Takotsubo*

Fiquei um tempo sem saber qual era o nome da flor que se forma a partir de um monte de fiozinhos bem finos e brancos, como linhas de algodão, pétalas leves que com um sopro fraco de vento se desfaz, cada vez um pouco mais. A angústia do dia é essa; ter ao meu lado, atravessando um corredor, uma de minhas referências de vida, que agora segue com o coração partido.

Tudo o que se precisa para causar um estrago é de uma emoção forte e um coração sensível. Um estresse, um sofrimento qualquer e ele se rompe, esse órgão que nos permite viver amando e nada mais. É mais literal do que poética, por mais romântica que seja a expressão da síndrome.

Um susto e um sopro forte levaram parte deste dente de leão. Um grande nome para algo tão sensível. Agora a mantemos com cuidado, como se estivesse em uma redoma de vidro, na esperança de protegê-la das intempéries. As naturezas que a cercam são instáveis; há as suaves brisas da manhã, como há relâmpagos cortando céus e mares com seus trovões ruidosos. Ela não tem medo da chuva e seus escândalos, mas de se deixar alagar por aí. Seu coração ambiciona o oceano que não consegue mais encontrar, então se deixa transbordar em páginas de um caderno-livro de memórias, dos mais bonitos já desenhados. Sua caligrafia carrega mais do que letras postas de qualquer jeito. É tudo poesia no seu dia a dia quase centenário e quem a lê, vê parte do seu coração, mas pouca gente o entende.

Minha aflição combina com a dela. Não sabemos o dia de amanhã e ela dorme no quarto em frente enquanto tento ouvir sua respiração, ansiando por um ronco, desses que atrapalham um sono leve. Agora eles me embalam na certeza de um sono profundo, tranquilo e reparador. Mas, não sabemos nada. Enquanto ela dorme, lembro nossas conversas de hoje, de ontem, de dias muito longos para tanto suspense. Seguimos nos controlando demais e em algum momento explodiremos, seremos mil fragmentos e compartilhar o que quer que saia de nós, entre gargalhadas e lágrimas, será como montar mil peças de um quebra-cabeça indecifrável.

Não sei o que vai ser dessa flor, tento manter a redoma firme, mas o vidro é muito fino. Não consigo protegê-la de tudo e não tenho idade e sabedoria para isso. Meus argumentos mais inconscientes, menos verbais me tomam e tento abraça-la com plumas, porque até o gesto pode pesar demais. Irei atrás das pétalas perdidas e tentarei reunir tudo em vão, correndo o risco de entorta-la com o peso da cola em um caule tão leve quanto o ar. Cada fragmento é quase antigravitacional. É preciso aceitar um desfecho, qualquer que seja, e entender o pior, de uma só vez; não dominamos as incertezas. A ansiedade não nos programa ou defende do fato. O cuidado e carinho são as ferramentas necessárias a qualquer destino. Esperemos apenas que a redoma garanta, ao menos por um tempo ou até amanhã, o alívio da segurança e uma tranquilidade transitória para esta flor tão delicada quanto a força de seu nome.

*Takotsubo ou Síndrome do Coração Partido é uma doença causada por estresse ou grande sofrimento emocional, que enfraquece de forma repentina e temporária o músculo do coração. O termo em japonês refere-se a um recipiente utilizado para a pesca de polvos, por conta da similaridade com o formato em que o ventrículo esquerdo se encontra quando doente.

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