Hoje é aniversário de sua irmã. Elas não moram na mesma cidade e mesmo que morassem, não iriam se encontrar. Mentira: sua mãe ia fazer um bolo, parabéns pra você, muitos anos de vida, beijos e abraços, porque sim. Agora, sua irmã fica mais velha. Um mês atrás, tinham a mesma idade.

Clara não vai ligar. Ela quer reforçar sua ausência, para que sua irmã lembre tudo o que elas deixaram de ser, a cumplicidade que já tiveram, a intimidade, aquele laço exclusivo de amigas-irmãs que um dia elas se orgulharam de ter. Hoje à noite, ela vai sair.

Paula espera que Clara ligue, entre outras coisas. Ela está triste, mas tem bolo, sua mãe está ali. Outro ano se foi sem grandes novidades e conquistas, um novo ano chega para se repetir, ao invés de viver.

Clara mora em outra cidade, outra vida, outros amigos, outro tempo. Ela não sabe que Paula ainda sente falta do pai. Clara é do segundo casamento da mãe, mas isso não impediu a união entre as irmãs; era como se fossem uma, unha e carne desde a adolescência, colegas de sala na escola, dividindo o quarto em casa. O pai de Paula morreu três anos atrás e eles não eram próximos, mas se falaram com alguma frequência nos últimos anos. Paula não foi ao enterro, mas Clara foi, na esperança de encontrar a irmã. Ela encontrou sua mãe no lugar, chorando em silêncio, afastada da cerimônia. O pai não conseguia viver em paz com todas as coisas que definiam Paula como única e diferente das pessoas comuns e entediantes daquela cidade pequena. Ele não lembrava que também era diferente quando jovem: teve um caso com a mãe das meninas e virou atração de circo, fofoca da cidade, escândalo do ano. Mas, é disso que as cidades pequenas são feitas.

Paula não se incomoda com fofocas. Ela só quer viver em paz e encontrar uma forma de sair dali, mas algo a impede, não sabe bem o quê. Não consegue definir se é a mãe que deixaria para trás — apesar de já viverem em casas distintas — se é a própria cidade que, mesmo pequena, entende como sua ou se é simplesmente o trabalho que a suga durante o dia e à noite ela chega tão exausta, que sequer consegue pensar. E assim os dias passam. Talvez seja tudo junto. Agora ela come bolo e sorri na casa da mãe, mas, por dentro, só quer que esse dia acabe. Ela espera.

Ela vai embora.

Meia noite. Quilômetros distante de casa, Clara está em um bar. É aniversário de um conhecido, parabéns pra você, muitos anos de vida, beijos e abraços. Ela come bolo e sorri. Todo mundo está feliz, ela se diverte. Clara sente falta da irmã, como uma fisgada que aperta no peito. Ela sente falta daquela amiga que só ela tem, de seus segredos, confissões íntimas bem guardadas. Ela sente falta da alegria, aquela que apenas duas pessoas no mundo inteiro conhecem e compartilham; piadas internas que só elas entendem. Até em silêncio.

Ela vai embora.

Café: extra-forte

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Tatiana Reuter Ferreira

Written by

Brazilian film critic, writer and scriptwriter. Producer in real life. English | Português

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