“Espero que ainda estejam aí, porque com certeza o racismo ainda está”

Começamos esse texto com a frase, dita por Sam White, personagem da série incrível que estreou na Netflix no dia 28 de abril. Dear White People (ou Cara Gente Branca, em português), é uma série baseada em um filme de mesmo nome, lançado em 2014. E conta a história de Sam e outros jovens negros numa universidade majoritariamente branca, nos EUA.

A trama começa a partir de uma festa blackface organizada por um grupo de alunos brancos, e vai mostrando as várias tensões raciais que há no ambiente acadêmico. São 10 episódios e cada um fala de um personagem (pena que não teve um episódio específico da Joelly).E mesmo mostrando uma realidade americana, a série aborda diversos temas comuns na vida de qualquer pessoa negra aqui do Brasil.

A série consegue mostrar a diversidade negra e consegue humanizar essas pessoas. Ali é mostrado que existem muitas formas de ser negro, e que não somos apenas um estereótipo. A narrativa apresenta vários exemplos que fogem do lugar-comum de negros em séries e filmes.

Confira alguns dos temas abordados na série.

Colorismo

O termo colorismo foi supostamente criado pela escritora e ativista negra Alice Walker, autora de A Cor Púrpura. O colorismo é a forma como o racismo se apresenta a partir da nossa aparência. Deste modo, quanto mais clara sua pele for, quanto mais traços brancos você tiver, menos racismo você vai sentir e mais chances você vai ter de ser aceito.

No Brasil o colorismo é bastante comum, principalmente pela característica do racismo que acontece aqui devido o mito da democracia racial que foi bastante difundida e ainda está arraigado na sociedade, é um racismo velado. Então quanto menos você tiver traços e cores, pigmentação e fenótipo que denuncie sua negritude, mais privilégios você vai ter em relação aos seus irmãos e irmãs de pele mais escura.

Aqui no Brasil é utilizado até mesmo a expressões que afastem te afastam da negritude como moreno claro/escuro, cor jambo, dentre outros termos, utilizados aqui de modo a “embranquecer”, pois acreditam que chamar alguém de negro é ofensivo, e embranquecendo a pessoa com estes termos “amenizaria” o “mal” da cor.

Solidão da mulher negra

Isso mostra que a cor da pele interfere inclusive nas relações amorosas. A mulher negra é preterida, inclusive, por homens negros. Segundo o último Censo, em 2010, cerca de 52 % das mulheres negras vivia fora de uniões estáveis, em “celibato definitivo”. Ao passo de que 60% dos homens negros casados ou em uniões estáveis não tinham parceiras negras.

O racismo nas palavras

Um dos momentos mais tensos de Dear White People começa quando um rapaz branco (desses que até têm amigos negros, sabe?) fala a palavra proibida “negro”, que nos Estados Unidos não tem a mesma equivalência que aqui no Brasil.

E existem muitas palavras que usamos no nosso dia a dia, que só reforçam estereótipos como expressões como “mulata” ou “a coisa tá preta” que são comuns no nosso dia a dia, , mas que é indício do quanto o preconceito estão incorporados na nossa vida de diferentes maneiras.

Agressividade

Mostra também sobre toda vez que falamos sobre o racismo somos considerados “agressivos”, “exagerados” e até mesmo “que nos é que estamos sendo racistas” e que vemos racismo em tudo.

Sobre isso é dita uma frase incrível na série:

“Você não acusa o médico de ter te infectado só porque ele diagnosticou seu problema.”

Quando apontamos o racismo sempre nos veem pelo estereótipo do negro barulhento, combativo demais, que vive sempre procurando discussão, e até usamos a violência como argumento.

Na série quem sofre mais com esse estereótipo de pessoa negra violenta é o Reggie que enfrenta mais de uma situação em que a pessoa branca espera que ele seja violento só porque é preto. E ele é justamente um dos personagens mais inteligente, um gênio da programação, mas que tem sua genialidade ignorada pelo estereótipo que é colocado nele.

Violência policial

O negro passa por medo do assalto ou do estupro, assim como qualquer pessoa branca, mas ela também passa pelo medo da própria polícia. São os negros que são mais abordados pela polícia e são também os que mais morrem pelas mãos de policiais. O encarceramento é também maior para pessoas negras. A população prisional brasileira é majoritariamente negra (são 67% de presos de pele escura, contra 32% de brancos e 1% de amarelos).

Os negros sempre foram confundidos com assaltante, já evitou o olhar torto de um policial ou até mesmo uma revista ou uma “dura” na rua, por sua cor de pele, além do segurança de loja. O episódio mais emocionante e chocante da série mostra uma situação desse tipo. Nesse episódio é dita uma frase bem legal sobre esse ataque contínuo por causa da nossa cor de pele:

“Nossa cor de pele não é uma arma, não precisam ter medo dela.”

O documentário a 13º Emenda fala muito bem sobre isso ao mostrar como o sistema penitenciário dos EUA perpetua a escravidão e como o sistema vai criando novos mecanismos, mais modernos e se adaptando com a época para explorar e segregar as pessoas negras. Assim como a série, o documentário também possibilita fazermos um recorte da realidade brasileira para entendermos nosso próprio processo social. Assim como nos EUA, o sistema escravocrata se modernizou no Brasil e, claro, é nós que somos os alvos para encher as senzalas que servem a casa grande.

Racismo Reverso

Ainda temos que falar que racismo inverso NÃO EXISTE? Se você é chamado de “branquelo” ou “alemão” isso não é racismo, pelo simples fato de que ser branco nunca te impediu de entrar em uma loja, os seus cabelos lisos nunca forma denominados ruins, seus traços nunca foram denominados “feios”, muito pelo contrário, visto que é padrão.

O racismo reverso que muitos defendem existir nunca te impediu de conseguir emprego, ou de ganhar menos, conforme aponta dados do IBGE de 2015, que aponta que os trabalhadores negros ganharam, em média, 59% do rendimento dos brancos, e que uma mulher negra recebe cerca de 39% do salário de um homem branco.

O racismo não é só chamado de criolo, nega do cabelo duro ou tia Anastásia, não é só questão de apelidos, como muitos pensam, é sobre um conjunto de mecanismos que faz com que os negros sofram todos os dias, a toda hora. Racismo contra o negro é estrutural e mata diariamente muitos de nós. Não há piada de branquelo que faça com que você saiba o que os negros vivem diariamente.

Frases EXCELENTES da série

As opções são drama urbano barato ou pornô trágico. Quando acidentalmente nos dão um filme de qualidade, eles acham que isso os dá direito de nos tratarem feito merda. Licença moral de classe.

Tipo Tarantino…só porque ele deixou o Jamie Foxx matar um bando de racistas em Django Livre, ele acha que pode fazer carnaval com todos os estereótipos negros da história.

- (…) racismo, aqui? Eu não acredito! (ironia)

- Quem poderia imaginar? (ironia)

- É, eu achei que o presidente Obama tinha resolvido isso. (MUITA IRONIA)

“Minhas piadas não prendem seus jovens em níveis alarmantes nem tornam perigoso andar no próprio bairro, mas a de vocês, sim. Quando zombam ou nos menosprezam, vocês reforçam um sistema existente. Policiais olhando para um negro segurando uma arma não veem um ser humano, eles veem uma caricatura, um bandido, um preto. Não podem mais se vestir de negro no hallooween e fingir ironia ou ignorância, não mais.”

“Nem tudo o que se enfrenta pode ser mudado, mas nada pode ser mudado se não for enfrentado.