Paz na terra entre os monstros

(André de Leones)

Isso de gostar de ler e de assistir filmes fez com que eu criasse uma grande habilidade em ser um tanto ridículo, haja vista que marmanjo chorando é sempre um troço meio constrangedor, isso porque algumas obras “botam a gente comovido como o diabo”. Drummond ficava assim com a lua e o conhaque, o que é bastante justo, já eu fico assim não só numa sessão de “Toy Story 3” lotada de crianças rindo, o que não é tão justo, mas também, e principalmente, com livros que alcançam beleza pela uso da linguagem (não passo ileso pela leitura de “Primeiras Estórias”, do Guimarães Rosa, por exemplo) e pela maneira com que fazem eu me enxergar vivendo tudo aquilo. A leitura é um treco meio egoísta nesse sentido, é a vida de outro ali, mas a gente quer sempre se enfiar no meio. Mas é assim que a coisa toda faz sentido e fala direto ao nosso peito.

Dito isso, eu não estava preparado para “Paz na terra entre os monstros”. Já tinha lido “Dentes Negros”, do mesmo autor, um livro pós-apocalíptico que se aproxima de “A Estrada” do Cormac McCarthy, no sentido de priorizar o vazio, a solidão e a falta de sentido da porra toda, e também acompanhado o blog (http://vicentemiguel.files.wordpress.com/), em que ele escreve principalmente sobre livros e filmes. Há um estilo no livro e nos textos na internet, que direciona um olhar atento bastante sensível para as coisas do mundo, estilo esse que sempre gostei e acabei me acostumando. “Paz na terra entre os monstros” mantém, é claro, a sensibilidade intensa, só que numa versão bem mais hardcore. É como se Leones chafurdasse o esgoto humano e saísse de lá com uma poesia linda e imunda. A existência aqui é experimentada através de uma intimidade dolorida com a morte, aquilo que nos torna indivíduos surge em forma de desapego ao que amamos ou é expelido através das nossas próprias secreções, feito sobras de solidões líquidas.

É um livro de contos e acho que os personagens não chegam a se repetir (“O castelo”, romance inacabado do Kafka, surge aqui e ali, entre protagonistas que se sentem tão incompletos quanto), mas há um forte diálogo entre temas e ambientes, fazendo com que esses mundos se colidam e formem um só corpo bastante coerente, mesmo mantendo um espírito caótico.

Neste universo criando por André de Leones, tudo é muito sombrio e a vida parece sempre estar há poucos centímetros do abismo. O desencanto corrói aquelas almas e estabelece um desinteresse generalizado em seguir em frente. A garçonete que sabe que vai morrer, o pai sozinho na sala, a garota que sofre abusos, todos eles já atravessaram a linha do limite há muito tempo e é justamente por olharem pra trás que acabam dando o passo à frente, rumo ao nada.

Todas essas histórias vão armando uma arapuca para um leitor dado ao ridículo como eu, pois criam uma ambientação toda melancólica, toda meu-deus-como-essa-vida-é-uma-merda e vão amarrando alguns nós bem marotos ali na garganta. E como se não bastasse o belíssimo conto “Acho que agora não falta ninguém”, sobre um garoto que não consegue sentir nada após a morte do pai, ter me deixar com os olhos de um jeito que fez provavelmente a moça do café pensar que eu tinha acabado de fumar maconha, o livro fecha com a novela “Aneurisma”, um petardo que reúne praticamente toda a dor dos outros contos num só combo de desespero e solidão, com copo tamanho grande.

A história é sobre homem que, por conta de um diagnóstico, sabe que vai morrer — como todos nós, no fim das contas — e passa então a tentar se conectar com o mundo, seja sexualmente (e aí o autor tem a sacada fodona de inserir o tabu que não serve como fuga da realidade, mas como aproximação quase incômoda desta) ou mesmo se aproximando do pai, mas que encontra na literatura meia boca da falecida mãe, os ecos de sua precária existência. Num brevíssimo espaço, autor dá conta de desenvolver todos os personagens de forma densa, bem como o fez, por exemplo, Adriana Lisboa, em seu recente “Hanói” (que trata praticamente do mesmo tema e que possui o selo “um dos romances mais lindos que li recentemente”).

Só que diferentemente do que vemos no trabalho de sua colega, não há nem mesmo pequenos resquícios de luz em “Paz na terra entre os monstros”, pois sob a ótica sombria de André de Leones, o mundo está doente e a esperança saiu para comprar cigarros.

Nota: 4/5


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