Café, o novo vinho

Por mais aroma, sabor e prazer a cada dia

Difícil imaginar a manutenção da existência humana sem a sensação de prazer. O prazer está diretamente ligado ao nosso bem-estar e qualidade de vida, e até a nossa sobrevivência enquanto espécie sempre dependeu dele!

Pra nosso deleite e alegria, a noção de prazer alimentar vem entrando na fase 3.0 no atual estágio da civilização humana: tão importante quanto viver, é ter prazer e ser feliz com coisas corriqueiras do dia a dia, como os alimentos!

Café ou vinho?

Segundo os estudiosos, a palavra café veio do termo turco kahvé, que por sua vez desenvolveu-se a partir do termo árabe qáhwa,(pronuncia-se ‘caoua’) que significa tanto “café” quanto “vinho”. Desde o século XV, café ou vinho, é tudo uma questão de semântica! ;)

Infelizmente (especialmente no Brasil) somente nas últimas décadas é que o vinho e o café evoluíram enquanto produto, melhorando processos, finalizações e apresentações. Apesar de parecerem universos separados, tem sido graças aos conhecimentos adquiridos da cultura gustativa do vinho que o café especial vem se aprimorando e, assim, ganhando espaço entre os consumidores de percepção apurada. Afinal, compreende-se agora que qualidade de produto e bom paladar são noções intimamente ligadas. E se existe a associação de que “comida é prazer”, então bebida também é!

A Primeira, a Segunda e a….

A famosa expressão “a terceira onda do café” surgiu basicamente por conta da “descoberta” de que o café possui doçura, acidez, aromas e nuances gustativas apreciáveis (e quantificáveis!). Nessa nova fase o lema é: mais do que beber-por-beber, o que vale agora é a experiência de uma boa xícara. E não raro, um bommm café (dependendo da extração) pode ser translúcido como o vinho!

Uma das primeiras rodas de sabores: compreensão dos aspectos de um café!

Essa revelação das novas qualidades nutracêuticas e gustativas do café o alçou ao status de produto diferenciado. E com essa percepção renovada de produto, o café de alta qualidade ganhou novo adjetivo qualificador: o termo “especial” (specialty coffee). Um café para ser considerado como especial precisa estar enquadrado em parâmetros muito específicos, desenvolvidos pela SCA — Specialty Coffee Association, que avaliam a complexidade sensorial de cada café.

Geralmente cafés produzidos em pequena ou média escala, dependendo, é claro, de diversas condições e questões produtivas, alcançam boas notas dentro desse padrão internacional. Isso é, o café especial é um item alimentar de qualidade, que possui características próprias e bem definidas. É uma bebida que se distancia - e muito! - do recorrente (e persistente!) c͟a͟f͟é͟ t͟r͟a͟d͟i͟c͟i͟o͟n͟a͟l͟* que encontramos fartamente por aí. Isso é, aquele café que segue os padrões industriais e/ou do grande mercado, disponível nas inúmeras gôndolas deste país, tanto nos micro mercadinhos quanto nos hiper mercados.

Mais, mais e mais

Mas enfim… por conta das novas exigências por mais qualidade, tanto no quesito alimentar quanto no quesito apreciação de sabor, foram surgindo no mercado interno o aumento exponencial da demanda por vinhos e cafés mais elaborados, mais bem cuidados, de sabor apurados e melhor finalização. Inclusive o consumidor já entende melhor essa ‘nova cultura’ de bebidas que fazem parte do universo gastronômico. Prova disso tem sido o aprimoramento das embalagens e apresentações, que tornaram-se mais detalhistas, privilegiando a informação técnica e a transparência do produtor para com o público. E com certeza, merecemos mais (e mais e mais e mais!) do que nos oferecem a maioria das empresas de varejo….

Partiu, café?!

Todo o knowhow ligado à qualidade dos grãos do café vem proporcionando bebidas incríveis em nossas xícaras! E toda a diversidade de sabores que o nosso país produz está sendo descoberta por quem deseja o prazer que um bom café propicia!

Sendo o café especial um produto tão incrível e diverso quanto um bom vinho, é possível ter essas duas paixões tão similares (e tão opostas em seu consumo!), convivendo em nossas mesas, trazendo diversidade alimentar, saúde e alegria de viver a todos nós, desde a primeira refeição até a última!

Hummmmm…. Perái que vou ali esquentando a água…


*Existe uma classificação estritamente brasileira, a COB. Aqui no Brasil ela segue em paralelo á classificação internacional. Isso inclusive ainda confunde bastante os atores da cadeia produtiva do café, com relação à classificação de seus produtos. Não me detive nos detalhes e questões relativas à Classificação Oficial Brasileira, pois não é o foco do meu trabalho, que é voltado exclusivamente para os especiais.

Imagem: Nósfotografa

Texto original de Moni Abreu.
Cafeóloga, brewer barista, designer de experiências, hacker do café. Multipotencial e mente sináptica e criativa da Café!Café!Café! 
Empreendedora social e coordenadora da Cafeoteca do Brasil 
Fusqueira, coffee hunter e interventora urbana do FusCafé. 
Palestrante, consultora e visagista na área dos cafés especiais. 
Educadora disruptiva, contadora de histórias e coffee coach. 
Linker das questões universais para o microcosmos do café. 
Agrofloresteira, agitadora cultural e quebradora de paradigmas. 
Naturalmente curiosa, apaixonada por pessoas e amante deste planeta.


Artigo licenciado sob a Creative Commons — Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional

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