5. Criando tempo

Uma série de cartas.

Lu,

Que história é essa com Mauro? De repente não é nada mesmo, só cansaço e dia a dia corrido de vocês dois, não? Vai ver vocês precisam daqueles fins de semana de filme, quando o casal consegue uma folga e deixa os filhos com os pais e vão para alguma casa de campo no meio da floresta… tem só é que achar essa casa no meio da floresta e sem ladrões, para ter esse fim de semana romântico no Brasil e não como a maioria dos filmes de terror gringos. Não há de ser nada, mulher.

Me desculpe a demora. Do lado de cá, quem conseguiu a folga fui eu, finalmente e no feriado da Semana Santa. Fugi da selva de pedra fantasiada de natureza que é esse Rio de Janeiro e me escondi na casa de família de um amigo em Friburgo. Não te falei nada, porque precisava desse tempo fora do mundo. Já estava me sentindo toda dormente ou formigando, precisava me afastar um pouco e colocar a vida em perspectiva. Ou só dormir muito,ler meus livros, tomar uns bons vinhos. Em resumo,estou velha. Cheguei naquela idade em que você não aguenta mais ser sociável o tempo inteiro mesmo. Achei que poderia — e talvez possa — ser uma coisa agravada com o trabalho, com o estado atual dele que me impõe um volume absurdo de demandas, além da intensidade de frequência dos relacionamentos corporativos, mas hoje já tenho minhas dúvidas se é só por isso. Passei a faltar os happy hours e as pessoas começaram a notar e a me perguntar se está tudo bem, acredita? Não sei se eu era muito festeira e não percebia, mas hoje vejo as coisas de outra forma, entre o cansaço e talvez até a percepção de um retorno deste compromisso um pouco menor do que o esperado. Enfim. O fato é que estou mais na minha. Acho que preciso dos meus amigos da vida de volta, por que todos vocês foram embora daqui?

Não fico mais preocupada com você com essa história de Mauro, porque sei que não há de ser nada, como já disse. Vocês são o meu casal de referência da vida e acabei de lembrar quando estavam em início de namoro e vocês moravam aqui, lembra? Que ameacei Mauro? Que se ele te magoasse eu ia atrás dele e o mataria ou algo assim? Você não estava na hora, mas imagino que a essa altura, já saiba disso. Claro que rimos, mas o que importa é sempre a ameaça. Se você quiser, quando eu for aí, relembro o rapaz.

Preciso saber mais da sua vida, dona Luisa. Acho que essa história das cartas está abrindo uma nova forma de falar mesmo, não? Eu te falei, na carta há um tempo, uma forma de pensar diferente das mensagens instantâneas e acabamos nos abrindo mais. É minha nova teoria, fortemente embasada em nenhuma pesquisa. Não sei também se chegaremos à profundidade das cartas dos escritores, mas sei que temos muito que contar, isso é uma certeza. E é sempre uma delícia abrir a caixinha de correio e não encontrar apenas contas e propagandas.

Converse com Mauro, espero que a essa altura já estejam resolvidos e você já tenha a data de nosso encontro programada. Pode ser aí em São Paulo, aqui na selva ou em alguma cidade. E aquela nossa promessa da vida, de viagens ao longo do ano, em algum lugar entre nossas capitais? JÁ SEI! Vamos a Paraty? É quase meio do caminho e é deliciosa a cidade. Acho que mais do que o nosso encontro para conversar e beber, precisamos mesmo é fugir da rotina. Vamos? Diga que sim e eu programo tudo. Você só precisará ir. Do lado de cá, vou adiantando a vida e tentarei ganhar um dia para gastar próximo de um fim de semana e criar este feriado para nós. Me fale.

Beijos,

Mari.

*A série começa aqui. Continue lendo aqui.

Café: extra-forte

Contos, crônicas, viagens, café e cinema. A versão medium do blog ❤

Tatiana Reuter Ferreira

Written by

Brazilian film critic, writer and scriptwriter. Producer in real life. English | Português

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