Avós

Um passeio rápido e feliz sobre quem veio antes, quem já se foi e quem, por sorte nossa, segue com a gente.

Os meus.

Tive um avô Walter que virou filme.

Do pouco que eu sabia dele, investiguei um tanto, inventei o resto e criei um avô só pra mim, mas deixo todo mundo conhecê-lo um pouquinho e tentar descobrir o que poderia ser mentira clicando aí no sublinhado. Garanto: é tudo verdade. De comunista a pesquisador, trabalhou nos Correios, era cinéfilo e ganhou nome de sala na biblioteca municipal de Nazaré das Farinhas, na Bahia. É muita história pro pouco tempo que tivemos.

Eu tive uma vó dentista que sempre quis ser, se formou e nunca exerceu. Trabalhou foi muito educando nove crianças, as tornando todas amigas e bastante próximas por toda a vida. Viveu a glória de uma família abastada à quase falência. Foi casada a vida inteira com meu avô, mas dormiam em quartos separados. Nunca ouvi um palavrão dela e sua letra parecia de professora de caligrafia. A pessoa mais generosa que já conheci na vida. Vó Angélica.

Nós na praia, dez anos atrás

Tive uma bisavó professora de medicina de universidade federal. Ensinava anatomia, a pessoa que mais me impressionou na infância. Stela, como minha mãe. Tinha uma marca que acho que era de nascença no rosto, mas isso só a deixava com mais cara de inteligente e desconfiada. Mas poderia ser também porque ela era independente, morava com uma amiga e adotou seu filho, meu primo.

Tive um avô engenheiro, matemático e professor. Walter também, com sobrenome alemão e pele de índio. Viveu a vida o máximo que pôde com os 9 filhos da avó dentista. Deixou a saudade nos amigos do bar, nas ligações que me fazia sobre cinema, nos exercícios extras dos cadernos de matemática, escritos à mão. Eu roubava banana de sua geladeira, lhe dava sustos atravessando a varanda, comia os salgadinhos de isopor às tardes e sempre quis ver o que tinha em seu cofre que ficava embaixo da televisão, até que um dia ele o abriu e me deu um perfume importado. Foi flagrado por minha tia, que tinha lhe dado o frasco de presente.

Walter, o avô engenheiro

Tive um tio avô que trazia livros para nós de presente, éramos doze netos. Claro que seu nome era algo importante e difícil, como Descartes. Nos ensinou um pouco de inglês e transformava nosso natal em uma festa quase cosmopolita, cheio de histórias de viagens. Mas isso eu também posso ter inventado. Era o fotógrafo da família e tenho várias poses da infância com direito a perninha dobrada e flor na cabeça.

Tive também uma avó extra, emprestada de minhas primas, que pegava de vez em quando pra ganhar abraços. Dona Mariá saía e bebia com as amigas naquela idade que quase ninguém pode comer fritura, sal e açúcar. Viveu uma vida animada e era grande amiga das minhas avós oficiais, mega sena da virada na vida de qualquer um era ver as três juntas conversando sobre vidas passadas.

Natais do tio-avô Dete

Tive um tio avô que se graduou em alguma coisa por ele mesmo, sem estudos oficiais, autodidata. Os natais na casa de tio-vô Dete eram especiais, os netos distribuíam os presentes, guardávamos tudo naquelas sacolas grandes da Mesbla, perfumes, roupas e qualquer coisa, nunca importava muito o que vinha pra gente. Na casa tinha sempre balinhas de amendoim e hortelã e brinquedos para crianças inteligentes que ele colecionava. De minigame àquele de acertar o palito no buraco da bola. Uma das pessoas mais maravilhosas e criativas que conheci. Nunca o vi triste. No máximo meio puto, quando não conseguia falar. Filmava todo mundo.

Tive uma bisavó, olha que sorte, uma mulher linda que também levava o nome de minha mãe — Stela — e elas nem eram da mesma família. Minha vó Stelinha dava colheres de doce de leite cozido na lata quando tinha feijoada e cozido para o jantar semanal. Uma colher pra cada um e pronto. A gente comia bem devagar e sempre tentava pegar mais, mas era a conta certa para toda a família. Na casa dela, que era a casa do tio avô do minigame, tinha moringa, cachorro grande mais barulhento que violento e filtro de barro. E sua risada era quase inaudível, mas constante. Acho que era bem tímida, na verdade.

Tenho uma avó escritora. A esposa do avô que era cinéfilo e virou filme. Vó Lita é nossa rainha, costurou o vestido de casamento de minha mãe, mesmo não sendo ela sua filha. Li seu livro escrito à mão em um caderno pautado de linhas azuis para descobrir uma mulher guerreira e sensível e hoje somos grandes amigas. Vou dar um jeito de publicar e quem sabe transformá-la em filme, para fazer par com meu avô. Sempre que a encontro, fico grudada, perguntando sempre para saber mais, saber tudo desse mistério que é viver os mais de 90 anos de tanta coisa, rindo, chorando e escrevendo. Deve ser a dose diária de café e livros.

Vó Lita e eu nas conversas de outro dia

Sou cinéfila, cineasta, crítica e talvez escritora, se tiver dado a sorte de herdar o talento de um lado da família. Do outro lado, peguei a cor do avô engenheiro, meio índia meio preta e sempre fui boa em matemática. Quem tem um pouco da alegria de viver sua história com quem começou a escrevê-la não precisa de muito mais, já tem o pote de ouro no final do arco-íris. Várias vezes somos como uma família de circo, uma maluquice atrás da outra, problemas equilibrados acima de nossas cabeças, como aqueles malabaristas com seus pratos, pinos e bolas. Como palhaços, rimos das tristezas, choramos nas alegrias. De vez em quando nos estapeamos. Somos mais anormais do que a média, mas não há saída, sou como a criança bem novinha na plateia do circo que não sabe como reagir ao que está à sua frente mas não consegue piscar, maravilhada com as cores, luzes e barulhos. Ela é parte do circo. É filha da bailarina e do equilibrista.

Feliz dia pra quem tem e teve avós tão incríveis quanto todos os meus.