O melhor conto do livro é “Lodaçal”, que por acaso é o conto mais longo de todos (e aqui caberia uma piada infame envolvendo tamanho e documento, mas não vou fazê-la). Tem um chamado “Só” que também é muito bom, só que é só bom, mas o “Lodaçal”, que não é bom, é ótimo, é melhor, pois o autor faz um arregaço com esse lance da linguagem caleidoscópica. “Linguagem em espiral” também seria um termo foda pra colocar ali, talvez fosse melhor até do que caleidoscópica que tem uma pegada mais de imagem do que de linguagem, de fluxo de consciência estilo James Joyce, se bem que esses lances semióticos confusos também ficariam mais legais e dariam até credibilidade ao texto que no final ficaria confuso, mas diriam: “gostei da abordagem semiótica e da análise sociolinguística com ênfase na questão pós-moderna líquida”, essas porra. Que merda. Bem, a linguagem em espiral (ficou massa, hein? Eu até tirei as aspas pra ficar mais natural) que o André Sant’anna usa dá uma dimensão muito triste ao mundo de dois garotinhos miseráveis, o Chiquinho e o Toninho. Eles fumam muita maconha, uns baseados desse tamanho, e chapados, começam a imaginar um futuro diferente daquele em que eles até precisam comer sapos para sobreviver. O negócio triste é que, ao longo das repetições de futuros imaginários, mesmo que com pequenas alterações e que eles acabem se transformando em todos os personagens, as histórias giram sempre em torno de um mesmo eixo trágico, ou seja, mesmo que eles imaginem um futuro diferente, ele nunca é feliz, pois não dá pra ser feliz nessas condições, sabe? Nem que seja só ali na cabeça cheia de maconha e no corpo sem colesterol. Não dá.
O livro, num geral, é todo político, bem de esquerda, aliás, e sacaneia toda sorte de reacionários que circulam por aí exercendo sua existência em comentários de portais e jogando a culpa nos Direitos Humanos, defendendo justiça com as próprias mãos, adote um bandido, etc. A Rachel Sheherazade, o motorista de táxi e as ovelhas do Olavo de Carvalho, certamente não vão se divertir muito lendo “O Brasil é bom”. Então já fica a dica de presente de amigo secreto no final do ano.
A crítica é até irônica, mas é tão direta que quase deixa de ser irônica e fica meio óbvia e aí o texto perde um pouco de força, a meu ver, e por isso fica irregular e não é um livro do Borges que alguém inteligente diria que é perfeito. Isso só do ponto de vista literário, pois é claro que a gente se diverte tirando sarro da antiga classe média assustada com tanto pobre deixando de ser muito pobre por aí.
Há nos textos finais, que não sei se são contos, ensaios ou crônicas, uma pegada bem mais autobiográfica em que o autor parece contar a história das coisas, mas na verdade conta a história de si mesmo. Em “A história do futebol” (dedicado a Sérgio e Ivan Sant’anna), ele usa o amor pelo Fluminense e os campeonatos dos ano 70 e início dos 80, como plano de fundo para mostrar não só o fanatismo de sua família pelo esporte, mas também contar singelos momentos de sua infância. Se você se interessa minimamente por futebol, pode acabar se emocionando. Se você caga pro futebol dos anos 70, tipo eu, também pode.
No último texto, “A história da Alemanha” o autor ensaia um mimimi de brasileiro que vai pro exterior, vê o mundo melhor lá e começa achar o Brasil tudo uma bosta, meu deus do céu, como a zoropa é lida, queria ficar aqui, essas porra. Mas aí já é tarde, pois você já leu tanta coisa bacana ali nesse mesmo livro, que é de conto e é irregular como todo livro de conto, que você nem liga e até recomenda pros amigos e até pros reaças e é isso.
Nota: 3,5/5
Título: O Brasil é Bom
Autor: André Sant’anna
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2014
Número de Páginas:190
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