3. Agenda

Uma série de cartas

Lu,

Não sei lhe dizer ainda quando consigo te visitar. As coisas por aqui andam corridas e tensas com a crise, estamos sendo cobrados de uma forma atroz e banco de horas virou uma piada que ninguém mais aguenta ouvir. Acho que estamos em caminhos opostos, minha amiga, porque tudo o que eu mais queria agora era trabalhar em casa, com o mínimo contato pessoal possível e de pijamas. Ou como os âncoras de jornais, que só usam roupas de trabalho da cintura para cima. Seria eu, nas ligações com vídeo.

Mas acho que entendo o que você diz, ainda não tenho família como esse outro expediente e sempre que começo a me comprometer com alguém, uma parte do meu tempo vai junto. Eu gosto do compromisso, mas preciso me organizar melhor, de repente é esse o problema, a agenda! Hahaha… me sinto um pouco sozinha às vezes, e você sabe, não estou com ninguém a sério há algum tempo, então aquela companhia com intimidade de verdade está começando a fazer falta, mas isso é também uma conversa para o nosso vinho.

Como vai minha afilhada linda? Sou a madrinha mais relapsa da história, né? Não estou participando do dia a dia de Nanda, eu sei. Mas os dois já estão grandinhos, não? A essa altura João deve ser quase um adolescente. Agora bateu uma saudade danada de vocês. Será que isso é carência, meu deus? Finalmente este tormento se abateu sobre mim? Hahaha… mas sim, quero saber tudo sobre eles e sobre sua mãe, como vai dona Neuza?

Já sei, por que a gente não inverte? Você vem me visitar, deixa as crianças com Mauro ou com sua mãe e passa, nem que seja, um fim de semana comigo? Não precisamos fazer noitadas, mas podemos jantar em um lugar bacana, ir ao cinema, dar uma volta e conversar ou só ficar em casa mesmo, se você preferir. Quero saber de sua vida e aqui será mais fácil falarmos sobre tudo do que aí, com seu pacote completo. Pense nisso e peça um fim de semana de folga, diz que eu estou sofrendo, que não tenho amigos nessa cidade, que preciso da minha melhor amiga, inventa alguma coisa, pode colocar meu nome. Me fale, que adiantarei o tudo por aqui, para ter todo o fim de semana só com você, sem trabalho e sem aqueles happy hour que nem estão tão happy assim. E aí, te conto como estão indo as sessões de psicanálise. Ouvi seu conselho.

Beijos,

Mari.

*A série começa aqui e a próxima carta está aqui.

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Tatiana Reuter Ferreira

Written by

Baiana. Redatora, crítica de cinema, roteirista. Produtora. Scriptwriter, content writer, film critic. Producer. extraforte.net Bookworm | Traveller | Cinephile

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