Ajudante de porteiro*

Incomoda. O ajudante do porteiro do prédio ao lado. Talvez seja seu olhar esperançoso ou maníaco simpático sempre me encarando, esteja eu olhando de volta ou não. Com seu olhar apelativo buscando o meu, evocando uma quase compulsória troca e o meu bom dia simpático de sempre, sempre sem vontade de dá-lo por ser obrigatório.

Talvez o problema seja meu. Talvez seja o incômodo da rotina, das mesmas pessoas, dos mesmos olhares ou talvez não, já que gosto do porteiro do meu prédio. O ajudante do porteiro tem um olhar inquisidor. É do tipo que as mulheres temem numa rua deserta à noite e que durante o dia evitam a todo custo. Dá para perceber seu olhar buscando o nosso sorriso insincero e o sentimos continuar assim que passamos por ele, o corpo sendo sugado por qualquer coisa maliciosa escondida na falsa educação. É um misto de apreensão, insegurança e dúvida, já que uma parte de mim tenta enxergar qualquer coisa além de maldade, ao mesmo tempo em que garanto na educação e no sorriso alguma tranquilidade recém adquirida para vencer o dia.

Acredito que sejam pai e filho. O assistente do porteiro, seu olhar e o velho que está sempre ao lado da portaria, sentado em uma cadeira de plástico tão velha quanto ele, tão quebrada também. O filho fica sempre de pé, como se por função devesse recepcionar toda a calçada. Seu uniforme azul envelhecido pelo tempo e água sanitária indicam seu trabalho, mas suas sandálias abertas potencializam meu repúdio. É uma palavra forte, mas não consigo evitar. O velho à sua frente faz parte deste quadro triste: seu olhar não é de recepção ou amizade, mas desconfiado, como se tivéssemos por obrigação passar ali para incomodá-lo, imóvel com sua bengala de um lado, chinelos marrons com meias claras nos pés e uma corcunda que lhe impede de olhar pra cima e inspira pena, não fosse ele tão sério e estranho. Um dia lhe dei bom dia e ele se assustou. Entendi que as pessoas o atravessam, o tomam por invisível, como uma pedra sem função na calçada estreita. Minha vontade é lhe dar uma cadeira que quase não uso em casa, mas não quero participar de sua vida e ter mais uma pessoa para dar um bom dia simpático e obrigatório todas as manhãs.

Não são daqui. Fisicamente há uma discrepância com os nativos, mas seus olhos azuis e sua cor clara quase chegam a confundir, não fosse o porte, a forma de falar e seu pai, a firmar o carimbo de migrante. É nordestino, como grande parte dos porteiros, motoristas de ônibus, taxistas, serventes. Vive no Rio de Janeiro há décadas e isso se vê na familiaridade com que trata seus vizinhos e na forma como se fixa à calçada como um organismo em habitat natural. Veio na onda de imigração de vinte anos atrás quando ainda era novo e seu pai trabalhava como mestre de obras. No tempo em que ainda conversava, mas já aposentado, o pai se encostava a este mesmo lugar e contava a vida pra quem quer que fosse na linha que dividia as duas entradas de um mesmo edifício: a loja de materiais de construção e a portaria.

Não percebeu o tempo passar, não sabia que seria para toda a vida. Sua mulher não existe mais, desistiu da cidade que discrimina quem é diferente e resolveu voltar, ainda tinha família e mesmo que não ficasse rica ou virasse a classe média do sonho da casa própria, teria o mínimo e ninguém riria de sua forma de falar ou a chamaria de ignorante baixinho, quando servisse a mesa do patrão. Ficou pai e filho, porque a escola aqui parecia melhor e ela não tinha nada além de uma promessa de vida sem futuro.

Eles nunca mais voltaram e sabiam por carta quando cada parente morria. Hoje o carteiro só lhes traz as contas do mês.

*Este é um exercício de um curso de escrita criativa. Não termina aqui, mas seria ótimo receber feedback.

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