Veneno nosso a cada xícara

Sabe aquele seu delicioso cafezinho?

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) liberou em 2016, a extensão de registro do agrotóxico Heat, produzido pela Basf, agora para ser usado na cultura do café. A matéria foi veiculada à exaustão no meio cafeeiro e o assunto foi enormemente comemorado (sic) por diversos produtores de café.

Um relatório do IBAMA, lançado sem nenhum alarde em setembro de 2017, indica o produto exclusivamente para áreas NÃO agrícolas. Nenhuma outra matéria ou dado tem sido apresentados sobre o uso e a venda do mesmo desde o boom midiático. Só isso já mereceria um jornalismo investigativo…

Mas, ora bolas, agrotóxico tem esse nome não é à toa, não é? Será mesmo que o nosso cafezinho de todos os dias tem o ‘direito’ (ou a quase imposição) de carregar mais um veneno da nossa xícara para nosso organismo? E assim, covardemente, sem sermos esclarecidos sobre os danos à tudo e todos?

O produto já estava sendo utilizado nas produções de cana, milho e soja para exterminar as plantas de folhas largas como a buva, a trapoeiraba e a corda-de-viola. A ideia seria controlar aquilo que a cultura da “revolução verde” chamou de ‘plantas invasoras’ ou ‘daninhas’ (e planta causa dano em algum lugar? #perguntopqnãosei).

Vai um cafezinho saflufenado, aê!

O SAFLUFENACIL foi lançado após tornar-se flagrante que diversas destas plantas sem interesse comercial, que crescem junto às plantações, adquiriram resistência aos herbicidas já existentes, como o glifosato e outros. Conclusão: a indústria renova suas violações a cada homeostase da natureza.

“…não tem mais inocente, tem esperto ao contrário” — Estamira

Invectiva

Sabemos da banalidade no uso de tais químicos tóxicos em culturas produtivas e a eterna problemática do contágio humano e ambiental originada deste ato insano. Há muitos questionamentos sobre as razões para a existência dos herbicidas, já que eles se mostraram muito ineficazes no que se propuseram há décadas. Questiona-se igualmente a validade do atual modelo produtivo hegemônico, que visa apenas valorar os aspectos comerciais e financeiros, e não as questões humanas, ambientais e sociais.

No entanto, apesar de todos os estudos, comprovações e os vários manifestos contra a ditadura ‘pró produção doente’ imposta pelas indústrias agroquímicas, elas vêm aumentando sua força. Tanto no âmbito do mercado, formando conglomerados perigosíssimos, quanto nos meandros políticos, elas nos vencem no cansaço.

Fazem inclusive muita pressão sobre os pequenos produtores para que estes usem/mantenham o uso dos venenos e fiquem presos ao sistema e à mentalidade vigente, que JURA ser indispensável esses produtos matadores para a produção. De que? De COMIDA, claro! E isso é vergonhoso! É um ato lesa humanidade, um atentado contra o planeta de maneira geral!

Lucidez ambiental

O engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, cita neste artigo, que os novos herbicidas levarão ao surgimento de plantas mais resistentes também aos novos defensivos. “Com o tempo, teremos ervas cujo controle se tornará mais e mais complexo, para as quais os herbicidas que conhecemos não funcionarão”. Como explica Luciano Pessoa de Almeida, ‎engenheiro agrônomo na Universidade Federal da Fronteira Sul: o HEAT é “uma solução proposta para um problema que foi criado pelas próprias multinacionais”.

Vamos ler nas entrelinhas como é a mentalidade agroquímica? “…depois de estragar solo, humanos, águas e plantas, a gente inventa um troço que vai estragar mais ainda. Mas tudo bem, o importante é que venderemos drogas como se fossem eficazes, mesmo sem ser, e LUCRAREMOS muito com a ‘solução’ daquilo que é insolúvel e insolvível!”

Quanto tempo levará para que o tal saflufenacil, ingrediente ativo do Heat, configure na lista dos POPs como um dos piores poluentes orgânicos persistentes que veremos ainda com vida?

“Cuidado, veneno” é o que diz na bula. Mas ngm parece levar à sério…

Como será que o seu simples café coado ficará daqui para frente, com este e, quem sabe, mais outros tantos produtos químicos ‘aprovados’ pelos ‘órgãos competentes’, químicos estes que servem antes de tudo, para matar a todos nós bem lentamente? O que será que essas empresas, profissionais de laboratório, agrônomos e outros humanos envolvidos com a produção, liberação legal, assinatura de receita de uso e venda de produto, têm na cabeça? Ô, mundo louco… já posso colocar meu diploma de Tecnóloga em Meio Ambiente na lata do lixo?

Vamos aos fatos

Está disponível à qualquer pessoa, conhecimento suficiente para DESTRUIR a lógica da indústria dos venenos agroquímicos. Infelizmente, esse knowhow é sumariamente ignorado, tanto pelos fabricantes quanto pelos profissionais envolvidos com toda a estrutura que mantém essa bomba relógio em situação ficticiamente viável. Afinal, há um grande interesse no ‘negócio agroquímico’ e seu potencial absurdo de fazer dinheiro a partir de nada. E para essa manutenção de poder, além das instâncias políticas, a grande mídia e o marketing contribuem bastante.

Para quem ainda não sabe, não existem “espécies invasoras” (será que elas são de MARTE?). Todas pertencem ao solo em que nascem. E é assim porque as condições para seu aparecimento simplesmente foram favoráveis para tal. Faz todo sentido, não é? E não digo nada de novo, a engenheira agrônoma Ana Primavesi, já nos idos de 1960, alertava sobre a cultura expoente da MORTE DA VIDA DO SOLO [biocenose]. Mostrava como esse ideário, que nasceu na segunda grande guerra, foi reinventado e escamoteado atrás do termo ‘revolução verde’. Isso é, onde antes o produto era “bomba para matar”, passou a produto travestido de “cuidado com as plantas”, criado junto a uma visão de agricultura megalomaníaca onde era preciso ‘mais para alimentar o mundo todo’.

Hoje sabemos que é uma grande falácia. Sabemos também que promover VIDA autônoma de seres e solos não ajuda a vender produto, só a MORTE destes gera lucro. Mas não pra gente…

Revendo o que o tal heat faz….

Vejamos o que o produto promete MATAR….

  • A buva tem muitos nomes, como acatóia, capetiçoba, enxota, rabo-de-foguete, salpeixinho, avoadinha, erva-lanceta, margaridinha-do-campo, voadeira (Conyza Bonariensis): Sabia que ela é uma planta medicinal que produz muitas sementes levíssimas, por isso sua dispersão pelo vento é incrível?
  • A corda-de-viola (Ipomoea sp.): Sabia que esta singela é parente da batata doce e é igualmente comestível? E que ela é nativa da caatinga e suas belíssimas flores fazem parte do sistema Florais de Minas? A essência floral da bela ipoméia purifica e clarifica. Auxilia na libertação de drogas. E não é por acaso que ela regula ciclos e vida desregrada! Viu pq ela aprece nas plantações?
  • A trapoeraba (Commelina benghalensis): Sabia que essa boniteza verdemente brilhante é nativa da mata atlântica? Ja fez salada com ela? Hummm, delícia! Bela, encantada e para o lar! Ela é uma PANC (Planta Alimentícia Não Convencional!).

Então… todas elas são plantas fitoterápicas, alimentares e/ou curadoras de solos e de humanos! E mais, elas são usadas para RECUPERAÇÃO DE SOLOS pela agroecologia e agrofloresta! Simmmm, elas são fadas benfazejas e aparecem lá no meio da produção, porque a natureza está tentando prover o equilíbrio e os meios para a recuperação daquele solo MORTO!

Mas aí vem a indústria “esperta ao contrário” e resolve matar tudo, sob o argumento torpe de que essas plantas forrageiras “exercem competição principalmente por recursos como luz, (oi?), água (mas como, se somente elas cobrem o solo do sol direto?) e nutriente (elas trocam nutrientes com as plantas ao redor!!)”. Hmpft… Vai tentando me enganar, Basf…
O dia em que pessoas agricultoras descobrirem que essas plantas chamadas ‘mato’ curam gentes e solos, as indústrias interesseiras irão morrer pobres. 
E esse é o medo delas…

Mude o mundo

Conclui-se então que as plantas não estão competindo com o pé de café ou com a cultura plantada. Elas competem sim, mas é com a MULTINACIONAL que quer vender produtos que NUNCA serão eficientes e nem benfazejos como as plantas. Só produto vivo (como as ervas) podem promover cobertura vegetal e substratos para gerar mais VIDA no solo!

É fato: essas empresas querem matar tudo o que estiver acima e abaixo da terra por causa de uma palavra com cinco letras: LUCRO. E o que você tem a ver com isso? E os agricultores? E o seu planeta? E seus descendentes? Mas e o seu CAFÉ???? O que você fará a partir de agora?

Descubra como estas e outras plantinhas queridas são importantes para o solo através da “Nota Técnica para o Programa de Fomento Ambiental — IEF”, BH, 2008 [jogue o nome do google, é um PDF]. Pense no absurdo que é esse desejo insano de matá-las e como funciona a mentalidade errônea da atual produção alimentar. E em como esse ministério (o MAPA e outros também!), que deveria prezar pela nossa qualidade e segurança alimentar, está vendido aos interesses econômicos estrangeiros!

“É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que estão sendo enganadas.” — Mark Twain

Texto original de Moni Abreu, que além, de cafeóloga, escritora e brewer barista, também atua com educação ambiental, agroecologia, agrofloresta, terapias naturais e alimentares.

Todos os artigos de Moni Abreu estão sob a licença “Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License”.
Características desta Licença:
1) Necessita referência à autora, com link específico do trabalho referido; 2) Proibido fazer adaptações textuais; 3) Proibido o uso comercial dos conteúdos.
A Creative Commons oferece licenças de direitos autorais que permitem o compartilhamento do conhecimento sob certas condições, à escolha de seus autores.


Este artigo também estpa publicado no Jornal Ou Seja.

Cadastre-se e receba meus textos antes que tornem-se públicos.

Se você achou relevante este artigo, clique em “bater palmas”. Seu incentivo é o que mantém nós autores, escrevendo. Grata.

…aproveita e compartilha o artigo prágeráu lá no face!

Like what you read? Give Moni Abreu a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.