Coisa de mulher

Observações neste dia da mulher sobre o assédio de todos os dias.

Tomei café da manhã com uma das minhas melhores amigas. Conversamos sobre tudo ou quase tudo, expomos nossas opiniões abertamente e hoje, principalmente, sobre o dia da mulher.

Fui fazer as unhas pensando em escrever um texto sobre o assédio nosso do dia a dia, mais especificamente o que acontece nos ambientes de trabalho, em virtude do que ouço de minhas amigas e colegas. Enquanto andava na rua, ouvi o primeiro ´Oi, linda´ do dia, de um senhor qualquer, andando com um saco de pão. Adoro elogios e esse não ofendeu, mas sabemos que a intenção do senhor não era anunciar a minha beleza ao mundo. Somos tão acostumadas a ignorar, ser indiferentes a essas abordagens, que quase passa despercebido, não fosse hoje um dia desses, de ganhar parabéns.

Uma das manicures começou cedo o bordão do feliz dia, somos maravilhosas e eu perguntei às duas que me atendiam, como era a vida delas em casa, se casadas, separadas, se os maridos ajudavam. Uma era casada, feliz, o marido era ótimo, mas agora estava fazendo ‘menos coisas’ em casa. Não era um problema. A outra, recém-separada, estava mais feliz do que nunca. Vivia há quatro anos com o agora ex-marido e resolveu que queria se separar porque tinha conhecido outra pessoa e não queria traí-lo. Ele, por sua vez, havia traído e ela perdoado, vida que segue, mas agora a história era outra. Ela ganhou flores semanas atrás, porque o ex-marido disse ter certeza de que ela voltaria para ele, ainda que ela dissesse o contrário, que eles se amavam e ela estava indignada, porque é um absurdo receber flores de quem você não quer mais ver.

Falei para elas da ideia do texto e essa moça me conta do cliente que chama a manicure de ‘sapequinha’, que fica ‘se coçando’ na frente delas e a ‘sapequinha’ não sabe como agir. Foi uma ocasião, mas o cliente é frequente. Contei de quando trabalhava como estagiária na videolocadora e, enquanto limpava a seção de eróticos, os clientes vinham me pedir indicações de filmes do gênero. Em vez de botar o cara para fora, pedia que aguardasse um instante, chamava o segurança e sugeria que ele, então, lhe indicasse os filmes.

Há um sujeito no trabalho da minha amiga, essa do café da manhã, que lhe perguntou ‘como você não me informou que era casada’ e ela rebateu dizendo que não lhe devia satisfações sobre sua vida, numa placidez de quem não se sente intimidada. Tenho outra amiga que é assediada moralmente no trabalho; namora um rapaz de outro setor e se anunciou que ela fica entre escadas e corredores com ele. Há a amiga que mora em Buenos Aires e me fala com uma frequência absurda os casos em que as mulheres são reduzidas a nada em seu trabalho, abertamente adjetivadas de burras, levando gritos, ouvindo piadas sobre seus salários, inclusive. Há aqueles homens, como alguns que conheço, que acham que não merecemos ganhar o mesmo que eles porque ficamos sem trabalhar no pós-parto, porque menstruamos e quando passamos mal, tiramos um dia. À medida que penso no assunto e recebo a enxurrada de feliz dia da mulher, vem o contraponto: as manifestações feministas, as lutas pelos nossos direitos e as denúncias de assédios, em casa, no trabalho, nas ruas.

A amiga do café da manhã é doutoranda em direito e ouve na universidade federal, muitos ‘você está bonita hoje’ e poucos, ‘li seu artigo’. Gostaria de saber quantas vezes os homens ouvem das mulheres este mesmo ‘você está bonito hoje’, em contraposição às discussões sobre seus trabalhos publicados.

Duas noites atrás saí com outra amiga que não vejo há tempos. Fomos assistir ao documentário ‘Eu não sou seu negro’ e lá vi o escritor James Baldwin, em toda a sua grandeza, falando sobre a questão racial norte americana e seus mártires mais conhecidos. Ele dizia que “‘branco’ é metáfora para poder”. Se colocarmos ‘homem’ à frente desse branco, fica ainda mais evidente e engloba muitas questões em uma só. ‘Branco’ é metáfora para o poder racial, da mesma forma que ‘homem’ se quer como metáfora para poder social. É daí que surgem os assédios, tanto da necessidade de autoafirmação — a partir do momento em que você assedia, você se coloca acima do assediado — quanto da manutenção desse status.

E aí eu penso que há trabalhos e trabalhos. E deve haver lugares em que nada disso acontece. Em que a babá e a empregada doméstica não são assediadas, em que a enfermeira não ouve ‘gracinhas’ de pacientes e médicos e que, a caminho do trabalho, não se precise desviar dos olhares do porteiro do prédio vizinho com seu bom dia de sempre. Em que um ator que assedia as colegas no trabalho, moral e sexualmente e as constrange, não ganhe o maior prêmio da indústria. Em que uma atriz não se sinta violada por um desejo de um diretor de dar mais realismo a uma cena de violação e a avise com antecedência dos atos do ator com quem contracenará. Em que essa mesma atriz que sentiu violada seja finalmente ouvida a tempo e que o caso não espere uma entrevista do diretor assumindo o fato muitos anos depois. Em que, cada vez que eu pergunte às mulheres que cruzam o meu caminho se já foram assediadas em seu trabalho, ouça histórias horrendas e de como isso é unânime. Não só absolutamente todas as que eu conheço foram assediadas, como conhecem outras tantas que viveram o mesmo ou pior.

E esse é um texto sobre assédio, para esse dia, para todos os dias. Mas poderia também ser sobre nosso direito de viver, ter autonomia sobre nossos corpos, ter nosso salário equiparado aos dos homens. Poderia ser sobre mães que são também pais, sobre mulheres sem voz em países que promovem a manutenção de sua desumanização, sua objetificação justificada sempre na cultura e tradição, como motivos para mantê-las assim. Poderia ser sobre um goleiro acusado de matar sua ex-namorada, esquartejá-la, jogá-la aos cães, e que responde ao processo em liberdade, recebendo nove propostas de trabalho e carinho dos fãs. Poderia ser um texto sobre clitóris extirpados, úteros perfurados, casamentos infantis. Poderia ser sobre nosso direito de falar sem sermos interrompidas. Poderia ser sobre nosso direito de dizer não. E de dizer sim. Poderia ser, por fim, sobre a necessidade de explicar nossa posição enquanto feministas e em como é importante justificar o óbvio. Mas esse último é o menor dos nossos problemas.

Talvez justificando o óbvio, as nossas condições melhorem. Talvez a gente morra menos. Talvez sejamos menos estupradas, esquartejadas, espancadas, queimadas, empaladas, mutiladas. Talvez, com sorte, menos assediadas. Talvez até consigamos andar naquela rua escura e vazia sem medo de estarmos sozinhas ou de encontrarmos alguém. Talvez, daqui a quarenta anos falemos sobre como nossos salários eram diferentes e que absurdo isso era. Mas hoje é só sobre assédio.

É só coisa de mulher.

#niunamenos #coisademulher #diadamulher #viajosola #viajosozinha #womensday #feminismo