Não precisamos do Dia Internacional da Mulher Negra?

IMAGEM DA EBC
“ (…) 
A voz de minha filha 
recolhe em si 
a fala e o ato. 
O ontem — o hoje — o agora. 
Na voz de minha filha 
se fará ouvir a ressonância 
o eco da vida-liberdade”
Conceição Evaristo, 
Cadernos Negros, 1990.

Neste mês de julho comemorou-se o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha. Houve, pelo país todo, pautas de mobilização, eventos, debates e manifestações de luta contra o racismo, o feminicídio, o machismo, o ódio à população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) e contra a retirada de direitos.

Eu não pretendia falar sobre o assunto, pois há um conteúdo vasta por toda a rede, abordando o tema. Porém, voltei atrás ao ser questionada por um “ser de outro” — só pode — qual a relevância dessa data. Então vejamos alguns dos motivos.

Sabemos que a vida não é fácil para uma mulher no país. Todos nós conhecemos, por exemplo, alguém que já sofreu algum tipo de violência por parte do parceiro, do pai, de um homem. Mais isso é ainda mais difícil na vida de uma mulher negra. Acompanhe os dados:

As mulheres negras têm duas vezes mais chances de serem assassinadas que as brancas, sendo que a taxa de homicídios por agressão: 3,2/100 mil entre brancas e 7,2 entre negras (Diagnóstico dos homicídios no Brasil. Ministério da Justiça/2015).

Outro dado assombroso para todas nós é que enquanto houve uma queda de 9,8% no total de homicídios de mulheres brancas, entre 2003 e 2013, os homicídios de negras aumentaram 54,2%.

Segundo os dados da Central de Atendimento à Mulher — Ligue 180 relativos ao ano de 2013 apontam que 59,4% dos registros de violência doméstica no serviço referem-se a mulheres negras. A pesquisa aponta ainda que 58,86% das mulheres vítimas de violência doméstica são negras.

Além disso, as negras são 68,8% das mulheres mortas por agressão. (Diagnóstico dos homicídios no Brasil Ministério da Justiça/2015)

Já no Dossiê Mulher 2015, do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, aponta que 56,8% das vítimas dos estupros registrados no Estado em 2014 eram negras. E 62,2% dos homicídios de mulheres vitimaram pretas (19,3%) e pardas (42,9%).

Por, supostamente, aguentarem mais dor — ideia herdada do período escravocrata do país- 65,9% das vítimas de violência obstétrica são mulheres negras, muitas vezes não recebendo nenhum tipo de medicamento por serem ‘mais fortes’ (dados dos Cadernos de Saúde Pública 30/2014/Fiocruz).

E são as mulheres negras que mais são vítimas de mortalidade materna, cerca de 53% segundo dados do SIM/Ministério da Saúde/2015.

Mas, com certeza — conforme disse o pimpolho alienígena que só pode viver em outro planeta — Não precisamos lutar, pois os dados acima apontam que vai tudo as mil maravilhas, obrigada.

A luta é árdua, sim, mas o importante é que agora já existe a consciência de que essa luta é indispensável.

Eu sempre digo que o racismo no Brasil é o do pior tipo, pois não te permite nem mesmo a consciência do racismo. Algumas pessoas ignoram a necessidade da luta, pois o racismo é velado, disfarçado, que te faz passar por louco. Então a tomada de consciência já é um passo grande.

Que nós mulheres possamos estar unidas para fazer dessa realidade algo diferente, pois somos mais fortes juntas.

Mais informações AQUI e AQUI