Como o revival estragou Gilmore Girls

O pequeno globo de neve que era Stars Hollow quebrou e não consigo retomar os episódios antigos — ou desejar uma segunda temporada do revival

A gente esperou tanto que acabou emocionado demais para enxergar a realidade. Mas uma hora caiu a ficha

A notícia de um revival de Gilmore Girls deixou uma fã desesperada como eu muito animada. Era a chance de “viver” de novo em Stars Hollow e nas conquistas em potencial de Lorelai (Lauren Graham) e Rory (Alexis Bledel). Quando comecei a assistir Gilmore Girls eu estava entrando na faculdade. Não peguei a série do início — na época não tinha internet como temos agora e muito menos Netflix. O interessante é que comecei a assistir Gilmore bem na época em que ela entrou na faculdade. Então caminhamos juntas pelo novo momento de nossas vidas, eu assistindo os episódios enquanto estudava os assuntos das aulas de madrugada (fazia faculdade de noite e pegava as reprises da série na Warner) e ela vivendo a entrada em Yale.

Logo depois do fim da internet discada em minha casa pude enfim baixar os primeiros episódios e fazer o que hoje chamam de binge watching. Em pouco eu já tinha assistido as primeiras temporadas e sabia da história toda. Fiquei fascinada por representarem uma garota que tinha como maior objetivo entrar na faculdade e seguir carreira de jornalista. Eu estava fazendo Direito, mas me identificava com as ambições de Rory, ao mesmo tempo que me sentia parecida com a cabeça-dura de Lorelai (não que isso seja necessariamente maravilhoso).

O fato é que me identificava um pouco com cada uma daquelas mulheres e meninas, e desde Buffy eu não acompanhava uma série com tantas mulheres fortes juntas. Era o alívio de uma TV onde eu me sentia pouco representada. Claro que eu não fazia as problematizações que faço hoje da série (como a quantidade medíocre de personagens não-brancos e todas as implicações de Lorelai ser na verdade alguém de classe média alta fingindo não ser de classe média alta).

Posso dizer então que o revival estava sendo muito esperado. No início do primeiro episódio eu confesso: já estava chorando. Até que coisas estranhas começaram a acontecer (e foi preciso assistir umas quatro vezes para enxergar as coisas com olhos críticos). A primeira cena já demonstra a ferrugem na série e a péssima capacidade de interpretação de Alexis Bledel. Aos poucos, notei que o que a Amy Sherman-Paladinno fez foi transformar tudo o que a gente gostava na série, os pequenos detalhes e trejeitos das personagens, em caricaturas e presentinhos para os fãs ficarem bastante empolgados. Tenho provas:

  • Lorelai falando repetidas vezes que sente o cheiro da neve. Veja bem, ela dizia isso de um jeito natural na série original; as vezes em que ela falou no revival foram forçadas e não pareciam estar ali sem ser para prestar homenagem à série original;
  • O jeito “quirky” de Lorelai foi elevado à enésima potência, tornando-a uma caricatura de si mesma. Lorelai da série original dificilmente iria “malhar com latas de coca-cola”. Tudo parecia forçado, as expressões de Lauren Graham, as frases, a relação com Rory;
  • A pior cena é, sem dúvida, a primeira, em termos de estranhamento. As frases ditas rapidamente eram claramente só uma referência à série original, não foram naturais ou minimamente verossímeis dentro da realidade de Gilmore. Eram apenas para matar a saudade de quem desejava ouvir os diálogos rápidos da série.

Todas as personagens — como já foi dito em inúmeras matérias — tornaram-se versões horrorosas de si mesmas. Não preciso nem dizer aqui como a gente pensava que o problema da Lane estava no texto do produtor da série na sétima temporada, David Rosenthal. Mas os Paladinno nos mostraram que não, que eles também são quadradões e que aquela pose da Amy é uma pose mesmo. Mais provas:

  • Os produtores originais da série realmente acreditam que uma parada gay é apenas composta por…gays;
  • Amy e Daniel acreditam que mulheres que transam com caras uma única vez (aquele one night stand) são umas perdedoras (que nesse aspecto eles eram quadrados a gente lembra já da série original, com a questão toda da virgindade de Rory)
  • A série REALMENTE acha que Rory e Logan são algo perto de um casal romântico. Sério. Um cara que a gente não sabe o que faz e que compra a Rory com jantares e viagens e uma garota que basicamente aceita ser manipulada em troca de um ideal de relacionamento. Isso com certeza é romântico
  • Lane permaneceu em Stars Hollow trabalhando na loja da mãe. Não preciso dizer mais nada sobre isso né?
  • Não sei se vale ainda mencionar a xenofobia de Luke (quando ele diz que não sai de Stars Hollow nem pra comprar sei lá o quê, que dirá adotar um bebê de fora) e a gordofobia de Lorelai e Rory. Foi constrangedor assistir
  • LUKE TIRAVA O BONÉ GENTE. Aquilo virou uma fantasia. Não é possível que as pessoas achem que um cidadão vai ficar de boné dentro de casa por tempo indeterminado e usar o mesmo visual todo dia, o dia todo. É uma piada com quem o personagem já foi.
TIRA ESTA ZORRA, migo

Fora tudo isso, eu não consigo mais acreditar em Rory. Em sete anos de série, ela tinha seus problemas, como todos nós, mas se transformou numa criatura egocêntrica, classista, metida a especial, babaca mesmo. Eu sei que o jornalismo não está lá essas coisas, mas ela basicamente não se esforça. E a gente que acompanhou toda a série pensa “eu assisti a trajetória dessas pessoas pra isso? Eu assisti a Paris ser ambiciosa, implacável e competitiva pra que ela surte por um crushezinho de milênios atrás?”. Pra quê diabos Rory corria tanto atrás das melhores notas, das grandes oportunidades, ela realmente tinha ambição de ser alguma coisa? É basicamente a ideia de que se aquelas personagens incríveis se transformaram nessas pessoas, não faz sentindo acompanhar o crescimento delas. A gente sabe onde elas vão chegar. E é bizarro.

Pra completar, a série adiciona cenas teatrais demais e que ficam muito artificiais nas nossas telas. Nem o musical é tão ruim quando Rory e Logan correndo com os amigos mimados deles ao som dos Beatles. Só queria que o constrangimento acabasse, mas aí veio o casamento de Lorelai. O visual da cena é muito bonito, mas ninguém precisa de uma coreografia de Rory e Lorelai andando e dançando pelo lugar. A gente não paga internet pra isso. Não assistia Gilmore pra isso.

Não tem nenhuma cena que eu odeie mais do que essa.

Dá pra entender que precisava rolar drama. Richard morreu. O jornalismo tradicional está uma bosta. Os personagens precisavam se tornar mais complexos. Mas o que aconteceu foi que a série foi tão desconstruída e privada de todos os aspectos que a tornavam única e interessante para o público que não dá pra se sentir bem quando a gente assiste de novo, como fazia com a série antiga. Arrancaram sua leveza e transformaram suas pequenas qualidades em caricaturas para atrair o público que consome Gilmore numa época em que ALGO PRECISA ACONTECER URGENTE, senão a gente migra pra outro programa.

Eu estava desejando uma segunda temporada, mas tenho medo de querer estapear a Rory e desligar a TV no meio do caminho. Então, assim como na sétima temporada da série original, prefiro que deixem o bololô quieto, pra não feder ainda mais. A Rory era apenas mais uma classe média sofre e a gente aceita isso, aceita que as mulheres de Stars Hollow ficam presas em Stars Hollow e pronto, aceita que Lane vai ser a mãe e acabou. E deixa tudo assim mesmo.

Pelo menos Emily teve um final digno de Emily. Se você ainda não tiver assistido, faça isso pela Emily mesmo. O resto não vale a pena.

Eu demorei para escrever isso porque não entendia o que estava acontecendo com a minha relação com Gilmore e também demorei para acreditar que não tinha curtido o revival como imaginei antes. A ficha, enfim, caiu.

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