Islândia

Uma pequena história sobre despedida e decisão.

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— Oi… posso sentar aqui?

Disse que sim e tirei a bolsa de cima da cadeira. Acostumado a levar um livro e caderno, acabo sempre andando com uma bolsa, como se fosse um professor, mas não sei se teria paciência para isso.

Ela trazia um cappuccino com mais canela do que eu colocaria. Seus movimentos eram suaves, tranquilos, mas no rosto carregava uma expressão que eu não conseguia definir se era tensão ou tristeza, acrescida dessa calma em que já não existe desespero ou qualquer sinal de angústia. Continuei como estava, mas agora não poderia observar o ambiente, seria estranho com alguém sentado à minha frente. Decidi escrever ou fazer de conta, o caderno já estava aberto. Fingi rabiscar algo enquanto ela se acomodava, saíram palavras soltas, ainda sem conexão.

Ela trazia muitas coisas: um livro cujo título não conseguia ver, com marcador no meio, um cachecol vinho, fino, aberto e com franjas, meio solto no pescoço, uma bolsa grande marrom, o celular. Não sei como se equilibrava entre seus objetos e o fazia de forma meio desajeitada, mas parecia ser uma confusão frequente. De calça escura, blusa branca e jaqueta aberta, óculos de grau nos olhos com aro quadrado e cabelos tão desarrumados quanto o resto da cena, era uma moça de seus trinta e qualquer coisa que parecia estar sempre em cima da hora para um compromisso. Mesmo em uma manhã de sábado.

— Júlia, prazer. Como é seu nome mesmo? — Tirou a jaqueta, colocou no encosto da cadeira de madeira escura, a bolsa pendurada, manteve o cachecol. Respirou fundo, quase como um suspiro, quando finalmente se organizou.

— Pedro.

A movimentação dessa moça desconhecida contrastava com a minha imobilidade, sentado em uma cadeira, gastando tempo com a vida alheia, observando. De repente me senti velho e os senhores que jogam xadrez e dama nas praças do bairro vieram à minha mente, assim como as senhoras que tomam sol levadas por seus acompanhantes em cadeiras de rodas. Esse pensamento me incomodou um pouco — mais pelas senhoras do que pelos homens, animados, entre a gritaria das peças de dama ou o silêncio marcado pelo tempo do xadrez. Era um exagero, entre eu e Júlia haveria, no máximo, dez anos de diferença. Arrumei-me na cadeira, como quem busca uma posição mais correta, ainda que menos confortável.

A cafeteria não é meu escritório, apareço por aqui nos finais de semana, quando o trabalho, que me toma quarenta horas semanais, acaba. É pequena e, como tudo no bairro, tem mais de vinte anos e poucos funcionários, a maioria com algum tempo de casa. Não conheço todos, mas converso com alguns de vez em quando. Venho para tomar um café expresso ou duplo, a depender do que me aconteceu na semana, do estresse acumulado. Hoje é um dia de expresso, mesmo sem pressa.

— Posso conversar com você? — Ela me perguntou meio tímida, mas decidida, olhando para a xícara grande ainda com o leite em espuma pincelado de marrom, e para mim, direto nos olhos, me fazendo baixar os meus. Uma amiga me disse que no Chile, quando um homem tira uma mulher para dançar, a encara até que ela responda à altura, então ele baixa os olhos como o início de um jogo de sedução. Os homens lá não conseguem sustentar um olhar, ficam inseguros.

— Claro, mas… — e no que eu ia perguntar se havia algum assunto em particular, fui interrompido novamente.

— Eu sei que você está sempre aqui, fica observando as pessoas… eu faço um pouco disso também, mas hoje tenho uma história para contar… é para isso que você vem, não? Para ver e ouvir histórias?

Ela era imperativa. Falava com o olhar, com um jeito decidido e suave ao mesmo tempo, que me obrigava a aceitar o que quer que fosse, ainda que eu o fizesse por vontade própria. Seu sotaque soava firme, mas delicado, não criando uma imagem automática que remetia ao Nordeste dos estereótipos, mas as pinceladas da entonação e os verbos diretos acentuavam nossas diferenças.

— Normalmente eu vejo mais do que ouço, minhas conversas são com o pessoal do balcão, mas não passam muito de assuntos do dia a dia, política, notícias, esse pacote básico.

— Posso te contar algo diferente então? Como um bônus… um extra do pacote?

— Por favor, seria uma honra. — E sorri. Mas também pensei que poderia ser um suplício, se a narradora não fosse das melhores. Estava intrigado e nada de muito surpreendente acontecia em minha vida. E também não tinha compromisso para as próximas horas.

— Hoje é meu último dia na cidade. — Assim começou falando, enquanto guardava o livro na bolsa, mas mantinha o celular na mesa virado para baixo, como se precisasse estar conectada ao mesmo tempo em que não queria se distrair com aquilo. — Amanhã de manhã pego o primeiro voo para a Islândia.

Eu conhecia pouco sobre a Islândia, sabia ser um dos melhores países para viver. Sabia que o ensino superior era gratuito e de qualidade e é claro, que os índices de criminalidade não chegavam nem perto do que vivíamos no Brasil. Ainda assim, me surpreendeu, esperava algo mais padrão, Barcelona, Paris, Londres, Berlim.

— Na Islândia há uma casa me esperando, um mestrado, uma vida tranquila. — Disse quase se justificando, como se precisasse falar aquilo para si mesma. Como se já fizesse isso há um tempo, de frente para um espelho.

— E ainda tem o fato de você ser mulher, lá a equidade de gênero é a mais próxima neste globo. — E me senti citando uma reportagem ruim, depois dessa equidade. — Desculpe, continue.

— Eu sei, é um dos motivos. Quero entender o que é viver em um país assim. Vamos ver o que acontece. Mas não vim falar sobre a Islândia. Você pode escrever, se quiser. — Ela disse, quando me viu rabiscando Islândia.

— Não precisa, só achei a escolha interessante. — E fechei o caderno, marcando a página com a caneta.

Júlia se recostou na cadeira, como quem começa a relaxar. Mexia o cappuccino, deixando esfriar o suficiente para não queimar a língua.

— Demorei a gostar daqui. — Disse devagar. — Essa cidade não é fácil.

Acostumado às declarações de amor exageradas sobre a cidade maravilhosa, terra de festa, cerveja, sol e carnaval, foi bom ouvir algo diferente em um fim de semana de frente fria. Começava a chover. Agora ela tinha a minha atenção. Ela sabia que eu era carioca, eu sabia que ela não era.

— Você sempre toma cappuccinos aqui?

— Costumo tomar café preto mesmo, hoje me deu vontade de cappuccino… adoro o gosto da canela na mistura de café com leite.

— Gosto de café preto também e o daqui é especial. Por que o Rio de Janeiro? — levantei a mão em busca de Marcela, a garçonete, para mais um expresso e uma água com gás. — Quer alguma coisa?

— Biscoitos, se eles tiverem, obrigada. O Rio de Janeiro foi uma indicação para um curso, vim de primeira e já para a vida, com uma mala de sapatos e outra de roupas. Alguns livros na mochila. Problema foi essa saída agora, com poucos sapatos, uma estante imensa e a dor do desapego. — Sorriu. — Doei muitos livros, enviei algumas caixas para a casa dos meus pais.

Pedi café, biscoitos, água com gás, ela ficou calada, esperando Marcela voltar. Não demorou muito, a garçonete olhou para nós dois e trouxe tudo, talvez quisesse saber do que falávamos, já que era a primeira vez que alguém vinha à minha mesa. Sorriu cúmplice e curiosa para mim, retribuí discretamente, como quem diz ‘vai trabalhar’. Marcela saiu de cena, mas ficou de olho lá do balcão e, ainda que não comentasse nada com ninguém, parecia feliz em me ver conversando com aquela moça.

Semanas depois eu descobriria mais. Marcela me puxaria para conversar e diria que conhecia Júlia e achava que ela também era mais sozinha do que precisava. ‘Mais sozinha do que precisava’ foi a frase que ficou em mim, como quando um psicanalista interrompe a sessão para que você guarde na memória o que ele considerou relevante. Gostei de perceber que Marcela era uma observadora de peso, ela tinha uma sagacidade, uma agilidade no espírito e isso era óbvio nela, talvez por ser mais jovem. Havia esse outro lado nela que agora me parecia novo ou que não havia notado antes, de que só quem aprecia a calma consegue parar e observar o outro em detalhe.

Júlia me contou que estava passeando pelos lugares que mais gostava na cidade, mas sabia que não conseguiria ir a todos. Como eu, era viciada em café, morava perto e adorava essa cafeteria, que em si, não aparentava ser grande coisa, mas tinha seu charme. Disse que morava no Rio havia oito anos e que, quando chegou, não esperava passar mais do que dois. Não via a cidade como um lugar para morar e criar uma família, gostava, mas não se identificava a esse ponto. Agora também não encontrava em Salvador esse pouso definitivo como sempre havia imaginado, como o retorno final de uma migração. Achava que iria acontecer, mas esse tempo ainda não havia chegado. Salvador remetia a um passado tranquilo, mas a cidade tinha uma dificuldade de crescimento, de oferecer boas oportunidades profissionais e seus laços familiares seguiriam firmes aonde quer que ela fosse. A volta poderia esperar.

Viveu esse contraste de deslocamento e permanência em quase todos esses anos, chamando tanto Salvador quanto o Rio de Janeiro de casa, sem concordar com nenhum, como se precisasse falar dessa forma para não ofender ninguém, nem a ela mesma. Hoje é ‘a casa dos pais’ e ‘o Rio de Janeiro’, já que não mora mais aqui, pelo menos em pensamento.

— Logo que cheguei, tinha essa ideia de que o Rio era como São Paulo, só que com mar. — E riu.

Ri junto, porque era uma frase de alguém que não tinha a menor ideia do que estava falando.

— Quase me arrependi de ter vindo, quando vi que a cidade se parecia até mais com Salvador e isso nos aspectos ruins. Acabei a identificando com o que há de pior, as informalidades, uma intimidade imposta com quem não se conhece, os jeitinhos ou as pequenas corrupções do cotidiano de quem precisa chegar primeiro em algum lugar por atalhos tortos, cortando o caminho dos outros, passando por cima — não é à toa que o trânsito da cidade seja tão agressivo. Foi difícil, mas nunca quis ir para São Paulo, a segunda opção para quem tem essa agonia de viajar, trabalhar, crescer. Nunca levei a ideia a sério porque não sei se conseguiria viver sem mar. É tudo meio, sempre, sem horizonte. Na Islândia, pelo menos, isso não vai me faltar. E sim, eu sei, não dá pra mergulhar. Não se pode ter tudo. — Sorriu e continuou:

— Depois das primeiras impressões sobre o Rio, fui me adaptando, consegui me espalhar por aqui, conheci gente interessante e nem mencionei aquela ideia de São Paulo aos cariocas, depois que eu soube dessa briga besta entre as capitais. Nunca entendi muito bem essas rivalidades construídas sobre vaidade. E essa frase não saiu solta, te garanto, pensei um pouco sobre isso. — Sorriu novamente e pude vê-la se soltando ao tempo em que mexia no cabelo, indecisa se fazia um rabo de cavalo, um coque ou deixava todo de um lado do rosto. Ela sabia do que falava, agora já tinha a cidade na palma da mão. — É como Brasil e Argentina. E olha que namorei um argentino que é um amigo até hoje. Estou me perdendo.

Deixei-a falando, eu só aparecia aqui e ali para uma observação, um comentário de quem ouve uma boa história — tinha dado sorte. Júlia viveu romances bons e ruins, internacionais, locais, à distância. Todas as opções de uma vida jovem que não se casou. Namorou menos do que quis, nunca soube bem porque, mas não se arrepende.

Viveu a cidade com vontade. Beijou a estátua de Carlos Drummond de Andrade mais de uma vez, seu vizinho de bairro. Conversava com ele da janela do prédio em uma distância enorme e ficava com pena dele, sozinho no banquinho do calçadão em dias frios como esse. Pegou van na Lapa de madrugada, gritando os nomes dos bairros a cada parada para pegar mais gente no caminho, subiu a pé até Santa Teresa. Teve amnésia alcoólica em um Réveillon de Copacabana, correu da polícia em uma manifestação política na Estação Central do Brasil. Era frequente na Praça São Salvador, muito mais por adorar o nome do que a praça em si. Dançou no baile Charme no Centro quando tudo era seguro e parecia a Suíça, de tão tranquilo — era Copa do Mundo. Atravessou tiroteio em ônibus, foi assaltada uma vez à faca por dois garotos com metade de sua idade e outra com arma na cabeça, por dois motociclistas no final de um dia de trabalho, o último neste ano. Odiou muito a cidade, muitas vezes.

— Mas eu não sei… tem alguma coisa aqui. Não é como Salvador, onde nasci e fui criada. Salvador tem um amor no sangue, inexplicável, dessas coisas entranhadas na carne, como dendê e pimenta, como costumamos dizer. Cheguei já criada ao Rio de Janeiro, assim, crescida. Ainda era uma menina, mas não era adolescente mais, entende? Não me achava uma mulher formada e também não consegui me apaixonar cegamente por aqui, assim, de cara, como todo mundo diz. Mas hoje eu gosto e sei que vou sentir falta.

Eu concordava com ela, imagino que ela encontrava defeitos em Salvador também, mas era terra natal e isso ninguém tira, não há como mexer, comparar.

Olhei de relance para a cafeteria e notei pela primeira vez que o tempo tinha passado. A chuva estava mais fraca do lado de fora, pessoas já entravam sem guarda-chuvas, outras tinham ido embora. Até Marcela tinha desistido de prestar atenção, sabia que eu voltaria depois, talvez amanhã ou no próximo sábado e poderia esperar para matar sua curiosidade com aquelas perguntas descabidas e indiscretas. A garçonete costumava cortar os longos silêncios, sobras de assuntos acabados assim, como quem tem pressa em saber qualquer coisa e não suporta tempos mortos em sua rotina.

— Sabe o que me doeu no coração? Quando eu realmente vi que gostava daqui? Arrumei um trabalho do outro lado da cidade, na Barra, e tinha aquelas duas opções de caminho, atravessando o túnel que desembocava na Rocinha ou contornando o Vidigal. Sempre preferi o segundo, porque não tem nada de muito bonito pelo outro caminho, é uma avenida sem graça, mas ali tinha o mar todo da janela do ônibus, mesmo que demorasse mais um pouco para chegar. Logo antes da descida do morro do Vidigal, há uma curva aberta e olhando para baixo, vemos o paredão que nos sustenta com uma inclinação que se projeta para o mar, quase sem pedras na base, então as ondas batem com tudo, mas sobem e descem lambendo a encosta. É sensual até… — E ficou calada, como se tivesse dito algo sem pensar. — Não me lembro de ter contado para outra pessoa… Sensual… Não sei se você já percebeu essa quina, mas para mim, é o lugar mais bonito da cidade. Se você tiver a sorte de passar pela avenida em um dia de ressaca do mar, dá uma olhada. Sempre quis parar ali para ver um pouco, até que construíram aquela pista horrorosa de ciclismo. Cortaram a minha vista, quase chorei.

E foi bem naquele pedaço… sabia do que ela falava, porque ali, justamente, houve um acidente em dia de ressaca e a pista de ciclismo, novinha — que achei ter sido uma boa ideia para a cidade — ruiu, matando quem passava na hora.

— Sim, é bem no local do acidente. — Ela me leu instantaneamente. — Tento não me lembrar dele.

Ela não era uma pessoa de grandes gestos, mas falava um pouco com as mãos. Também não falava alto e parecia se incomodar com barulho. Às vezes a máquina do café, a porta ou o arrastar de uma cadeira a interrompia e ela não se irritava, só se perdia um pouco, como se estivesse andando distraída, alguém esbarrasse e ela esquecesse o rumo por uns instantes. Agora tomava um pouco do cappuccino, já devia estar quase frio, pelo tempo.

— Preciso ir embora daqui a pouco. Tenho que andar pelo calçadão, aproveitar que parou de chover, ia passar o dia sem fazer isso se continuasse aquele toró.

Olhou para o celular pela primeira vez. Essa interrupção me doeu um pouco, esperava ter mais tempo, ela já tinha me ganhado, queria viver a história dessa menina que ia morar sozinha em um dos lugares mais frios de que se tem notícia e, ainda por cima, vindo de uma terra sempre quente. Mesmo com todos aqueles adjetivos, todos os motivos, a Islândia não seria fácil.

— Se você quiser dar essa volta comigo, podemos ir juntos e de repente lhe conto mais.

— Se você não se incomodar, seria ótimo. — Olhei para Marcela, que passava por perto com uma bandeja cheia de xícaras e pratos sujos. Não me viu. Esperei ela se virar, já no balcão e fiz o gesto de quem pede a conta. Sorriu e assentiu, agora com uma olhar tranquilo e seguro, como se alguém tivesse te contado uma boa notícia.

— Pedi a conta, se você não tem mais tempo.

— Obrigada. Resolvi te contar porque gosto da cidade e agora não consigo dizer muito… talvez seja mais fácil dizer as coisas do entorno… de como eu decidi ir embora. — Ela parecia perdida, como se não soubesse como continuar e vi que não havia nada construído, nenhum texto pronto e isso me deu um alívio, nunca quis ser relator de biografias.

— Podemos conversar sobre outras coisas, não tem problema. — E como se não me ouvisse, seguiu falando, enquanto pagávamos a conta que fez questão de dividir, por mais que eu insistisse no contrário.

— Viajei anos atrás a Buenos Aires. Conhecia a cidade pelos outros, muitos amigos já tinham ido pra lá. Estava tudo muito barato, ainda éramos o país rico da América Latina, depois da crise deles, antes da nossa. Entrei em uma loja dessas de design, com um mundo de coisas bonitas e assinadas por pessoas que eu não conhecia e saí de lá com um abajur vermelho que imitava rosas em fitas de cetim e um caderno de cartas, cujo título era letters for your future self. Era em inglês mesmo e achei a ideia divertida. Não me aguentei quando voltei e escrevi logo a primeira de uma só vez e sem rascunhos, sem saber se suportaria a curiosidade de esperar dois anos para abri-la, mas depois me esquecendo de sua existência e conteúdo. Hoje o tempo passa mais rápido, né?

Saímos do café, ainda ventava, mas sem chuva. O céu estava carregado, prestes a desabar, mas ela parecia não ver aquelas nuvens quase pretas ou não se importar. Não tinha tempo para essas dúvidas e caminhava para o semáforo, com a certeza de que eu a acompanharia, ainda que aquele tempo aconselhasse outra coisa.

Continuou de onde parou, me disse que na época estava chateada com o Rio de Janeiro, que não conseguia se relacionar com as pessoas da cidade, que os envolvimentos amorosos eram rasos, superficiais como uma vida de propaganda e a cidade realmente sempre foi voltada para a televisão, o que acabava distorcendo as reais imagens das pessoas. Reais imagens das pessoas… as pessoas em si. Talvez estejamos contaminados por isso, pela mídia o tempo inteiro, por notícias irrelevantes sobre a privacidade de qualquer pessoa supostamente interessante. E ela reconstituía as frases de sua carta com um ímpeto quase teatral, estava se divertindo, como se uma pessoa mais jovem e idealista tivesse mais certezas do que ela, como se estivesse lendo uma carta de outra pessoa. Ela dizia que queria ir embora, para um lugar tranquilo, que a vida real fosse mais importante do que o que se criava sobre ela, que o dia a dia banal não fosse noticiado, mas que as notícias fossem tão relevantes e fundamentais quanto o café preto antes de sair de casa, de manhã. E seguia escrevendo, ela me dizia, de que não aguentava mais o calor do verão, mesmo amando a primavera e que esperava que, em dois anos, estivesse pronta para sair, se tudo estivesse na mesma.

— E assim, me lancei ao desafio. Ri muito no início da carta, quando comecei a ler, porque eu estava muito indignada, de coração partido por um rapaz e de saco cheio da cidade, do meu trabalho, de tudo. Na carta, eu me recusava a ser acomodada, mas o tempo passou e foi exatamente isso o que aconteceu. Às vezes eu achava que estava mais velha e com isso, mais tranquila, mas aquilo mexeu comigo. Mesmo mais velha. Estava acomodada e sabia que era isso, até na terapia eu falei. E então decidi. E me propus a qualquer coisa. Não queria ser vítima de bala perdida, virar estatística nem ouvir mais tiroteios, não queria essa vida de saber nomes de subcelebridades, não queria ir ao trabalho — já não queria há um tempo e isso ficou ainda mais forte — e era tão interessante e imperativo isso tudo que, sem saber, já tinha feito uma economia. Encontrei um curso, me inscrevi ano passado. E amanhã: Islândia. Tudo por causa da carta.

Entendi que ela, na verdade, não tinha nada programado, não tinha se preparado para isso e por isso repetia para si, todas as manhãs, que a Islândia era um lugar melhor para viver. E daí que fosse fazer frio? Ela compraria casacos, cafés, vodca e até aprenderia a gostar de uísque e chá, as bebidas que mais odiava na vida — além de leite puro e açaí, essas eram impossíveis. E daí que as comidas eram bizarras e assustadoras? Em qualquer lugar teria café, teria pão, queijo, frutas. Ela daria seu jeito, mas não comeria cavalo, golfinho e baleias, ah não, isso não. E daí que era longe de tudo? O problema era chegar e sair. Odiava avião, mas eram momentos, aqueles iniciais, até o sono pesado que ela nunca soube de onde vinha, se apoderar mais uma vez e ela apagar, vencendo com preguiça, o medo.

Já não sei mais se isso tudo eram reflexões dela ou minhas, se eram todas perguntas que eu não teria coragem de lhe fazer, para não deixá-la ainda mais confusa — agora não tinha mais jeito. Percebi assim, que mesmo sem calcular e sem certeza, ela era como eu, pesava prós e contras, até que se cansava e, por fim, decidia. Era nesse verbo final que residia nossa diferença fundamental e que ela ganhava um novo admirador.

— Chega uma hora em que é preciso parar de pensar, de calcular. — Disse e mais uma vez ela parecia ouvir meu pensamento. — Se eu acreditasse em signos, assim, de verdade, deveria mergulhar no meu próprio e viver um tanto só de emoções, me deixar levar pela correnteza, como já fiz em relacionamentos. Mas nunca dá muito certo né? É preciso ser um pouco racional, mas só um pouco, na medida do mínimo. Senão, não saímos do lugar, afogamos a coragem.

E então ela sorriu de forma diferente. Sorriu como quem tem certeza de que está fazendo a coisa certa, por mais clichê e duvidosa que pareça. Sorriu como quem encontrou um destino, como quem esperava algo, como quem tinha se decidido por mais uma aventura. Só se vive uma vez e me martirizo por mais essa frase conhecida. Escrever é difícil. E, como se não bastassem todos os clichês já ditos, recomeçava a chover. Estávamos na orla, caminhando pelo calçadão de Copacabana e ventava. Era uma chuva fina, fria, do tipo que molha devagar. Sabia que ela iria embora, não poderíamos ficar na chuva a esmo, quando todos abriam seus guarda-chuvas e seguiam, cada vez mais rápido, para o outro lado da avenida. Paramos.

— Boa sorte. Vai dar tudo certo. — Disse, sem saber o que dizer e lhe estendi a mão, não éramos íntimos, sequer nos conhecíamos.

— Vai sim. Até mais. Vou sentir falta disso. — E me abraçou. Saiu como esses abraços desajeitados, quando um não espera e é pego de surpresa, uma mão fica no meio do caminho, quando deveria chegar às costas do outro e encontra a barriga no lugar. Foi engraçado, mas não rimos. Ela se desfez do abraço e se enrolou no cachecol, fechou a jaqueta e seguiu andando pela orla, quando eu achava que atravessaria a rua. Fiquei parado, sem entender. Ela parou mais à frente, como se lembrasse de algo e pegou um guarda-chuva rosa na bolsa. Olhou para trás e sorriu ao me ver, como se tivesse certeza da minha presença ali, a mesma certeza que tinha quando saímos do café, agora aguardando o sinal abrir. — Preciso me acostumar a isso, não? — Falou pra mim, um pouco mais alto, já que agora estava mais distante. Concordei com a cabeça e ela seguiu andando, sem pressa em direção ao final da praia.

Na verdade eu estava enganado. Não era tensão ou tristeza. Era saudade. Respirei fundo. Atravessei a rua quando o sinal abriu. Agora chovia mais forte, como antes. Um ônibus freou em cima da faixa de pedestres e o barulho me distraiu mais do que o susto. Estanquei como quem perde o rumo por um momento. Olhei na direção que Júlia seguia e acompanhei, ao longe, um guarda-chuva rosa que já não olhava pra trás e se confundia com outros, todos mais escuros. Sorri e apressei o passo para não perder o sinal.